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Brasil

Desemprego em queda histórica esconde desafios estruturais

Mesmo com números recordes, desigualdades raciais e de gênero persistem

Publicado em 17/02/2025 11:15 - Semana On

Divulgação Paulo Pinto - Abr

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O Brasil encerrou 2024 com um marco positivo em seu mercado de trabalho: a menor taxa de desemprego já registrada em 14 estados desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, em 2012. O índice nacional atingiu 6,6%, consolidando uma trajetória de recuperação após os impactos da pandemia e da crise econômica. Entretanto, apesar desse avanço, um olhar mais detalhado revela que as velhas desigualdades persistem, sobretudo para pretos, pardos e mulheres, que continuam enfrentando maiores taxas de desemprego, informalidade elevada e salários inferiores aos dos brancos e dos homens.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na última sexta-feira (14), mostram que estados como Mato Grosso (2,6%), Santa Catarina (2,9%) e Mato Grosso do Sul (3,9%) apresentaram os menores índices de desocupação no país. No outro extremo, Bahia (10,8%), Pernambuco (10,8%) e Distrito Federal (9,6%) tiveram as maiores taxas médias de desemprego ao longo do ano.

Por regiões, o Sul (4,2%), Sudeste (6,4%), Centro-Oeste (5,4%) e Norte (7%) registraram seus menores níveis de desemprego desde 2012. Já o Nordeste, embora tenha reduzido a taxa para 9%, ainda se mantém acima da média nacional, refletindo desafios estruturais persistentes na região.

A pesquisa também destacou que a informalidade continua sendo uma característica marcante do mercado de trabalho brasileiro. Em 2024, 39% da população ocupada trabalhava sem garantias formais. Pará (58,1%), Piauí (56,6%) e Maranhão (55,3%) lideram os índices de trabalhadores informais, enquanto Santa Catarina (26,4%), Distrito Federal (29,6%) e São Paulo (31,1%) registram os menores percentuais.

Desigualdade racial: o desemprego e a informalidade para pretos e pardos

Apesar da melhora nos números gerais, a desigualdade racial segue como uma marca estrutural do mercado de trabalho. No último trimestre de 2024, a taxa de desemprego entre brancos foi de 4,9%, abaixo da média nacional (6,2%), enquanto pretos (7,5%) e pardos (7%) enfrentaram índices superiores. A informalidade também os afeta de maneira desproporcional: enquanto o índice nacional foi de 38,6%, ele saltou para 41,9% entre pretos e 43,5% entre pardos, ao passo que entre os brancos ficou em 32,6%.

A coordenadora da pesquisa, Adriana Beringuy, destaca que essa disparidade não é pontual, mas sim estrutural. “Essas diferenças não se explicam apenas pelo momento econômico, mas por um histórico de acesso desigual à educação, qualificação e oportunidades formais de emprego”, explica.

Os dados do IBGE reforçam a permanência de uma hierarquia racial no mercado de trabalho que reflete a desigualdade mais ampla da sociedade brasileira. O Censo 2022 mostra que pardos representam 45,3% da população, brancos 43,5% e pretos apenas 10,2%. Entretanto, essa composição não se reflete na equidade do mercado de trabalho, onde os grupos racializados continuam ganhando menos e ocupando empregos mais vulneráveis.

Mulheres ainda enfrentam maiores desafios

Além do recorte racial, a pesquisa aponta que a desigualdade de gênero também persiste no mercado de trabalho. O desemprego entre as mulheres ficou em 7,6% no último trimestre de 2024, significativamente acima dos 5,1% registrados entre os homens.

O rendimento médio mensal também revela uma disparidade considerável: enquanto os homens receberam, em média, R$ 3.540 no fim do ano, as mulheres ficaram com R$ 2.783, uma diferença de cerca de 21%. Esse fosso salarial não pode ser explicado apenas pelo tempo de serviço ou nível educacional, já que mulheres são maioria entre os diplomados no ensino superior no Brasil, segundo dados do Inep.

A recuperação econômica e seus limites

Os números do IBGE refletem, em parte, os efeitos da retomada econômica pós-pandemia e dos incentivos ao emprego formal. Medidas como a ampliação de programas de qualificação, o crescimento do setor de serviços e a estabilidade da inflação ajudaram a reduzir as taxas de desemprego.

Contudo, o avanço econômico não foi suficiente para alterar a estrutura de desigualdade do país. O aumento da informalidade entre pretos e pardos, bem como a persistente disparidade de gênero, indicam que o crescimento do emprego ainda se dá em bases desiguais.

Para especialistas, a solução passa por políticas públicas voltadas para a inclusão no mercado de trabalho, com ampliação de oportunidades para grupos historicamente marginalizados. “Reduzir o desemprego é positivo, mas garantir que essa redução aconteça de forma equitativa é o verdadeiro desafio”, afirma Beringuy.

A recuperação do mercado de trabalho brasileiro, portanto, é uma vitória parcial. Se por um lado o desemprego atinge níveis historicamente baixos, por outro, as desigualdades continuam a marcar profundamente a estrutura social e econômica do país. O desafio agora é transformar essa recuperação em um processo duradouro e verdadeiramente inclusivo.

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