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Brasil

Desemprego em queda histórica e jornada 6×1 em debate

Os caminhos cruzados do trabalho no Brasil

Publicado em 30/04/2025 10:17 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O Brasil assiste a um momento paradoxal no mercado de trabalho: de um lado, os dados divulgados pelo IBGE revelam que a taxa de desemprego alcançou 7% no primeiro trimestre de 2025 — o menor patamar histórico para esse período desde o início da série em 2012. De outro, trabalhadores e trabalhadoras organizados em movimentos populares, como o VAT (Vida Além do Trabalho), pressionam pelo fim da jornada 6×1 e a aprovação de propostas legislativas que visam à redução da carga horária semanal. Em ambos os casos, a questão central é o trabalho — sua ausência, precarização ou excesso — e os sentidos que ele assume na estrutura social brasileira.

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Os dados da Pnad Contínua mostram que, embora a taxa de desocupação tenha subido em relação aos meses anteriores (atingindo 7% após um piso de 6,1% em novembro de 2024), ela segue em trajetória positiva no recorte histórico: é a mais baixa para um primeiro trimestre desde 2012. A população desocupada soma 7,7 milhões de pessoas — número alto, mas inferior aos 8,6 milhões do mesmo período em 2024. A comparação interanual mostra uma queda de 10,5% na desocupação, evidenciando uma recuperação estrutural do mercado.

Esse avanço, no entanto, não ocorre sem tensões. A perda de 1,3 milhão de postos ocupados entre janeiro e março de 2025 — com destaque para o setor informal, como construção civil e serviços domésticos — mostra que o crescimento do desemprego tem causas conjunturais, ligadas a sazonalidades e fragilidades já conhecidas. Ainda assim, a estabilidade no número de trabalhadores com carteira assinada (39,4 milhões) e o aumento do salário médio real para R$ 3.410 — o maior da série — sugerem que a recuperação não é mero alívio momentâneo.

“O bom desempenho do mercado de trabalho nos últimos trimestres não chega a ser comprometido pelo crescimento sazonal da desocupação”, afirmou Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE. A massa salarial também atingiu R$ 345 bilhões, recorde histórico, o que indica aumento da renda global dos trabalhadores, apesar da retração pontual da ocupação.

Trabalho exaustivo e desigualdade: uma crítica estrutural

Paralelamente ao otimismo moderado dos indicadores econômicos, cresce uma insatisfação profunda com as condições em que o trabalho se realiza no país. No Festival Mulheres em Luta, realizado neste mês, Priscila Santos Araújo, coordenadora nacional do Movimento VAT, foi enfática: “Quem sustenta esse país são as mulheres. Dói muito, para muita gente, ter uma mulher com voz ativa. Eu sou a ditadora do fim da escala seis por um”.

O alvo é claro: a jornada semanal de 44 horas, muitas vezes organizada em turnos 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso), considerada por ativistas e pesquisadores como uma das principais barreiras à equidade de gênero e à saúde mental dos trabalhadores. O movimento apoia a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 8/2025), da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe a redução da carga para 36 horas semanais. A pauta também foi discutida no Senado, por meio da PEC 148/2015, reacendendo o debate sobre o tempo de trabalho na sociedade contemporânea.

A crítica de Araújo tem um alicerce empírico robusto. Segundo relatório recente do governo federal, a remuneração média de mulheres negras no Brasil é de R$ 2.864,39 — quase metade da recebida por homens brancos, que ganham, em média, R$ 4.745,53. Dados do Ipea e do Ministério da Igualdade Racial indicam que 69,9% dos trabalhadores do setor de cuidados e trabalho doméstico remunerado são mulheres negras. Apenas 24% dessas trabalhadoras têm carteira assinada.

A deputada Ediane Maria (PSOL), ex-empregada doméstica migrante, também denunciou: “Chegamos aqui olhando para São Paulo como lugar da transformação. Mas o que nos espera é o quarto de empregada e o silenciamento das nossas vozes”. Suas falas revelam a persistência de um modelo de organização do trabalho herdado de pactos sociais implícitos, baseados em desigualdade, racismo e sexismo.

A economista Luiza Nassif, do Made-USP e da Unicamp, foi direta: “O cuidado no Brasil depende do racismo e da discriminação de gênero, e isso precisa acabar”. Para ela, o país vive sob pactos herdados da escravidão e do patriarcado, onde o tempo e o corpo das mulheres negras são explorados em silêncio. Embora o Brasil tenha criado, em 2023, uma Política Nacional de Cuidados, o programa ainda carece de previsão orçamentária, evidenciando a distância entre intenção e realidade.

Trabalho como projeto civilizatório

A tensão entre os dados positivos do IBGE e os clamores populares por condições mais humanas de trabalho revela uma contradição típica das democracias desiguais. Como observa a filósofa política Nancy Fraser, o capitalismo contemporâneo depende de atividades invisibilizadas — como o cuidado e o trabalho doméstico — para sustentar sua lógica produtivista. Ao mesmo tempo, legitima-se como democrático sem redistribuir tempo, poder ou dignidade.

No caso brasileiro, essa estrutura é agravada por um histórico de desigualdades raciais e de gênero não resolvidas. Como apontou a socióloga brasileira Heleieth Saffioti, o trabalho da mulher — sobretudo da mulher negra — sempre ocupou um espaço marginal e explorado, crucial para a manutenção do status quo. As jornadas longas, a informalidade e o racismo institucionalizado tornam urgente a revisão do modelo atual.

O debate sobre a redução da jornada semanal não é novo no mundo. Países como França, Alemanha e Islândia já testaram, com êxito, modelos de quatro dias de trabalho sem perda salarial, com ganhos em produtividade, bem-estar e igualdade. No Brasil, o avanço dependerá da pressão social, da vontade política e da capacidade de construir um pacto social mais justo e equitativo.

Ao cruzar os indicadores econômicos com os dados sociais, percebe-se que o verdadeiro avanço não está apenas na redução do desemprego, mas na criação de condições de trabalho dignas, com jornada equilibrada, remuneração justa e respeito à diversidade. O desafio do Brasil não é só empregar mais — é empregar melhor.

O BRASIL DAS RUAS


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