26/02/2024 - Edição 525

Brasil

Decreto de Lula tenta evitar as mortes semeadas pelas armas de Bolsonaro

Pesquisa Datafolha mostra que 69% dos brasileiros discordam de um dos principais lemas do ex-presidente: ‘Um povo armado jamais será escravizado’. Até porque um povo armado se mata

Publicado em 27/07/2023 1:20 - Leonardo Sakamoto (UOL), Andreia Verdélio (Abr) – Edição Semana On

Divulgação Edilson Rodrigues - Agência Senado

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O decreto do governo Lula sobre armas, divulgado no último dia 21, tenta podar a violência e as mortes semeadas pelo governo Bolsonaro – que liberou pistolas, fuzis e munição em quantidade suficiente para empoderar seus seguidores a tentarem qualquer coisa. Até um golpe de Estado.

Para além da redução no número de armas que podem ser adquiridas pelos CACs (que, em sua grande maioria, não são caçadores, atiradores e colecionadores, mas pessoas que simplesmente queriam um berro na cintura), o decreto devolve os calibres 9 mm, .40 e .45 para o uso restrito das forças de segurança e impede que os tais CACs transitem com armas carregadas.

O governo vai permitir que as armas que ultrapassem os limites do atual decreto adquiridas durante a gestão Jair sejam mantidas, mas lançará um programa de recompra com preços atrativos. E vai encurtar o prazo de renovação do registro, aumentar a fiscalização do uso (sai Exército, entra Polícia Federal) e não descarta a devolução obrigatória se os números da violência aumentarem.

Durante as eleições, o Brasil presenciou uma série de assassinatos estúpidos cometidos por motivos políticos. E vimos o que aliados próximos do ex-presidente são capazes de fazer com uma arma na mão.

Em 23 de outubro do ano passado, o ex-deputado Roberto Jefferson deu mais de 50 tiros de fuzil e jogou três granadas contra policiais federais que tentaram cumprir uma ordem do Supremo Tribunal Federal contra ele. No dia 29, a deputada Carla Zambelli perseguiu um homem negro com uma pistola em punho pelas ruas do rico bairro dos Jardins, na capital paulista, após ser ofendida.

Após a vitória de Lula, golpistas, muitos dos quais orgulhosamente armados, postando seus canos nas redes sociais, aninharam-se na porta de quartéis. Ameaçam golpear a democracia, como, de fato, aconteceu em 8 de janeiro deste ano.

Mas os efeitos dos decretos de Bolsonaro liberando armas foram sentidos fora da política. Uma sociedade ultrapolarizada e armada produz mortos em uma quantidade maior do que uma sociedade tolerante e desarmada. Pipocaram brigas de trânsito que terminaram com uma bala na cabeça, como o caso de Lindomar da Silva, baleado pelas costas após bater no carro de um empresário em Mogi Guaçu (SP), em agosto passado. Lindomar é CAC.

Esse tipo de morte acontecia enquanto as armas eram incensadas pelo então presidente como solução dos problemas. E quando a flexibilização do controle de acesso a elas, que ele diligentemente executou, permitiu que desavenças comuns tivessem fins trágicos, quando alguém perde a cabeça e puxa o gatilho. Em outras palavras, a herança de Jair foram pessoas mais armadas e empoderadas para usá-las.

Parte dos seus seguidores questiona a responsabilidade da banalização do uso das armas de fogo, afirmando que elas levaram à queda no número de homicídios durante o seu mandato.

Mortes caíram sim, mas por conta da efetivação de políticas estaduais de segurança pública ao longo da última década, pelo armistício em guerras travadas por facções do narcotráfico (especialmente a partir de 2017) e pela transição etária do Brasil, que está ficando menos jovem e, com isso, com menos casos de violência. Se não tivéssemos o armamentismo de Bolsonaro, a redução poderia ter sido ainda maior.

Desde a campanha de 2018, ele alimentava seus fiéis com uma retórica de que estavam em uma guerra do bem contra o mal. Uma cruzada para impor ao Brasil os “valores corretos” – processo pelo qual, segundo bolsonarismo, vale a pena pegar em armas para matar ou morrer.

Mas segundo pesquisa Datafolha do ano passado, 69% dos brasileiros afirmavam discordar de um dos principais lemas de Jair: “Um povo armado jamais será escravizado”. Até porque um povo armado se mata.

Em uma live no dia 30 de junho de 2022, Bolsonaro orgulhosamente afirmou que as lojas de armas cresceram em 72% e os clubes de tiro, em 91%, sob seu governo. E alertou que Lula, seu adversário, transformaria – veja só, que sacrilégio – clubes de tiro em bibliotecas.

Cruzemos os dedos para que o decreto seja efetivo e que Jair tenha razão.

Jogo duro contra o armamentismo

Lula afirmou, na terça-feira (25), que apenas organizações policiais deveriam ter locais para a prática de tiros e que a política de liberar a compra de armas do governo anterior era para “agradar o crime organizado” e “gente que tem dinheiro”. Lula pediu ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, para fechar “quase todos” os clubes de tiro do país.

Durante o programa semanal Conversa com o Presidente, conduzido pelo jornalista Marcos Uchôa e transmitido pelo Canal Gov, Lula disse que a população precisa viver de forma civilizada, participar de construções positivas e que o Brasil vai melhorar quando “entrar na era do livro, na era da cultura”, não das armas.

“Tem uma meia dúzia de pessoas que querem [abrir clubes de tiro], não vamos abrir. Eu, sinceramente, não acho que o empresário que tem um lugar de praticar tiro é um empresário. E já disse para o Flávio Dino, nós temos que fechar quase todos, só deixar aberto aqueles que são da Polícia Militar e do Exército ou da Polícia Civil. É organização policial que tem que ter lugar para atirar, para treinar tiro, não é a sociedade brasileira, nós não estamos preparando uma revolução”, disse Lula.

“Tinha uma confusão, pode utilizar arma, pode liberar CACs [caçadores, atiradores e colecionadores]. Eu acho que nós temos que ter claro o seguinte: por que o cidadão quer uma pistola 9 mm? Por que ele quer? O que ele vai fazer com essa arma? Fazer coleção? Vai brincar de dar tiro? Porque no fundo, no fundo, esse decreto de liberação de arma que o presidente anterior fez era para agradar o crime organizado, porque quem consegue comprar é o crime organizado e gente que tem dinheiro”, argumentou o presidente.

“Pobre trabalhador não está conseguindo comprar comida, não está conseguindo comprar o material escolar do seu filho, não está conseguindo colocar um brinquedo que o moleque precisa no Natal. Então como é que as pessoas que trabalham vão comprar fuzil?”, complementou.


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Uma resposta para “Decreto de Lula tenta evitar as mortes semeadas pelas armas de Bolsonaro”

  1. Pedro C M Jr disse:

    Só me expliquem isso….

    Pipocaram brigas de trânsito que terminaram com uma bala na cabeça, como o caso de Lindomar da Silva, baleado pelas costas após bater no carro de um empresário em Mogi Guaçu (SP), em agosto passado. Lindomar é CAC.

    O CAC que foi baleado pelas costas??????

    A arma do empresário assassino era registrada e tinha porte? Ou é mais um arma ilegal na estatística do governo que apoia o desarmamento do cidadão que cumpre as regras e leis, mas fecha os olhos para o contrabando e comércio ilegal de armas ???

    Uma piada essa matéria, ideológica e que demonstrar a má fé na sua publicação.

    Expliquem a redução absurda no número de mortes violentas do governo em que a regra para o comércio de armas foi ampliada. Sim.no período do governo do “genocida”.

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