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Ligue 180 pode ser obrigatório em notícias de violência contra mulher
Publicado em 02/03/2026 9:59 - Agência Brasil
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O percentual de mulheres que declararam ter medo de sofrer um estupro cresceu em uma pesquisa realizada pelo Instituto Patricia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, que teve novos dados antecipados nesta segunda-feira (2).
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Em 2020, 78% das mulheres ouvidas pelos pesquisadores disseram ter “muito medo de ser vítimas de um estupro”. Esse percentual cresceu para 80%, em 2022, e chegou a 82% segundo os dados obtidos em 2025.
Além das que declararam ter muito medo, 15% disseram ter “um pouco de medo”, o que significa um total de 97% de mulheres que vivem com algum grau de temor da violência sexual.
Em dois grupos, a proporção das que sentem “muito medo” é ainda maior, chegando a 87% no caso das jovens, entre 16 e 24 anos, e 88% entre as mulheres negras.
A diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, Marisa Sanematsu, ressalta que além de o medo ser constante, nenhum espaço é considerado, de fato, seguro.
“O medo assombra as mulheres brasileiras o tempo todo, desde pequenas e em todos os lugares: a casa é insegura, assim como sair e voltar, esperar o transporte, enfrentar a condução lotada ou pedir um carro por aplicativo”, disse.
“Esse medo constante faz com que elas desenvolvam suas próprias estratégias de proteção: evitam sair à noite ou usar alguns tipos de roupas e acessórios, procuram estar sempre acompanhadas e até escolhem trajetos mais longos para se sentirem um pouco mais seguras”.
Violência dentro de casa
Os institutos divulgam, nesta segunda-feira (2), a segunda onda de dados da pesquisa de 2025. A primeira onda, publicada em setembro de 2025, já havia mostrado que 15% das entrevistadas eram sobreviventes de estupro, e oito em cada dez vítimas sofreu a violência com 13 anos ou menos.
Os dados divulgados hoje acrescentam que, entre as vítimas com até 13 anos, 72% foram violentadas dentro da própria casa. Em metade dos casos, o abusador foi um familiar e, em um terço dos relatos, foi um amigo ou conhecido da família.
No total, 84% dos estupros foram cometidos por um homem do círculo social da vítima.
Essa porcentagem diminui no caso das mulheres violentadas com 14 anos ou mais, porém os conhecidos ou membros da família se mantêm como a maioria: 76% dos abusadores eram pessoas conhecidas, incluindo amigos, parceiros íntimos, familiares e ex-companheiros. Além disso, 59% sofreram a violência dentro de casa.

Apoio às vítimas
A pesquisa Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro teve a participação de 1,2 mil pessoas, homens e mulheres, de todas as regiões do país.
Além de perguntar para as mulheres sobre suas próprias experiências com a violência sexual, as entrevistas também ouviram a percepção geral dos entrevistados sobre o assunto.
Nas respostas, foi praticamente unânime o entendimento de que as mulheres têm medo de estupro: 99% dos entrevistados concordam.
Apesar disso, 80% das pessoas acreditam que as vítimas nunca, ou quase nunca, revelam para outras pessoas a violência sofrida, principalmente por sofrer ameaças do agressor, por terem medo de não serem ouvidas ou por sentirem vergonha.
Os resultados gerais se assemelham ao que foi dito pelas entrevistadas que relataram ter sido vítimas, conforme a primeira divulgação da pesquisa.
Cerca de 60% das mulheres que foram vítimas antes dos 14 anos não contaram para ninguém sobre o abuso. Além disso, apenas 15% foram levadas a uma delegacia, e 9%, a uma unidade de saúde.
O apoio a políticas de apoio às vítimas também foi amplo: 93% concordam que o Estado deve fornecer acompanhamento psicológico imediato para meninas e mulheres vítimas de estupro, e a mesma porcentagem acredita que as prefeituras e governos devem aumentar a divulgação de serviços de saúde que atendem vítimas.
Depoimentos
Além dos percentuais obtidos com as respostas, os institutos também divulgam nesta segunda-feira depoimentos de mulheres que sofreram violência sexual.
Uma mulher parda, moradora do Sudeste, com idade entre 25 e 44 anos, contou:
“Comecei a ser abusada criança, com 6 anos, sem nem entender o que acontecia, e o abusador me fazia acreditar que eu era culpada e que, se eu contasse para alguém, ninguém acreditaria em mim. Meu abusador era o meu pai.”
Já outra vítima, uma mulher preta, moradora da região Sudeste, com 45 anos ou mais, até tentou pedir socorro mas não foi acolhida.
“Eu tinha apenas 11 anos, foi horrível, não entendia direito o que estava acontecendo. Tentei falar com a minha mãe, mas ela não acreditava em mim, dizia que eu queria acabar com o casamento dela. Ainda bem que minha avó percebeu algo estranho e me trouxe de volta pra casa dela”.
A gravidez e a falta de suporte para o abortamento adequado também aparecem nos depoimentos, como o de uma jovem parda, moradora da região Sudeste, com idade entre 16 e 24 anos.
“Eu sofri um abuso e engravidei por causa desse ato. Eu, com 13 anos, não poderia ser mãe e ia interromper minha vida, eu estava estudando, então, eu decidi não contar para os meus pais e pedir ajuda de uma amiga próxima minha. Então, ela me levou a um aborto clandestino e lá eu fiz o procedimento”.
Acolhimento é garantido em lei
A diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão explica que o atendimento imediato e integral às vítimas de violência sexual em todos os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS), sem exigência de boletim de ocorrência, é garantido por lei no Brasil desde 2013.
“É fundamental que o Estado, em todos os níveis de governo, invista na divulgação de informações sobre os direitos da vítima de estupro e de como ela pode acessá-los para proteger sua saúde física e mental, para que essas meninas e mulheres possam retomar suas vidas após o trauma da violência”, complementa Marisa Sanematsu.
A ampla maioria também foi favorável aos serviços que realizam a interrupção da gravidez nos casos previstos em lei, como o estupro. Nove em cada dez entrevistados concordam que todas as vítimas devem ser informadas, nas delegacias ou serviços médicos, sobre os protocolos para evitar infecções sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.
Além disso, 86% acreditam que devem existir serviços públicos em todas as cidades para a interrupção da gestação em casos de estupro. No entanto, apenas metade dos entrevistados conhece algum serviço que promova esse atendimento.
De acordo com a diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, María Saruê Machado, a pesquisa evidencia a necessidade de ampliar e preparar melhor os serviços de acolhimento.
“Existe amplo apoio da população para que vítimas de estupro tenham acesso aos direitos garantidos por lei, mas essas informações ainda não chegam a quem mais precisa”.
“O estupro é uma violência próxima da realidade da maioria das mulheres, e romper o silêncio por meio da informação é um passo fundamental para garantir proteção e acesso a direitos a todas as mulheres”, defendeu.
Direitos em constante ameaça
De acordo com a comunicadora social e ativista Angela Freitas, co-diretora da campanha “Nem Presa Nem Morta”, o cumprimento da legislação que prevê atendimento e proteção das vítimas ainda depende da disposição de gestores políticos.
“A maior parte dos municípios não dispõe desse serviço, as pessoas têm que viajar longas distâncias e nem todo mundo pode fazer isso. É uma carência muito grande. O Brasil passou por um processo de democratização, fez a sua Constituinte, criou o Sistema Único de Saúde, o Sistema Único de Assistência Social, criou políticas públicas, mas todos esses avanços vivem ameaças constantes de retrocesso. Eles ainda não se consolidaram como direitos que são dados e que ninguém contesta”.
Angela Freitas também foi uma das articuladoras da campanha “Criança não é mãe”, contra o projeto de lei que pretendia equiparar o aborto ao crime de homicídio, mesmo nos casos previstos por lei. Ela acrescenta que essas carências são particularmente danosas para as crianças e adolescentes que engravidam após a violência
“Em grande parte, esses episódios não são revelados de imediato. Até porque elas não são preparadas para entender que o corpo delas deve ser respeitado, inclusive por pessoas da convivência familiar e comunitária. Há uma falta de diálogo e de informação e uma condescendência muito grande com essas situações”.
“Com isso, muitas vezes, a gravidez não é percebida pela criança nem pelos familiares que estão em volta. Ela só vai ser percebida muito tarde e, quando essas meninas chegam ao serviço de saúde para buscar atendimento, e o direito de interromper aquela gravidez, elas encontram dificuldades dentro do próprio sistema”.
Ligue 180 pode ser obrigatório em notícias de violência contra mulher
A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada o Projeto de Lei 6140/25 que torna obrigatória a divulgação do serviço telefônico destinado a atender denúncias de violência contra a mulher, o Ligue 180, em notícias e informações relativas à violência contra a mulher difundidas em qualquer meio de comunicação. A proposta segue para análise do Senado.
O projeto define que a medida valerá para rádio, televisão, jornais impressos, portais digitais e redes sociais. Quem descumprir a regra incorrerá em infração administrativa, passível de sanções que ainda serão regulamentadas pelo Poder Executivo.
Na avaliação da relatora do projeto, deputada Camila Jara (PT-MS), a iniciativa é de baixíssimo custo e a obrigação imposta aos meios de comunicação não configura censura nem interfere no conteúdo editorial, limitando-se a exigir a veiculação de informação de utilidade pública de alto potencial preventivo.
“O substitutivo promove organização e clareza em relação às obrigações impostas aos meios de comunicação, com diretrizes claras e detalhadas para a fiscalização do cumprimento da norma e eventual aplicação de sanções”, explicou a relatora.
A autora do projeto, deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ), argumentou que os dados mais recentes reforçam a urgência da medida.
Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025, do Ministério das Mulheres, o Brasil registrou 1.450 feminicídios e 2.485 homicídios dolosos de mulheres em 2024, além de 71.892 estupros, equivalentes a 196 por dia.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 confirma que o país atingiu o maior número de estupros da série histórica, com 87.545 ocorrências, o que corresponde a um estupro a cada 6 minutos.
Diante desse cenário alarmante, a deputada aponta que a medida se inspira em boas práticas já consolidadas em outras áreas sensíveis, como a prevenção do suicídio, em que há recomendação de que reportagens incluam, de forma visível, informações sobre serviços de ajuda.
“Trata-se de medida de baixíssimo custo e alto potencial preventivo, alinhada aos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da proteção dos direitos das mulheres”, disse Talíria.
Governo vai inaugurar mais duas Casas da Mulher Brasileira em março
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, informou que duas unidades da Casa da Mulher Brasileira serão inauguradas em março. A primeira delas no dia 6 de março, em Macapá, e a outra no dia 27, em Aracaju.
O local reúne diversos serviços para atender mulheres vítimas de violência, com alojamento, atendimento psicossocial, espaço para acolhimento das crianças e há representantes da Defensoria Pública, Ministério Público, Delegacia Especializada e Patrulha Maria da Penha.
“O serviço passará a referenciar, não só a capital, mas a região, o estado. [A Casa] vai demonstrar o método de trabalho necessário para fazer a prevenção, a orientação, os encaminhamentos e o atendimento às mulheres”, destacou a ministra.
Atualmente, o país conta com 11 Casas da Mulher Brasileira em funcionamento. A previsão é inaugurar mais seis unidades até o fim do ano. Desde 2023, 19 serviços especializados no atendimento a mulheres em situação de violência foram lançados, como 15 Centros de Referência da Mulher Brasileira.
Somente em 2025, foram investidos R$ 47 milhões nas Casas da Mulher Brasileira. Desde 2023, o montante soma R$ 373 milhões.
Além das capitais, o ministério planeja ofertar serviços públicos regionalizados e consórcios para atender cidades menores, em parceria com os entes federados.
ONU: violência contra as mulheres se tornou “emergência global”
A violência contra as mulheres tornou-se “emergência global”, alerta o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, lamentando principalmente os abusos revelados em casos como o de Gisèle Pelicot, na França, e o do pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein.
“A violência contra as mulheres, incluindo o feminicídio, é uma emergência global”, afirmou Volker Türk, acrescentando que cerca de 50 mil mulheres e jovens foram assassinadas em todo o mundo em 2024, a maioria delas por membros de suas próprias famílias.
Em discurso sobre a situação dos direitos humanos no mundo, perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, Türk lamentou especialmente os casos de abusos como o de Gisèle Pelicot, na França, e do pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein. O caso de Pelicot ficou conhecido mundialmente. A francesa de 71 anos foi drogada e violada por dezenas de homens desconhecidos, recrutados pelo ex-marido ao longo de uma década.
“Tanto o caso Pelicot quanto os arquivos Epstein demonstram a extensão da exploração e do abuso de mulheres e jovens. Alguém acredita que não existem muitos outros homens como Dominique Pellicot ou Jeffrey Epstein? Esses abusos horríveis são facilitados por sistemas sociais que silenciam as mulheres e protegem os homens poderosos da responsabilização”, disse Türk.
“As mulheres e as jovens enfrentam ameaças cada vez maiores aos seus direitos”, alertou, apelando aos países que investiguem “todos os alegados crimes, protejam as sobreviventes e garantam justiça sem medo ou favorecimento”.
No seu discurso, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestou preocupação com a normalização do uso da força para resolver conflitos em todo o mundo, alertando que os conflitos estão criando um verdadeiro “deserto dos direitos humanos”.
“Não devemos regressar à violência como base para a organização do mundo”, exortou Türk, alertando que “o uso da força, tanto por meio de ameaças quanto pelo uso eficaz, para resolver conflitos está se tornando cada vez mais frequente e comum”.
“O mundo está realmente se tornando um lugar mais perigoso”, disse ele, lembrando que o número de conflitos armados quase duplicou desde 2010, para cerca de 60.
Türk condenou a aparente indiferença pelas violações do direito internacional, salientando que, há dez anos, “o ataque a um hospital teria provocado uma onda de indignação global, mas dados recentes mostram que há agora, em média, dez ataques por dia a instalações de saúde”.
“A conclusão é clara: ignorar as atrocidades só alimenta os massacres”, alertou. “O mundo não pode ficar de braços cruzados enquanto o edifício do direito internacional humanitário e dos direitos humanos se desmorona diante dos nossos olhos”, afirmou.
“Os autoritários tentam convencer as pessoas de que são impotentes, mas os direitos humanos nos lembram que não o somos”, escreveu Türk na rede social X.
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