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Brasil

Corpo Negro denuncia o racismo estrutural na medicina

Filme e projeto educacional propõem ações concretas para enfrentar o problema

Publicado em 03/04/2025 11:44 - Semana On

Divulgação TV Brasil

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Num país em que o racismo estrutural se infiltra até nas relações entre médico e paciente, o curta-metragem Corpo Negro escancara, com precisão cirúrgica, a negligência e a violência simbólica enfrentadas cotidianamente por pessoas negras no sistema de saúde. Lançado no Rio de Janeiro, o filme integra o projeto educacional Mediversidade, iniciativa que propõe ações concretas para um ensino médico mais inclusivo e consciente da desigualdade racial que marca a história brasileira — inclusive nas práticas clínicas.

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A cena inicial de Corpo Negro, lançado no Cinema Estação da Gávea, é um silêncio incômodo. Um homem negro aguarda atendimento médico, mas seu corpo — em sofrimento — é ignorado, como se não tivesse presença nem urgência. A indiferença é o primeiro sintoma retratado. Não é uma metáfora: é uma realidade amparada por dados e vivências. Dirigido por Nany Oliveira, o filme é parte do projeto Mediversidade, conduzido pelos institutos Idomed e Yduqs, que visa enfrentar a ausência de diversidade racial no ensino médico e as consequências práticas disso no cotidiano hospitalar.

Os dados que o filme apresenta — em letreiros incisivos e cenas simbólicas — reforçam o argumento com força documental. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, apenas 2,8% dos médicos formados no Brasil se autodeclaram pretos, e 19% se declaram pardos. A disparidade reflete não só desigualdades históricas de acesso à educação superior, mas também revela o distanciamento entre as vivências da população negra e os profissionais que os atendem.

Essa lacuna tem efeitos concretos e alarmantes. Em 2018, estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, revelou que mulheres pretas e pardas têm o dobro de chances de receber diagnóstico tardio de câncer de mama em comparação com mulheres brancas. Já em 2023, um boletim do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) em parceria com o Instituto Çarê analisou 66.496 internações entre 2010 e 2021 e constatou que a probabilidade de erro médico com pacientes negros era 65,2% maior no Sudeste e 585,3% maior no Nordeste. O dado mais grave: esse tipo de evento está diretamente relacionado à mortalidade evitável.

Essas estatísticas não são exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, um estudo do Centro Médico de Boston, publicado em 2022, concluiu que pacientes negros recebem o diagnóstico de Alzheimer em média cinco anos mais tarde que pacientes brancos (72,5 contra 67,8 anos), reflexo direto da subutilização de exames como a ressonância magnética. “Essas desigualdades estão enraizadas em séculos de exclusão e desumanização”, afirma a médica e pesquisadora Camara Phyllis Jones, ex-presidente da Associação Americana de Saúde Pública, em artigo publicado no New England Journal of Medicine (2018). “O racismo institucional é uma comorbidade invisível que precisa ser diagnosticada com urgência.”

O projeto Mediversidade surge como tentativa de resposta. Dentre as ações anunciadas estão:

– Cursos gratuitos de letramento étnico-racial para professores, alunos e profissionais da saúde;

– Concessão de bolsas integrais para estudantes pretos e pardos;

– Inclusão de manequins negros em aulas práticas;

– 35% de cotas afirmativas na contratação de docentes;

– Revisão curricular para inclusão de perspectivas étnico-raciais nas disciplinas médicas;

– Apoio prioritário a pesquisas com foco em diversidade.

“Formar médicos é também formar consciência social”, destaca um trecho do material de divulgação do Idomed. A afirmação, embora simples, reverbera com potência no atual cenário. O acesso a uma saúde de qualidade — e sem discriminação — é um direito humano fundamental, assegurado pela Constituição de 1988 e por tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. No entanto, a realidade mostra que esse direito é muitas vezes mediado pela cor da pele do paciente.

A socióloga e ativista Sueli Carneiro já advertia, ainda nos anos 1990: “A medicina não é neutra. A ciência carrega em si os valores de sua sociedade.”. Corpo Negro, em menos de 15 minutos, comprova essa tese com contundência. Mas o que realmente o torna necessário é sua proposta de agir para transformar, educar e curar — não só os corpos, mas a estrutura do próprio sistema de saúde.

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