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Brasil

Congresso lucra com tigrinho enquanto país cobra freio nas bets

Maioria dos brasileiros associa apostas online ao endividamento e ao vício, mas lobby das plataformas domina congressistas

Publicado em 07/05/2026 9:47 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A explosão das apostas online no Brasil já produziu um paradoxo político difícil de ignorar: enquanto a maioria da população relaciona as bets ao endividamento e ao vício, parte significativa do Congresso Nacional mantém relações próximas com empresários do setor e resiste a qualquer tentativa efetiva de endurecimento das regras. A percepção pública, no entanto, começa a se consolidar de forma contundente — e pode transformar o tema em pauta eleitoral relevante nas próximas disputas presidenciais.

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Dados recentes mostram que 59% dos eleitores acreditam que as bets provocam endividamento, enquanto 62% afirmam que elas causam dependência. Diante desse cenário, 44% defendem a proibição das plataformas de apostas online, contra apenas 24% que consideram que elas devam continuar operando normalmente. O recado embutido nos números é direto: existe espaço político para candidaturas que defendam restrições severas ou até o fim da jogatina digital.

As campanhas já perceberam isso. O avanço das bets deixou de ser apenas uma discussão econômica ou regulatória e passou a ocupar o terreno moral, social e de saúde pública. O tema toca diretamente famílias endividadas, trabalhadores precarizados e jovens expostos diariamente a promessas de enriquecimento instantâneo impulsionadas por influenciadores, celebridades e publicidade agressiva nas redes sociais.

Os dados sobre quem aposta ajudam a explicar a gravidade do fenômeno. Quase 30% dos homens fizeram apostas nos últimos 30 dias, contra 22% das mulheres. Mas o recorte mais revelador aparece na renda. Entre os brasileiros que recebem até um salário mínimo, 25,8% apostaram recentemente. Na faixa entre um e três salários mínimos, o índice sobe para 26,6%. Já entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos, o percentual cai para 16,7%.

A lógica econômica é brutal: quem menos tem é quem mais alimenta o sistema. Não por acaso. A publicidade das bets vende a ilusão de mobilidade social rápida em um país marcado por desigualdade histórica, informalidade e baixa perspectiva de ascensão econômica. O “tigrinho”, os caça-níqueis digitais e as apostas esportivas ocupam, para milhões de brasileiros, o espaço simbólico que antes era preenchido por rifas milagrosas, pirâmides financeiras ou promessas de empreendedorismo instantâneo.

O problema extrapola o campo financeiro. Cerca de 28% dos entrevistados afirmam acreditar que algum familiar aposta escondido. O dado revela um componente típico de comportamentos compulsivos: o segredo. Aposta-se escondido porque existe a percepção de culpa, descontrole ou reprovação social. A fronteira entre entretenimento e dependência torna-se cada vez mais tênue.

A comparação pode soar desconfortável, mas ajuda a ilustrar a dimensão do problema: em termos de vício, a diferença entre as bets e o crack é que uma expõe o usuário à violência da rua; a outra oferece a conveniência silenciosa da tela do celular. Ambas operam sobre mecanismos semelhantes de compulsão, recompensa imediata e destruição financeira progressiva.

Apesar disso, o setor das apostas consolidou uma influência política significativa em Brasília. O episódio conhecido como “Bonde do Tigrinho” tornou-se símbolo dessa proximidade. Fernandinho OIG, empresário ligado ao ramo das bets, levou em viagem ao Caribe figuras centrais do Congresso, entre elas o presidente da Câmara, Hugo Motta, o senador Ciro Nogueira e os deputados Doutor Luizinho e Isnaldo Bulhões.

O caso escancarou a relação promíscua entre parte do Legislativo e empresários interessados na manutenção — e expansão — do mercado de apostas online no país. Também ajuda a explicar o desfecho da CPI das Bets no Senado. O relatório final apresentado pela senadora Soraya Thronicke, que propunha indiciamentos e apontava irregularidades envolvendo o setor, acabou rejeitado pela maioria dos parlamentares.

O fracasso da CPI demonstrou a força política e econômica das bets dentro do Congresso. A regulamentação do setor movimenta bilhões de reais, atrai interesses empresariais poderosos e alimenta um ecossistema de publicidade que hoje financia clubes de futebol, influenciadores digitais, plataformas de mídia e campanhas de marketing em escala nacional.

A resistência à proibição também passa pela arrecadação. O governo federal vê nas apostas uma fonte potencial de receita tributária em meio às dificuldades fiscais. Já parlamentares enxergam no setor uma combinação explosiva de financiamento político, visibilidade e capacidade de influência econômica regional.

Por isso, a possibilidade de proibição ampla das bets nesta legislatura parece remota. O movimento predominante em Brasília aponta muito mais para acomodação regulatória do que para enfrentamento estrutural do problema. Enquanto cresce a percepção popular de que as apostas online aprofundam o endividamento e o adoecimento social, deputados e senadores seguem cavalgando o tigrinho — não necessariamente por diversão, mas em busca de capital político, financiamento e reeleição.

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