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Brasil

Como os brasileiros driblam a alta dos preços dos alimentos

Inflação reconfigura o consumo: famílias compartilham estratégias para manter a comida na mesa

Publicado em 13/03/2025 10:39 - Semana On

Divulgação Foto: Vinícius Mendes/DW

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A alta dos preços dos alimentos impõe desafios diários às famílias brasileiras, que buscam estratégias para manter suas despensas abastecidas em um cenário de inflação persistente. Da periferia à classe média, consumidores adotam substituições, reduzem consumo de proteínas e recorrem a compras por atacado para esticar o orçamento. A situação, além de impactar a rotina doméstica, também pressiona o governo federal e afeta a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levando o Planalto a adotar medidas emergenciais, como a isenção de impostos sobre produtos básicos.

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No Parque Santo Antônio, zona sul de São Paulo, Ionara de Jesus, de 43 anos, tenta “driblar os preços” enquanto percorre os corredores de um supermercado. Mãe de três filhos, ela vê sua renda mensal de R$ 1.500 – equivalente a um salário mínimo – se esgotar rapidamente diante da alta dos preços dos alimentos, que registraram inflação de 7,69% em 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Itens básicos, como café e ovos, tornaram-se luxos. O café, que chegou a custar R$ 32 por 500g, foi substituído por chá. “Cada dia um de nós toma café, para o pacote durar mais”, conta Ionara. O feijão tradicional, a R$ 7 o quilo, deu lugar ao fradinho, quase pela metade do preço. Para garantir que a comida renda, ela adiciona água ao feijão cada vez que esquenta a panela.

Em seu livro Direito Econômico e Soberania Alimentar, a advogada Léa Vidigal destaca como a inflação alimentar agrava a desigualdade: “A qualidade dos alimentos consumidos por diferentes classes sociais revela a profundidade da desigualdade no país.” Com o aumento do preço da carne bovina em mais de 20% só em 2024, a dieta de muitas famílias sofreu alterações severas. “Tem dias que a gente só come arroz e feijão”, admite Ionara. Como alternativa à carne, ela compra carcaça de frango diretamente em granjas por cerca de R$ 30 os 4kg, garantindo proteína para quase duas semanas.

A realidade da inflação atinge não apenas as camadas mais vulneráveis. No bairro da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da capital paulista, Luiz Benedito, motorista de aplicativo, viu seu poder de compra diminuir mesmo com uma renda familiar de R$ 4 mil mensais. Ele adotou o frango como principal fonte de proteína e recorre a atacadistas para comprar produtos de higiene e limpeza em grandes volumes. “O problema é que precisa ter dinheiro para pagar tudo de uma vez”, pondera.

Reações do governo e desafios políticos

A escalada dos preços dos alimentos tornou-se uma questão sensível para o governo federal. Além dos impactos econômicos diretos sobre a população, a inflação alimentar compromete a popularidade do presidente Lula, cujo governo já enfrenta desafios fiscais. Em resposta, o Planalto anunciou recentemente a retirada de impostos de importação sobre produtos básicos como café, açúcar, azeite de oliva e sardinha.

No entanto, especialistas alertam que a medida tem impacto limitado. O economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), ressalta que a inflação alimentar é impulsionada por fatores externos, como resquícios da pandemia e choques climáticos. “A única coisa que podemos atribuir ao governo atual é a valorização do dólar, causada pela incerteza fiscal”, explica.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o custo médio da cesta básica em São Paulo atingiu R$ 851 em janeiro de 2025, correspondendo a 56% do salário mínimo. Para uma família de quatro pessoas, o salário necessário para cobrir despesas essenciais deveria ser de R$ 7.156,15 – um valor muito distante da realidade da maioria dos brasileiros.

Da periferia à classe média: adaptação e renúncias

A inflação impôs mudanças no consumo também entre os moradores da classe média paulistana. Na Vila Madalena, zona oeste, Marcella Dragone, gestora de marketing, mantém o hábito de consumir produtos orgânicos, mas adotou substituições estratégicas. “O suco de uva está com o preço do vinho. Então agora compramos de laranja, que sai mais em conta”, diz.

Alimentos antes adquiridos sem preocupação, como presuntos crus e queijos importados, passaram a ser comprados apenas em ocasiões especiais. Já a carne bovina, que antes era a principal fonte de proteína da família, foi substituída por cortes suínos, como filé mignon de porco, que custa menos de R$ 35 o quilo.

Marcella também aderiu às compras em atacado, mas, diferentemente de Luiz, da Vila Nova Cachoeirinha, opta por plataformas online para receber produtos de limpeza e higiene pessoal em casa. “A inflação está aí, mas eu não abro mão da praticidade”, comenta.

O peso da inflação sobre diferentes classes sociais

Para o economista André Braz, a percepção da inflação varia conforme a renda familiar. “As classes mais altas têm maior diversificação de gastos, o que dilui o impacto da inflação. Já as classes mais baixas gastam quase tudo com alimentação, sentindo a alta de preços de forma muito mais severa”, explica.

Enquanto brasileiros de diferentes realidades ajustam seus hábitos de consumo para enfrentar a alta dos preços, o cenário inflacionário segue sendo um dos principais desafios do governo. Entre medidas emergenciais e incertezas fiscais, o impacto econômico recai sobre os lares, exigindo criatividade e sacrifícios diários para garantir a comida na mesa.

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