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Brasil
Número de vítimas em 2024 levanta debate sobre qualidade da manutenção e no treinamento de pilotos
Publicado em 12/03/2025 11:54 - Semana On
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Em um intervalo de poucos meses, uma sucessão de acidentes envolvendo aviões particulares reacendeu o debate sobre a segurança da aviação privada no Brasil. Entre as tragédias mais emblemáticas, um avião colidiu com um ônibus ao tentar pousar em uma avenida movimentada de São Paulo; outro ultrapassou a pista do aeroporto e parou na areia da praia, em Ubatuba (SP); e, em um dos episódios mais chocantes, uma aeronave atingiu uma chaminé antes de cair sobre uma casa e uma loja de móveis em Gramado (RS), às vésperas do Natal, matando 10 pessoas da mesma família.
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O que essas tragédias revelam não é apenas o impacto humano devastador, mas uma realidade preocupante: a aviação privada lidera o ranking de mortes por acidentes aéreos no Brasil, respondendo por 470 das 789 vítimas fatais desde 2015, de acordo com dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). Somente em 2024, o número de mortos na aviação privada chegou a 58, superando a soma dos dois anos anteriores e colocando a segurança desse setor no centro do debate público.
A recorrência dessas tragédias levanta uma série de questões: a formação dos pilotos é adequada? A fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) é suficiente? As normas que regulam a operação dessas aeronaves estão atualizadas? E, principalmente, como o Brasil pode reduzir a alta taxa de acidentes na aviação privada?
Diante desses questionamentos, especialistas apontam um conjunto de fatores que, somados, contribuem para o aumento do risco: a falta de treinamento adequado dos pilotos, a ausência de simuladores obrigatórios, a infraestrutura deficiente de aeroportos regionais e até mesmo uma cultura de risco que desconsidera protocolos de segurança.
Aviação privada: uma regulamentação falha e desigual
Diferente da aviação comercial, que opera sob rígidas normas de segurança, a aviação privada tem um controle mais flexível, o que resulta em diferenças marcantes na taxa de acidentes entre os dois segmentos. Companhias aéreas como Gol, Latam e Azul, por exemplo, seguem padrões rigorosos de certificação de aeronaves, manutenção, treinamento e fiscalização de tripulação, o que faz com que acidentes sejam raríssimos. Já na aviação privada, a fiscalização é mais esporádica, as exigências de treinamento são menores e, muitas vezes, as decisões sobre segurança dependem exclusivamente do proprietário da aeronave.
Segundo Raul Marinho, diretor técnico da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), possuir um avião particular não é muito diferente de possuir um carro. “O dono da aeronave precisa de uma habilitação ou deve contratar um piloto licenciado. A aeronave passa por revisões anuais e há fiscalizações esporádicas, semelhantes a uma blitz da Polícia Rodoviária”, explica.
Essa comparação, no entanto, esconde um problema estrutural: diferentemente de um carro, um avião exige um nível muito maior de conhecimento técnico e habilidades para ser operado com segurança. No caso de aeronaves mais complexas, como jatos particulares e turboélices, a necessidade de treinamento intensivo torna-se ainda mais crítica. “Você está transportando sua família e funcionários. Não seria mais prudente investir em um simulador para que o piloto esteja mais bem preparado?”, questiona Joselito Paulo, diretor-presidente da Associação Brasileira de Segurança de Aviação (Abravoo).
Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a aviação privada é amplamente difundida, o uso de simuladores para aeronaves de grande porte é uma exigência rigorosa, enquanto no Brasil essa prática ainda não é obrigatória para muitos modelos de aeronaves. Esse fator, segundo especialistas, pode ser determinante para o alto índice de acidentes.
Simuladores de voo: a tecnologia ignorada no Brasil
O uso de simuladores é uma prática consolidada na aviação comercial, onde pilotos passam por treinamentos regulares em ambientes altamente realistas, que replicam emergências, falhas mecânicas e condições meteorológicas adversas. Na aviação privada, porém, o treinamento em simuladores não é obrigatório para a maioria das aeronaves, algo que especialistas consideram uma falha grave.
O acidente do King Air F90, que caiu em São Paulo em 7 de fevereiro de 2024, ilustra bem esse problema. O avião, que possuía uma operação complexa, não exigia treinamento específico em simulador. “Não é seguro treinar emergências diretamente na aeronave, pois isso pode transformar um exercício em uma tragédia real. Mas será que faz sentido um avião desse porte não exigir simulação obrigatória?”, pondera Raul Marinho.
Além disso, há outro ponto sensível: o número de pilotos a bordo. O Cessna Citation 525 CJ1 que caiu em Ubatuba era operado por um único piloto. Para Marinho, essa é uma discussão que precisa ser feita com urgência: “Será que um jato deveria ser operado por apenas um piloto? Será que, se houvesse dois, o pouso teria sido feito em uma pista inadequada? É impossível ter certeza, mas a probabilidade de erro humano teria sido menor.”
A precariedade da infraestrutura aeroportuária no Brasil
O caso de Gramado (RS), onde um Piper PA-42-1000 Cheyenne caiu sobre uma casa em dezembro de 2024, reforça outro problema estrutural: a falta de infraestrutura adequada nos aeroportos regionais. A aeronave havia decolado sob condições meteorológicas adversas do aeroporto de Canela, que não possuía torre de controle, o que significa que não havia um operador para impedir a decolagem diante do mau tempo.
“A instalação de torres de controle em todos os aeroportos não é viável financeiramente, mas há tecnologias, como sistemas baseados em GPS, que poderiam reduzir drasticamente os riscos”, explica Marinho. Países como Canadá e Austrália já implementam sistemas de pouso e decolagem automatizados para reduzir a exposição dos pilotos a riscos evitáveis.
Mudanças necessárias para um setor mais seguro
Especialistas apontam três principais medidas que poderiam reduzir significativamente os acidentes na aviação privada no Brasil:
– Tornar obrigatório o uso de simuladores de voo para aeronaves mais sofisticadas.
– Rever as normas que permitem operação de jatos particulares por um único piloto.
– Investir em infraestrutura aeroportuária, especialmente em tecnologia para pousos e decolagens seguras.
A experiência internacional reforça a necessidade dessas mudanças. Nos Estados Unidos, onde a aviação privada é amplamente utilizada, regras mais rígidas para treinamento de pilotos e o uso de tecnologia avançada nos aeroportos reduziram os índices de acidentes.
No Brasil, onde a frota de aviões particulares cresce a cada ano, a questão é urgente: sem mudanças significativas na regulamentação, no treinamento e na infraestrutura, o país seguirá acumulando tragédias evitáveis. O céu brasileiro precisa ser um espaço de liberdade, mas acima de tudo, de segurança.
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