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Brasil
União estratégica entre lideranças religiosas ganha força no cenário político para barrar avanços sociais
Publicado em 19/05/2025 2:49 - Semana On
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Católicos e evangélicos, apesar de divergências teológicas profundas, formam hoje uma aliança política estratégica com um objetivo comum: frear o avanço de pautas sociais progressistas no Brasil. Essa união, que se fortaleceu especialmente no governo Bolsonaro, é o que a socióloga Ana Carolina Marsicano, da UFPE, define como neoconservadorismo — um pacto pragmático movido pela rejeição ao aborto legal, ao casamento LGBTQIA+ e às políticas de gênero.
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Essa convergência, segundo Marsicano, não se dá apenas pela força da fé, mas por uma reconfiguração política que une dois campos religiosos historicamente distintos contra um inimigo comum: os movimentos sociais que defendem direitos civis, redistribuição de renda e novas formas de cidadania. “É uma aliança por um bem maior, na perspectiva deles, que é impedir que a agenda pró-aborto, do casamento igualitário e dos direitos sexuais e reprodutivos avance”, afirma a pesquisadora, que há cinco anos estuda as relações entre religião e política no Brasil.
Marsicano é autora da tese “Os leigos cristianizam o mundo — católicos e política antigênero no governo federal (2019-2022)”, publicada em 2024, na qual investiga o papel dos leigos católicos e sua crescente influência sobre as decisões políticas no país. Um dos principais achados de sua pesquisa é que, embora os holofotes frequentemente estejam voltados aos evangélicos — com nomes como a ex-ministra e hoje senadora Damares Alves (Republicanos-DF) —, os católicos vêm ocupando posições estratégicas, muitas vezes longe do radar da opinião pública.
Neoconservadorismo: uma reação programática ao avanço dos direitos
O termo “neoconservadorismo”, como analisa Marsicano, vai além da simples rigidez moral. Ele expressa uma aliança reativa, construída em resposta ao avanço de pautas como feminismo, casamento igualitário, cotas raciais e políticas redistributivas. “As pessoas alimentaram essa falsa ilusão de que a gente só precisa estar atento aos evangélicos, de que Damares Alves é a única ameaça ao campo dos direitos humanos”, alerta.
Na estrutura governamental bolsonarista, essa aliança foi bem representada: Damares, figura evangélica carismática, dividia protagonismo com a católica Angela Gandra, então secretária nacional da Família. Se Damares circulava no Congresso, Gandra atuava nos bastidores com influência internacional, articulando-se com grupos pró-vida, câmaras legislativas municipais e redes católicas globais.
Catolicismo conservador: renovação silenciosa, mas eficaz
Ao contrário dos evangélicos mais midiáticos, como o pastor Silas Malafaia, a nova geração de católicos conservadores atua de forma mais sutil, mas não menos efetiva. Marsicano destaca que há uma renovação interna em curso na Igreja Católica, especialmente entre mulheres da extrema-direita, como a deputada Chris Tonietto (PL-RJ) e a própria Angela Gandra. Ambas personificam um conservadorismo católico que combina militância religiosa e sofisticação jurídica, sem os arroubos retóricos de seus aliados evangélicos.
“É importante para o conservadorismo católico que haja uma figura como Chris Tonietto que faça esse contraponto, que tenha essa atuação tão incisiva, militante. E é importante ter nos bastidores alguém como Angela Gandra”, explica Marsicano. Essa composição plural não é acidental, mas estratégica, e contribui para o avanço coordenado de pautas contrárias à ampliação de direitos civis.
Família, naturalização da fé e desmonte do Estado social
No centro dessa agenda está a defesa do modelo tradicional de família — entendido como a união indissolúvel entre homem e mulher — e a ideia de que políticas públicas devem ceder lugar à autorresponsabilidade e à fé. “Eles vêm dentro de todo questionamento de outros modelos de relação como relativização daquilo que é natural”, aponta Marsicano.
Essa lógica não é apenas moral, mas econômica e política: ao exaltarem a família como pilar absoluto da sociedade, esses grupos deslegitimam políticas de assistência social, como se o Estado devesse se abster de oferecer suporte aos cidadãos fora desse modelo. Trata-se de uma visão que rompe com a noção ampliada de cidadania construída desde a Constituição de 1988.
Catolicismo e política: uma relação histórica naturalizada
A atuação política do catolicismo no Brasil não é novidade. Desde a colonização, a Igreja teve papel central na construção das instituições e na definição de valores sociais. O que muda, agora, é a sua configuração dentro do debate público contemporâneo. “A relação entre política e religião no Brasil e a atuação dos católicos é de longa data e foi se naturalizando. Isso fez com que as pessoas não olhassem com a devida atenção para as mudanças nesse campo”, afirma a socióloga.
Esse silêncio estratégico dos setores católicos conservadores, aliado à visibilidade dos evangélicos, contribuiu para que parte da sociedade subestimasse a articulação em curso. Mas como mostra a atuação coordenada entre Damares e Gandra, e a mobilização constante nas câmaras municipais e frentes parlamentares, o campo religioso hoje atua com sinergia e eficácia na construção de uma agenda comum de valores.
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