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Brasil

Brasil sobe no IDH, mas desigualdade persiste como obstáculo estrutural

Avanço revela progresso em saúde e renda, mas expõe fragilidades educacionais e sociais

Publicado em 06/05/2025 10:05 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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Em meio a uma desaceleração global considerada “alarmante” pelas Nações Unidas, o Brasil apresentou, em 2023, um raro sinal de avanço: subiu cinco posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, passando da 89ª para a 84ª colocação entre 193 países. O índice, que cresceu de 0,780 para 0,786, é considerado alto e aponta melhoras na expectativa de vida e na renda per capita. Mas sob a superfície dos números, o país ainda enfrenta velhos fantasmas: desigualdade, estagnação educacional e vulnerabilidade social. Ajustado pela desigualdade, o IDH brasileiro cai drasticamente para 0,594 — o que rebaixa o país à 105ª posição, entre as nações de desenvolvimento médio.

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O Índice de Desenvolvimento Humano, criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em 1990, avalia o bem-estar das populações a partir de três eixos: expectativa de vida ao nascer, escolaridade média e renda per capita. O relatório divulgado neste 6 de maio indica que o Brasil teve uma leve recuperação após a crise sanitária e econômica da pandemia. Houve melhora no PIB per capita e na saúde, mas a educação avançou timidamente — um sinal de alerta em um país que historicamente convive com exclusão escolar e disparidades regionais.

Ainda assim, o crescimento médio do IDH brasileiro foi de 0,38% ao ano desde 2010, e de 0,62% desde 1990. São taxas modestas quando comparadas à necessidade de transformação estrutural num país que figura entre os mais desiguais do planeta. Na América Latina, o Brasil continua atrás de nações como Chile (45º), Argentina, Uruguai e Panamá — todos com IDH superior a 0,800, considerado “muito alto”.

Desigualdade: a ferida que não cicatriza

O contraste mais gritante do relatório é revelado quando o IDH brasileiro é ajustado pela desigualdade. Nesse cenário, o Brasil despenca mais de 20 posições. Esse recorte revela um país onde os avanços não se distribuem de forma equitativa. Enquanto mulheres brasileiras têm expectativa de vida e escolaridade superiores aos homens, perdem no indicador de renda. Já os 10% mais ricos concentram quase 60% da renda nacional, segundo dados do World Inequality Database.

Esse padrão de concentração impede que o crescimento do IDH se converta em bem-estar coletivo. Como lembra o economista francês Thomas Piketty, “desigualdades extremas de renda e riqueza corroem as instituições democráticas” (O Capital no Século XXI, 2013). No caso brasileiro, o progresso é frequentemente sabotado por um sistema que reproduz privilégios e fragiliza políticas públicas essenciais.

A desaceleração global e o desafio comum

A situação do Brasil precisa ser lida à luz de um contexto global marcado pela estagnação do desenvolvimento humano. Segundo o PNUD, o crescimento do IDH mundial em 2024 será o mais lento desde o início da série histórica, em 1990 — com exceção dos anos da pandemia. “Se o lento progresso de 2024 se tornar ‘o novo normal’, o marco de 2030 poderá atrasar-se em décadas, tornando o nosso mundo menos seguro, mais dividido e mais vulnerável a choques econômicos e ecológicos”, alertou Achim Steiner, administrador do PNUD.

A desigualdade entre os países de IDH muito alto e os de IDH baixo aumentou pelo quarto ano consecutivo, revertendo uma tendência de convergência observada nas últimas décadas. O agravamento da dívida dos países pobres, os efeitos das mudanças climáticas e a fragmentação do comércio internacional — acentuada desde a guerra comercial iniciada pelos EUA sob Donald Trump — são fatores que ampliam o fosso entre Norte e Sul globais.

Inteligência Artificial: ameaça ou oportunidade?

O relatório deste ano também destaca um elemento novo no debate sobre desenvolvimento: o impacto da inteligência artificial (IA). Uma pesquisa realizada com mais de 21 mil pessoas em 21 países indica que, embora metade tema a automatização de seus empregos, 60% acreditam que a IA terá efeitos positivos — sobretudo pela criação de novas profissões.

Nos países de IDH médio e baixo, 70% esperam aumento de produtividade com o uso da IA. No entanto, o PNUD adverte: para que a tecnologia contribua de fato para o bem-estar humano, será preciso garantir que os sistemas de IA sejam construídos com critérios éticos, com foco na complementaridade com o trabalho humano — e não em sua substituição.

Achim Steiner resume essa preocupação: “É importante não ser governado pela tecnologia, mas usá-la para ampliar nossa engenhosidade, diversidade e imaginação. Podemos prosperar juntos no século XXI, desde que enfrentemos os riscos para nosso futuro de forma coletiva”.

A promessa adiada de 2030

O relatório acende um alerta: se o ritmo atual de progresso for mantido, a meta de alcançar um IDH muito alto até 2030 — marco central da Agenda de Desenvolvimento Sustentável da ONU — pode ser adiada por décadas. Para o Brasil, o desafio é duplo: avançar no índice bruto e, ao mesmo tempo, reduzir as disparidades que corroem esse avanço.

A alta no ranking é, sem dúvida, um sinal positivo. Mas, como mostram os dados ajustados, o Brasil ainda está longe de garantir que o desenvolvimento seja uma experiência compartilhada — não apenas medida estatística. A verdadeira meta é transformar crescimento em justiça social.

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