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Brasil

Brasil questiona práticas discriminatórias dos EUA em voos de deportação

Postura truculenta do Governo Trump repercute na América Latina

Publicado em 27/01/2025 12:33 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O uso de algemas em deportados brasileiros reacendeu tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, com o Itamaraty classificando o tratamento como “degradante” e em violação ao acordo firmado entre os países em 2018. A situação, agravada por relatos de maus-tratos e problemas na aeronave, mobilizou o governo Lula, que avalia participação em uma reunião emergencial da Celac para tratar das políticas migratórias norte-americanas.

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A deportação de 88 brasileiros algemados em um voo fretado pelo governo dos Estados Unidos, na última sexta-feira (24), gerou forte reação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Segundo o Itamaraty, o uso de algemas e correntes, somado a condições degradantes durante a viagem, viola o acordo de deportação assinado entre os dois países em 2018, que prevê o respeito à dignidade dos deportados.

O acordo foi concebido para reduzir o tempo de permanência de imigrantes indocumentados em centros de detenção nos Estados Unidos, mas as práticas empregadas no voo da última semana expuseram um contraste marcante entre a premissa do pacto e a execução real. Além das algemas, os passageiros denunciaram falhas no sistema de ar condicionado da aeronave e a ausência de alimentação adequada, resultando em um cenário de revolta.

De acordo com o Itamaraty, as condições do voo levaram o governo brasileiro a proibir sua continuação para Belo Horizonte, transferindo os deportados em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) após um pernoite em Manaus. “O governo brasileiro considera inaceitável que as condições acordadas com o governo norte-americano não sejam respeitadas”, afirmou o ministério em nota.

Contexto histórico e político

O acordo de deportação, assinado em 2018 durante o governo de Michel Temer, surgiu em um momento de crescente endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos. Sob a gestão Trump, o número de deportações cresceu exponencialmente, alimentado por uma retórica anti-imigrante que teve repercussões severas para comunidades latino-americanas.

Nos últimos anos, porém, esperava-se que a transição para o governo Biden, com uma postura mais aberta ao debate sobre imigração, trouxesse alívio. No entanto, especialistas apontam que, apesar das mudanças discursivas, a estrutura de fiscalização e deportação permanece rígida. Segundo o Pew Research Center, em 2022, os EUA deportaram cerca de 150 mil pessoas, grande parte delas latino-americanas.

Para o Brasil, a situação é especialmente sensível. O retorno à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em 2023, após anos de ausência durante o governo Bolsonaro, sinaliza um esforço renovado de cooperação regional. A convocação de uma reunião emergencial pela Celac para discutir a situação migratória latino-americana destaca a urgência da questão.

Repercussões e ações futuras

A reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, nesta segunda-feira (27), busca alinhar estratégias para lidar com os episódios recentes e reforçar a posição brasileira em negociações internacionais. Segundo fontes do Palácio do Planalto, há a possibilidade de Lula participar remotamente da reunião da Celac na próxima quinta-feira (30).

“A dignidade dos cidadãos é inegociável, independentemente de sua situação migratória”, afirmou Vieira em nota preliminar, ecoando os princípios de direitos humanos defendidos por organizações internacionais como a Anistia Internacional.

A questão das deportações transcende as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, apontam especialistas. Segundo a socióloga Saskia Sassen, da Universidade de Columbia, “a deportação em massa não é apenas um ato de política migratória, mas também um reflexo da precarização do trabalho global e das desigualdades econômicas entre países”.

No âmbito nacional, o governo brasileiro enfrenta o desafio de equilibrar a proteção de seus cidadãos no exterior com a necessidade de manter relações diplomáticas estáveis com os Estados Unidos, seu segundo maior parceiro comercial.

O episódio revela as contradições de uma política migratória global que muitas vezes desumaniza indivíduos em nome da segurança. Para o Brasil, a indignação com as práticas norte-americanas é um lembrete da importância de adotar uma postura firme e diplomática para proteger os direitos fundamentais de seus cidadãos.

A reação brasileira à violação do acordo de 2018 e o protagonismo do país na Celac são passos importantes, mas apenas o início de um debate maior sobre a dignidade e os direitos humanos no contexto das migrações contemporâneas.

Eu faria o mesmo, diz Bolsonaro

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), elogiando a política de deportação em massa adotada pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, declarou que se estivesse “no lugar dele, faria o mesmo”. A afirmação foi feita em uma entrevista concedida à rede CNN na quinta-feira passada (23).

“Lá é a casa dele, aqui é a nossa. Quem não está de forma legal tem que buscar uma maneira de se legalizar, não são apenas brasileiros. Ele não mentiu e está fazendo a coisa certa. Nós não temos esse problema aqui, mas ele está cumprindo o que prometeu, e no lugar dele, eu faria o mesmo”, afirmou.

Brasileiros Livres ou Acorrentados?

Enquanto o Brasil se prepara para eleições decisivas em menos de dois anos, os relatos de brasileiros deportados dos Estados Unidos, algemados pelas mãos, pés e cintura, despertaram indignação e trouxeram à tona reflexões sobre o papel do Brasil na proteção de seus cidadãos.

A prática de deportações em condições humilhantes não é novidade. Contudo, relatos recentes indicam que a conduta dos agentes de imigração foi particularmente violenta nesta última operação. Esses acontecimentos ecoam em um momento de tensão internacional, com discursos políticos inflamados sobre imigração nos Estados Unidos, exacerbados pelo legado do trumpismo e suas políticas agressivas contra imigrantes.

O debate também expõe as divisões políticas internas do Brasil. A proximidade da extrema direita brasileira com o trumpismo, simbolizada por manifestações de apoio ao ex-presidente americano, demonstra uma subserviência ideológica que coloca interesses externos acima das prioridades nacionais. Episódios como a participação de Michelle Bolsonaro em eventos antiaborto nos EUA reforçam a impressão de que parte da elite política brasileira adota agendas internacionais como guias de ação, desconsiderando as particularidades e necessidades locais.

Ao mesmo tempo, o contraste de reações entre diferentes episódios envolvendo a violação de direitos humanos evidencia um preocupante viés ideológico. Enquanto líderes da extrema direita defendem fervorosamente a anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, o mesmo grupo silencia diante das denúncias de maus-tratos sofridos pelos brasileiros deportados ou até justifica a truculência como “medida necessária”.

Nos EUA, a retórica anti-imigração de Donald Trump, retomada com força durante sua campanha, contribui para alimentar cenários de violência e exclusão. Declarações sem fundamento, como a acusação de que imigrantes seriam responsáveis pelo aumento da criminalidade – desmentida por dados do FBI –, criam um clima de medo e desumanização. Em busca de uma “higienização” da América, imagens de deportados acorrentados transformam-se em ferramentas de propaganda política.

Por aqui, essas imagens geraram reações divididas. Enquanto setores progressistas condenaram a humilhação sofrida pelos deportados e cobraram posicionamento das autoridades brasileiras, líderes da extrema direita minimizaram o episódio, atacando suposta “hipocrisia” de seus adversários políticos. A passividade ou, em alguns casos, a anuência com os maus-tratos demonstram uma perigosa inversão de valores.

A questão transcende disputas partidárias: trata-se de um debate sobre princípios básicos de dignidade humana e proporcionalidade na aplicação da lei. A punição desmedida, que ultrapassa os limites da contenção necessária, ultrapassa o campo da legalidade para adentrar o da barbárie.

Como apontam especialistas, a resposta brasileira precisa ir além da condenação retórica. É essencial que o Itamaraty adote uma postura firme em defesa de seus cidadãos, denunciando práticas desumanas e exigindo o respeito aos direitos humanos, independentemente do contexto político em que ocorrem.

A poucos meses do início oficial da campanha eleitoral, a forma como essas questões serão tratadas pelos candidatos será um indicador importante das prioridades políticas no país. A luta por um Brasil mais justo e respeitado passa pela defesa de valores como a solidariedade, a justiça e o repúdio a qualquer forma de desumanização.

No embate entre duas visões de país, a pergunta central permanece: em 2026, o Brasil escolherá ser uma nação que defende seus cidadãos e os princípios universais de direitos humanos ou continuará submetido a um cenário de subserviência ideológica e desrespeito?

Enquanto isso, a sociedade civil, mais do que nunca, deve manter-se vigilante e ativa, exigindo que a dignidade dos brasileiros, dentro e fora do país, seja prioridade absoluta na agenda pública. Afinal, não se trata apenas de uma questão eleitoral, mas de um compromisso com o futuro democrático e humano da nação.

Colômbia recua diante de pressões dos EUA, mas crise repercute na América Latina

Em meio a crescente tensão diplomática, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, anunciou ontem (26) que aceitou os termos impostos pelo governo dos Estados Unidos sobre a deportação de imigrantes ilegais colombianos. A decisão, considerada um recuo estratégico diante das ameaças de sanções comerciais e restrições diplomáticas lideradas por Donald Trump, marca um capítulo delicado nas relações entre os dois países e reverbera em toda a América Latina.

Conforme anunciado pela Casa Branca, a Colômbia aceitou a repatriação irrestrita de seus cidadãos ilegais nos EUA, incluindo a utilização de aeronaves militares americanas para os voos de deportação. Em troca, os Estados Unidos não implementarão, por ora, as tarifas de 25% a 50% sobre produtos colombianos, anunciadas como forma de retaliação às posições iniciais de Petro.

No entanto, as sanções de visto e as inspeções alfandegárias rigorosas permanecerão em vigor até que o primeiro grupo de deportados retorne à Colômbia. O chanceler e o embaixador colombianos viajarão a Washington nos próximos dias para detalhar os mecanismos de implementação do acordo.

A Colômbia já prepara a recepção de 160 cidadãos deportados, garantindo, segundo Petro, que esses indivíduos sejam tratados com dignidade. “Continuaremos a receber nossos compatriotas com condições que respeitem seus direitos como cidadãos”, afirmou o chanceler colombiano.

A decisão colombiana ocorre após uma escalada de ameaças e sanções por parte de Donald Trump. O presidente americano, que fez da deportação em massa uma bandeira de sua administração, classificou os imigrantes ilegais como “criminosos” e condicionou qualquer relaxamento de medidas à cooperação irrestrita de Bogotá. Em resposta inicial, Petro havia anunciado a taxação de produtos americanos na Colômbia, mas recuou diante das consequências econômicas potenciais.

Trump, por sua vez, impôs restrições severas, incluindo a revogação de vistos de funcionários colombianos e membros do partido governista. Ele também reforçou seu discurso contra a imigração, afirmando que “não permitiremos que o governo colombiano viole suas obrigações legais em relação à aceitação e devolução de criminosos”.

Impacto regional

A crise entre Colômbia e EUA não passou despercebida pelos vizinhos latino-americanos. No sábado (25), o México vetou a aterrissagem de um voo militar americano com imigrantes deportados, enquanto o Brasil denunciou maus-tratos a brasileiros durante uma deportação em massa realizada na última semana. Diplomatas brasileiros classificaram o episódio como “degradante” e confirmaram que o Itamaraty apresentará uma queixa formal ao governo americano.

Em resposta à escalada de tensões, Honduras, que preside interinamente a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), convocou uma reunião de emergência para o próximo dia 30. O encontro abordará a crise migratória, a postura dos EUA na região e a busca por maior unidade entre os países do bloco. A Colômbia já confirmou presença.

A iniciativa de Honduras busca internacionalizar o debate sobre a migração, mas enfrenta resistência. Fontes diplomáticas indicam que nem todos os países do bloco estão dispostos a adotar um posicionamento firme contra os EUA. Enquanto alguns defendem a necessidade de evitar atritos com Washington, outros, como o Paraguai, já manifestaram apoio às ações da Casa Branca.

Apesar das divisões, a convocação da Celac é vista como um sinal de alerta sobre a crescente pressão americana na região. Autoridades apontam para a visita iminente de Marco Rubio, chanceler de Trump, a países da América Central como parte de uma estratégia de ampliação da influência americana no hemisfério.

Embora o recuo de Gustavo Petro tenha evitado, momentaneamente, sanções mais severas, o episódio expõe as tensões de uma relação bilateral marcada por interesses conflitantes. Enquanto Petro reafirma seu compromisso com o diálogo e a dignidade dos cidadãos colombianos, Trump mantém sua retórica dura contra a imigração ilegal, consolidando sua política de deportação em massa como pilar de sua administração.

A aceitação dos termos americanos pode aliviar a pressão econômica imediata sobre a Colômbia, mas levanta questionamentos sobre os custos diplomáticos e a capacidade do país de equilibrar soberania nacional com a dependência de uma relação historicamente assimétrica com os Estados Unidos.

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