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Brasil

Brasil paga o preço da falta de saneamento: mais de 340 mil internações em 2024

Doenças relacionadas à água contaminada e insetos afetam crianças, idosos e populações vulneráveis

Publicado em 19/03/2025 9:28 - Semana On

Divulgação Fernando Frazão - Abr

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O Brasil registrou mais de 344 mil internações por doenças ligadas à precariedade do saneamento básico em 2024, segundo dados do Instituto Trata Brasil. O levantamento, divulgado nesta quarta-feira (19), antecipa o Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, e revela a persistência de um problema histórico: a ausência de infraestrutura sanitária adequada, que compromete a saúde pública e acentua desigualdades sociais.

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Entre as enfermidades mais recorrentes, as infecções transmitidas por insetos vetores, como a dengue, lideram com 168,7 mil casos. Na sequência, surgem as doenças de transmissão feco-oral, causadas pela ingestão de água ou alimentos contaminados, como as gastroenterites virais e bacterianas, com 163,8 mil hospitalizações. O impacto é sentido com maior intensidade entre crianças, idosos e populações racialmente vulneráveis, escancarando uma realidade negligenciada por sucessivos governos.

O peso da desigualdade no acesso ao saneamento

O acesso à água potável e ao tratamento de esgoto deveria ser um direito garantido a todos, mas os dados revelam uma realidade bem diferente. Cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada e quase 100 milhões vivem sem coleta de esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). A consequência desse déficit estrutural é a perpetuação de doenças evitáveis, que lotam hospitais e ceifam vidas.

O impacto é desproporcional: 64,8% das internações em 2024 foram de pessoas pretas ou pardas, demonstrando a forte correlação entre falta de infraestrutura e desigualdade racial. Entre os indígenas, a situação é ainda mais alarmante: apesar de representarem apenas 0,8% do total de hospitalizações, a taxa de internações entre eles foi de 27,4 casos a cada dez mil habitantes, muito acima da média nacional.

Os extremos etários também são os mais penalizados. Crianças de até 4 anos somaram cerca de 70 mil internações (20% do total), com uma incidência de 53,7 casos por dez mil habitantes, três vezes superior à média geral. Já os idosos, com mais de 60 anos, responderam por 80 mil internações (23,5%), com uma taxa de incidência de 23,6 por dez mil habitantes.

Regiões mais afetadas: Norte e Centro-Oeste lideram

A análise por região evidencia disparidades marcantes. O Centro-Oeste teve a maior incidência de internações (25,5 por dez mil habitantes), impulsionada pelo surto de dengue. O Norte também se destacou negativamente, com 14,5 internações por dez mil habitantes apenas por doenças de transmissão feco-oral – o dobro da taxa nacional.

O Amapá foi o estado com a pior situação (24,6 internações por dez mil habitantes), seguido de Rondônia (22,2). No Nordeste, a taxa geral se manteve próxima à média brasileira, mas o Maranhão apresentou um índice alarmante: 42,5 internações por dez mil habitantes, seis vezes acima da média nacional.

A correlação entre saneamento precário e doenças é evidente. A falta de coleta de esgoto permite que vírus, bactérias e parasitas circulem livremente, contaminando água e alimentos. Já o acúmulo de lixo cria o ambiente ideal para a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, como o Aedes aegypti.

Mortalidade e estagnação no combate às doenças do saneamento

Além das internações, as doenças ligadas ao saneamento precário também resultaram em 11.544 mortes em 2023. O levantamento aponta que 5.673 óbitos ocorreram por infecções feco-orais e 5.394 por doenças transmitidas por insetos vetores.

Embora a mortalidade tenha caído desde 2008, 1.748 municípios registraram aumento nas taxas de óbito no período, evidenciando que, em diversas localidades, a situação não apenas persiste, como piora. Os idosos foram os mais impactados: 8.830 mortes (76% do total) ocorreram nessa faixa etária.

A desigualdade racial também é visível nos dados de mortalidade. Apesar da quantidade absoluta de óbitos entre indígenas ser inferior à das populações branca e negra, a taxa de mortes entre indígenas foi quatro vezes maior do que a média geral.

Saneamento como solução e economia para o país

O Instituto Trata Brasil estima que a universalização do saneamento poderia reduzir em até 70% as internações ligadas a doenças hídricas e vetoriais, promovendo não apenas melhoria na qualidade de vida, mas também uma economia de R$ 43,9 milhões por ano aos cofres públicos.

O impacto econômico da precariedade do saneamento é um dos argumentos mais sólidos para impulsionar investimentos no setor. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cada R$ 1 investido em saneamento gera uma economia de R$ 4 em saúde pública. No entanto, o ritmo das melhorias ainda é insuficiente para suprir o déficit acumulado ao longo de décadas.

A aprovação do Marco Legal do Saneamento, em 2020, trouxe expectativas de avanços, prevendo universalização da água potável e coleta de esgoto até 2033. No entanto, especialistas alertam que o desafio é gigantesco. “A infraestrutura de saneamento no Brasil foi negligenciada por décadas. O cumprimento dessas metas exigirá um esforço contínuo e investimentos consistentes”, destaca Edison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil.

Enquanto o país não acelerar as ações nessa área, milhares de brasileiros continuarão adoecendo e morrendo por problemas que já deveriam ter sido superados no século XXI. O saneamento básico não é apenas uma questão de infraestrutura: é uma política de saúde pública, justiça social e desenvolvimento econômico.

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