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Poder

Em plena democracia, Eduardo Bolsonaro expõe a covardia dos extremistas

Ao se exilar nos EUA sob falsas alegações, ele expôs as fissuras do bolsonarismo

Publicado em 19/03/2025 8:55 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A história política mundial está repleta de casos de exílios, muitos deles associados a perseguições reais e a regimes de exceção. Do antifascista Antonio Gramsci, preso pelo regime de Mussolini, aos dissidentes soviéticos forçados a fugir do totalitarismo stalinista, o exílio sempre foi um sinal de repressão de regimes autoritários contra vozes democráticas. Eduardo Bolsonaro, ao anunciar sua decisão de permanecer nos Estados Unidos e cogitar pedir asilo, tenta se apropriar dessa narrativa histórica – mas seu caso tem um detalhe inescapável: ele não é um perseguido, mas sim um conspirador contra a democracia brasileira.

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A decisão de Eduardo Bolsonaro de se autoexilar ocorre num contexto de fragilidade para o clã Bolsonaro. O ex-presidente Jair Bolsonaro enfrenta uma série de investigações, incluindo seu envolvimento na tentativa de golpe de Estado, o escândalo das joias sauditas e as suspeitas sobre um esquema de falsificação de cartões de vacina. Diante do cerco judicial, a fuga do filho 03 parece menos um ato de resistência política e mais uma tentativa desesperada de evitar constrangimentos legais e ampliar sua ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal (STF).

Seu discurso nas redes sociais e em entrevistas à imprensa constrói uma narrativa de vítima: Eduardo se coloca como um destemido defensor da liberdade de expressão, supostamente silenciado por um “regime de exceção”. Mas essa construção não resiste à realidade dos fatos. Ele não foi acusado formalmente de nenhum crime pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e nem teve seu passaporte apreendido. Seu “exílio” não passa de um artifício retórico para intensificar sua guerra contra as instituições democráticas e fortalecer seus laços com a extrema direita norte-americana.

Mais do que uma simples tentativa de evitar riscos, essa movimentação insere Eduardo Bolsonaro em uma lógica maior: a construção de uma rede internacional de ultradireitistas que buscam minar democracias a partir de dentro. Ele não é um agente isolado, mas parte de um movimento global que, inspirado em Donald Trump, usa a desinformação, a vitimização e a manipulação dos processos políticos como estratégia de poder.

Bolsonarismo internacional: a aposta na extrema direita dos EUA

A aliança entre Eduardo Bolsonaro e os setores mais radicais da direita norte-americana não é nova, mas ganha um novo patamar com sua permanência nos Estados Unidos. Durante os últimos anos, Eduardo se aproximou de figuras como Steve Bannon – estrategista da campanha de Donald Trump e um dos principais ideólogos da extrema direita global –, além de congressistas trumpistas como Matt Gaetz e Marjorie Taylor Greene, ambos conhecidos por suas posições conspiratórias e negacionistas.

A estratégia de Eduardo é clara: transformar a narrativa de que o Brasil está sob um regime autoritário em uma bandeira internacional, pressionando o governo dos EUA a intervir, mesmo que simbolicamente, contra o STF e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O movimento já rendeu frutos. Com o apoio de congressistas republicanos, um comitê da Câmara dos Representantes aprovou um projeto de lei que prevê a proibição da entrada de estrangeiros que violem a liberdade de expressão. A proposta foi impulsionada diretamente para atingir Alexandre de Moraes, cuja atuação no combate à desinformação tem sido sistematicamente demonizada pela extrema direita.

No entanto, esse tipo de pressão dificilmente terá efeitos práticos. A legislação norte-americana segue um longo processo de tramitação, e o governo de Joe Biden não tem qualquer interesse em se envolver na política interna brasileira para atender às demandas de um setor extremista. Ainda assim, a movimentação de Eduardo cumpre um papel estratégico: fortalecer a narrativa de que o bolsonarismo é vítima de uma perseguição global, preparando terreno para futuras disputas políticas no Brasil.

O cálculo eleitoral: o abandono do projeto de anistia e a aposta em Tarcísio

A decisão de Eduardo Bolsonaro de permanecer nos EUA e escalar os ataques ao STF tem implicações diretas no futuro do bolsonarismo. Até recentemente, uma das principais estratégias do clã Bolsonaro era tentar aprovar um projeto de anistia para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Esse plano, no entanto, encontrava dificuldades dentro do próprio Congresso e gerava resistência no STF, que via na medida uma afronta direta ao Estado de Direito.

Agora, com Eduardo radicalizando sua postura e se distanciando da política institucional brasileira, a aposta no projeto de anistia perde força. Isso indica uma mudança na estratégia da extrema direita: ao invés de buscar soluções dentro do sistema, o bolsonarismo parece optar por uma tática de confronto direto, com Eduardo atuando como uma espécie de “comandante no exílio” da resistência contra as instituições democráticas.

Essa guinada também abre espaço para outra movimentação importante: a antecipação da candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência da República. O governador de São Paulo, que até então tentava manter uma imagem de moderado, rapidamente se solidarizou com Eduardo nas redes sociais, reforçando os laços entre ambos. Seu gesto indica que a extrema direita já começa a preparar terreno para a eleição de 2026, com Tarcísio emergindo como a principal alternativa viável ao bolsonarismo tradicional.

Ao contrário de Eduardo, que aposta na radicalização e na retórica de confronto, Tarcísio tenta construir uma imagem mais palatável para o eleitorado de direita moderada. No entanto, sua proximidade com Eduardo e seu apoio aberto à sua narrativa golpista levantam dúvidas sobre sua real posição. Ele seria apenas um bolsonarista “estrategicamente moderado” ou realmente representa uma alternativa mais institucional?

A democracia sob ataque: o novo desafio da resistência democrática

A tentativa de Eduardo Bolsonaro de internacionalizar sua guerra contra as instituições brasileiras não deve ser subestimada. Embora sua estratégia seja repleta de contradições e falácias, ela se insere em um contexto maior de ataques sistemáticos à democracia – um fenômeno global que já teve consequências desastrosas em países como os Estados Unidos, a Hungria e a Polônia.

O bolsonarismo, mesmo enfraquecido após a derrota eleitoral de 2022 e os fracassos dos seus projetos no Congresso, ainda é uma força relevante na política brasileira. O autoexílio de Eduardo e a ascensão de Tarcísio como potencial sucessor indicam que a extrema direita não está disposta a aceitar sua marginalização e continuará explorando todas as oportunidades para desestabilizar as instituições.

A resistência democrática precisa estar atenta. A batalha contra o autoritarismo não se ganha apenas nas urnas, mas também na capacidade de defender as instituições contra os ataques coordenados de forças que não aceitam as regras do jogo. O Brasil já demonstrou, em 2022 e nos eventos que se seguiram ao 8 de janeiro de 2023, que sua democracia é resiliente – mas essa resiliência precisa ser constantemente reforçada.

Se o bolsonarismo aprendeu algo com Trump, foi que derrotas eleitorais não significam o fim da influência política. O jogo da extrema direita foi antecipado, e o Brasil precisa estar preparado para os novos capítulos dessa disputa.

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