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Brasil
Pesquisa aponta crescimento explosivo com impactos sociais, econômicos e institucionais
Publicado em 15/12/2025 9:54 - Semana On
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O Brasil já reúne, em número de apostadores, o equivalente a uma Las Vegas inteira — ou até mais. Dados da pesquisa TIC.BR 2025, recém-lançada pelo Centro de Estudos do Núcleo de Informações e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), revelam que um em cada cinco brasileiros com mais de 10 anos fez apostas on-line nos últimos três meses. Entre os homens, o percentual chega a 25%; entre as mulheres, 14%. Projetados para a população nacional, os números indicam algo entre 30 e 35 milhões de apostadores ativos, uma magnitude inédita para um país que só regulamentou o setor há três anos.
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O documento oficial do NIC.br trabalha com a estimativa de 30 milhões de apostadores, usando como base os dados do Censo 2022. Ao considerar a taxa geral de prevalência apontada pela pesquisa, a conta chega a 32,5 milhões de brasileiros que apostaram on-line no intervalo recente de três meses — um contingente comparável ao coração do jogo mundial.
Para efeito de comparação, Las Vegas, a capital global dos cassinos, recebeu 41 milhões de visitantes em 2023, segundo a Las Vegas Convention and Visitors Authority. Pesquisas locais indicam que 78% dos turistas apostam durante a estadia, o que resulta em cerca de 32 milhões de apostadores por ano na cidade. A diferença crucial é histórica e institucional: Las Vegas construiu esse volume ao longo de oito décadas de consolidação como polo do jogo; o Brasil atingiu patamar semelhante em menos de uma década, com o jogo on-line autorizado em 2018, durante o governo Michel Temer, e regulamentado apenas a partir de 2022.
A velocidade desse crescimento ajuda a explicar por que especialistas descrevem o fenômeno como um surto: expansão acelerada, alta prevalência e impactos sociais negativos claramente identificáveis. Entre eles estão endividamento crônico, lavagem de dinheiro, uso das apostas como mecanismo para golpes digitais, corrupção no futebol, aumento de casos de transtorno do jogo e maior penetração do crime organizado em atividades aparentemente legais.
Uma pesquisa robusta e confiável
A dimensão do problema ganha ainda mais peso porque a base empírica é sólida. A TIC.BR é considerada uma das pesquisas mais consistentes do país. A edição de 2025 contou com quase 25 mil entrevistas presenciais, realizadas face a face nos domicílios, em amostra nacional, pelo Ipsos-Ipec. Trata-se de um volume mais de dez vezes superior ao das principais pesquisas eleitorais brasileiras, com série histórica anual e metodologia amplamente reconhecida. A equipe técnica do NIC.br, responsável pela análise dos dados, é referência em estudos sobre comportamento digital no Brasil.
Quem são os apostadores brasileiros
Ao contrário do senso comum, os dados mostram que o fenômeno não se concentra majoritariamente entre os mais pobres. Os apostadores on-line no Brasil são, em sua maioria, homens, jovens, urbanos, com escolaridade e renda acima da média. A prevalência é maior nas classes mais altas e entre pessoas ocupadas, embora o impacto também alcance os estratos de menor renda — justamente onde os danos financeiros tendem a ser mais severos.
Há ainda fortes diferenças regionais e por modalidade. Estados de fronteira e grandes regiões metropolitanas concentram taxas mais elevadas de apostas. Entre as formas de jogo, destacam-se as bets esportivas e os cassinos on-line, que lideram a preferência dos usuários.
Saúde mental, futebol e crime
O crescimento explosivo das apostas digitais ocorre em paralelo a alertas internacionais sobre seus efeitos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno do jogo como condição clínica, classificada na CID-11, destacando sua associação com depressão, ansiedade, abuso de substâncias e aumento do risco de suicídio (OMS, International Classification of Diseases – 11th Revision). No campo psiquiátrico, o DSM-5, da American Psychiatric Association, também enquadra o transtorno do jogo como um vício comportamental, equiparável, em impacto, a dependências químicas.
No Brasil, esses efeitos extrapolam o indivíduo. O futebol — principal vitrine das bets — tornou-se vulnerável à manipulação de resultados e à corrupção de atletas, enquanto o ambiente digital facilita a circulação de dinheiro ilícito e amplia o alcance de organizações criminosas. Ao mesmo tempo, o Estado passa a arrecadar mais com impostos e outorgas, um argumento frequentemente usado para defender a expansão do setor.
A conta que não fecha
O resumo da TIC.BR 2025 é contundente:
– Crescimento explosivo da prevalência de apostadores, atingindo em poucos anos um patamar equivalente ao de Las Vegas;
– Forte concentração entre jovens;
– Predominância de bets e cassinos on-line;
– Maior incidência proporcional nas classes altas, sem poupar os mais pobres.
A pergunta final é inevitável: vale a pena? A arrecadação adicional compensa os custos sociais, econômicos e sanitários? À luz dos dados, a resposta tende a ser negativa. Os gastos com saúde mental, o aumento do endividamento, os danos ao esporte e o fortalecimento de redes ilícitas indicam que a mordida do Leão não cobre a fatura. O Brasil pode até ter construído sua própria Las Vegas — mas sem os freios, os amortecedores e a maturidade institucional que levaram décadas para ser erguidos no deserto de Nevada.
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