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Brasil

Brasil alcança maior IDH da história, mas desigualdade racial e regional persiste

ONU aponta avanço impulsionado por saúde e educação, destaca impacto do Bolsa Família e revela que renda é principal entrave ao desenvolvimento

Publicado em 26/05/2026 1:24 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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O Brasil atingiu pela primeira vez o patamar de “muito alto desenvolvimento humano”, segundo relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) brasileiro chegou a 0,805 em 2024 — maior marca da série histórica — superando os 0,744 registrados em 2012. A escala varia de 0 a 1: quanto mais próximo de 1, maior o nível de desenvolvimento.

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O avanço consolidou uma trajetória de crescimento observada ao longo da última década, interrompida apenas nos anos mais críticos da pandemia de covid-19, em 2020 e 2021. Para a ONU, os indicadores revelam um país substancialmente diferente daquele de três décadas atrás. O relatório aponta que o Brasil, parte dos estados, o Distrito Federal e a maioria das regiões metropolitanas já se encontram em níveis classificados como de “muito alto desenvolvimento humano”.

Entre os três pilares que compõem o índice — saúde, educação e renda —, a longevidade permanece como o indicador mais robusto do país. Em 2012, o índice de saúde era de 0,829 e avançou para 0,860 em 2024, desempenho comparável ao de países desenvolvidos. O PNUD atribui parte relevante desse resultado à atuação do Sistema Único de Saúde (SUS), considerado elemento central para a ampliação da expectativa de vida da população brasileira.

O crescimento mais expressivo, entretanto, ocorreu na educação. Há pouco mais de uma década, esse era o indicador mais frágil do país, com pontuação de 0,679. Agora, alcançou 0,798, tornando-se o segundo melhor componente do IDH brasileiro. Para especialistas envolvidos na elaboração do estudo, esse salto está diretamente relacionado aos efeitos acumulados de políticas públicas implementadas desde o início dos anos 2000, especialmente o Bolsa Família.

A economista Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do PNUD no Brasil, afirma que os resultados educacionais refletem o impacto prolongado das exigências vinculadas ao programa social. Segundo ela, a obrigatoriedade de matrícula e frequência escolar mínima para crianças e adolescentes beneficiários contribuiu decisivamente para elevar os indicadores educacionais das camadas mais pobres da população.

Para receber o benefício, famílias precisam manter crianças e adolescentes na escola, com frequência mínima de 60% para alunos entre 4 e 6 anos incompletos e de 75% para estudantes de 6 a 18 anos incompletos. Na avaliação do PNUD, essa condicionalidade ajudou a reduzir o trabalho infantil e ampliou o acesso contínuo à educação básica.

A análise por faixa de renda reforça essa conclusão. Segundo Barbosa, os avanços educacionais mais intensos ocorreram justamente entre os grupos mais pobres da população, onde a presença dos programas de transferência de renda é mais significativa. Ela afirma que o Bolsa Família não apenas garante permanência escolar, mas cria condições mínimas para que jovens permaneçam em trajetórias educacionais antes interrompidas pela vulnerabilidade econômica.

Apesar da melhora generalizada dos indicadores, o relatório aponta que a renda continua sendo o principal fator de contenção do desenvolvimento humano brasileiro. O índice relacionado ao rendimento avançou pouco desde 2012, passando de 0,732 para 0,760, e permanece como o componente que mais reduz a média nacional. Enquanto saúde e educação mantiveram trajetória contínua de crescimento, a renda apresentou oscilações ao longo dos anos e desempenho mais lento.

A ONU alerta que os ganhos registrados não foram suficientes para reduzir desigualdades estruturais históricas. Diferenças de raça, gênero e território seguem produzindo realidades profundamente distintas dentro do mesmo país. O levantamento mostra que homens possuem IDH de 0,802, considerado “muito alto”, enquanto mulheres registram 0,798, ainda na faixa de “alto desenvolvimento humano”.

A disparidade racial é ainda mais acentuada. Pessoas brancas alcançam índice de 0,851, dentro do patamar de “muito alto desenvolvimento humano”, enquanto a população negra permanece em 0,774. O contraste regional também é expressivo: o Distrito Federal apresenta o maior IDH do país, com 0,866, enquanto o Maranhão ocupa a última posição, com 0,745.

Essas desigualdades se refletem diretamente nas condições de vida da população. Um morador do Amapá, por exemplo, tem expectativa de vida média de 74,3 anos, quase cinco anos inferior à registrada no Distrito Federal, onde a média chega a 79,7 anos.

No campo econômico, as distorções são ainda mais contundentes. Segundo o relatório, um cidadão branco do Distrito Federal possui renda média cerca de quatro vezes superior à de um cidadão negro do Maranhão: R$ 1.987 contra R$ 446,20.

Chefe do PNUD no Brasil, Claudio Providas afirma que essas diferenças permanecem praticamente inalteradas há mais de uma década. Segundo ele, uma mulher negra brasileira ainda vive, estatisticamente, em condições completamente diferentes das enfrentadas por um homem branco no país.

Betina Barbosa aponta que desigualdades raciais e de gênero continuam sendo dois dos principais obstáculos ao desenvolvimento nacional. Para ela, a inclusão efetiva da população negra e das mulheres nas políticas públicas e nas estratégias econômicas será decisiva para determinar a capacidade do país de transformar crescimento em desenvolvimento social mais equilibrado.

Embora reconheça avanços recentes, o PNUD sustenta que a velocidade das melhorias ainda não foi suficiente para alterar a estrutura desigual do país. Providas observa que a população negra evoluiu em ritmo proporcionalmente superior ao da população branca nos últimos anos, o que demonstraria a capacidade de transformação quando há políticas públicas direcionadas, vontade política e compromisso social.

O relatório encerra apontando que o desafio brasileiro deixou de ser apenas crescer economicamente. A questão central, segundo o PNUD, passou a ser definir quem efetivamente terá acesso aos benefícios desse crescimento e quais grupos continuarão à margem do desenvolvimento nacional.

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