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Brasil

Barbárie no RJ é fruto da promiscuidade entre política, polícia, milícia e bandidagem

Nenhuma ação policial que termina com mais de uma centena de mortos pode ser considerada bem sucedida

Publicado em 29/10/2025 2:13 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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A megaoperação da polícia do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, teve o maior número de mortes em uma incursão desse tipo. O governo Cláudio Castro (PL) já confirmou as mortes de 120 pessoas nesta quarta-feira (29), mas os corpos ainda estão sendo recuperados de zonas de mata e vielas. Entre as vítimas fatais estão quatro policiais.

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Ao longo da madrugada, moradores do Complexo da Penha levaram pelo menos 74 corpos para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, uma das principais da região. A princípio, os corpos levados à praça não foram contabilizados no balanço inicial. Moradores afirmam que ainda há muitos mortos no alto do morro.

Uma nota conjunta de 27 organizações da sociedade civil repudiou a operação. Segundo as organizações, “segurança pública não se faz com sangue” e os resultados da operação desta terça-feira expõem “o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado”.

A chacina ocorreu durante a chamada Operação Contenção, uma iniciativa permanente do governo do estado de combate ao avanço do CV por territórios fluminenses, na qual cerca de 2.500 policiais civis e militares atuaram para cumprir mandados de busca e apreensão e capturar lideranças criminosas do Rio e de outros estados.

Para especialistas, a operação gerou um grande impacto na capital fluminense e não atingiu o objetivo de conter o crime organizado, pelo contrário, ações como esta apenas fortalecem a violência.

“Essa lógica de medir força armada bélica com estruturas do tráfico sempre resultaram em mortes cada vez maiores, em sofrimento cada vez mais intenso, perda de acesso a serviços públicos, perda de mobilidade urbana, os mais frágeis sempre vão sofrer muito mais. A economia é afetada diretamente e o problema nunca foi sequer arranhado”, diz o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves à Agência Brasil.

“Isso tudo que vocês estão vendo aí hoje, arrebentando no Rio de Janeiro todo, é apenas uma imensa e gigantesca cortina de fumaça, um rolo gigantesco de fumaça cegando a todos”, diz, Alves.

Para o diretor da Iniciativa Direto à Memória e Justiça Racial e militante do movimento de favelas, Fransérgio Goulart, o que se vê é uma guerra dentro de territórios negros e pobres. “Chama a atenção os corpos negros algemados. Os corpos jogados pelo chão da favela, fora os desaparecidos no entorno da mata. A polícia não age da mesma forma na Zona Sul. Agora mesmo, passei de ônibus pela região, e a praia estava cheia. Nos territórios pretos, a polícia age historicamente de outra forma”, diz Fransérgio à Agencia Brasil.

“O que eu mais estranho é a própria grande mídia entrar nesse discurso de dar muito peso ao fato de os mortos serem bandidos ou não, nessa dualidade simplista. A gente teve, pelo menos, 64 pessoas mortas por causa de uma operação policial. Isso no mundo inteiro iria causar um impacto, uma comoção, uma sensibilização. E o governador está passando ileso. A política de segurança pública dele executou 64 pessoas”, complementa.

Quatro policiais morreram durante a operação.

Fransérgio também critica o alto montante do orçamento público destinado às ações de confronto da polícia. “O orçamento público previsto para as polícias no estado do Rio de Janeiro em 2026 é de R$ 19 bilhões. E esses recursos servem a uma política de produção de morte. Não para pensar uma polícia de inteligência, de menos confrontos. Qual o custo dessa operação policial para os cofres públicos, diretos e indiretos? Quais os custos de uma cidade parada, do caos que foi gerado?”, questiona.

Em nota, o Instituto Fogo Cruzado afirmou que ações como esta não combatem de fato o crime organizado. “Combater o crime organizado exige outra lógica. É preciso atacar fluxos financeiros, investigar lavagem de dinheiro, fortalecer corregedorias independentes e combater a corrupção dentro do Estado. Tudo que o Rio de Janeiro não faz há décadas”, afirmou em nota.

“As polícias do Rio começaram o dia com a Operação Contenção e o que se viu foi parte expressiva da população na linha de tiro e uma cidade inteira parada. Este é o planejamento do governo do estado? Operações como essa mostram a incapacidade do governo estadual de fazer política pública de segurança pública”, explicou.

Uma nota conjunta de 27 organizações da sociedade civil repudiou a operação. Segundo as organizações, “segurança pública não se faz com sangue” e os resultados da operação desta terça-feira expõem “o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado”.

“O resultado se expressa em um completo estado de insegurança aos cidadãos, onde passam a ocupar o lugar de reféns tanto da ação violenta do Estado, quanto das retaliações produzidas pelas lideranças do tráfico. Não há justificativa para que uma política estatal continue a ser conduzida a partir do derramamento de sangue. A segurança pública deve garantir direitos, não violá-los”, diz a nota.

Assinam o texto, as entidades Anistia Internacional Brasil, Justiça Global, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania — CESeC, Conectas Direitos Humanos, Centro pela Justiça e o Direito Internacional — CEJIL, Instituto Papo Reto do Complexo do Alemão, Redes da Maré, Instituto de Estudos da Religião — ISER, Observatório de Favelas, Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular (NAJUP), Movimento Unidos dos Camelôs, Grupo Tortura Nunca Mais — RJ, Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro, CIDADES – Núcleo de Pesquisa Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Defensores de Direitos Humanos — DDH, Iniciativa Direito Memória e Justiça Racial, Frente Estadual pelo Desencarceramento — RJ, Instituto Terra Trabalho e Cidadania — ITTC, Associação de Amigos/as e Familiares de Pessoas Presas e Internos/as da Fundação Casa — Amparar, Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares — GAJOP, Instituto Sou da Paz, Rede Justiça Criminal, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional — FASE RJ, Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares — RENAP RJ, Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Casa Fluminense e Plataforma Justa.

Leia a íntegra da carta aqui: http://bit.ly/47u7O4G

Defensoria Pública critica aumento da letalidade policial no Rio

A Defensoria Pública da União (DPU) também repudiou, em nota, o aumento da violência e da letalidade policial no estado do Rio de Janeiro.

“Para a DPU, ações estatais de segurança pública não podem resultar em execuções sumárias, desaparecimentos ou violações de direitos humanos, sobretudo em comunidades historicamente marcadas por desigualdade, ausência de políticas sociais e exclusão institucional”, sustenta a instituição.

Na nota, DPU lembra que, em abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) homologou parcialmente o plano de redução da letalidade policial apresentado pelo governo do Rio de Janeiro, estabelecendo parâmetros claros para a atuação das forças de segurança pública em territórios vulneráveis. Na prática, a Corte determinou a adoção de medidas complementares às operações policiais – consideradas excepcionais -, como a elaboração de planos de recuperação e reocupação territorial de áreas ocupadas por organizações criminosas.

“A decisão do Supremo reafirma o dever constitucional do Estado brasileiro de garantir a segurança pública em consonância com a proteção à vida, aos direitos humanos e à dignidade das pessoas, sobretudo da população negra, pobre e periférica – historicamente mais atingida por operações de alta letalidade”, destacou a DPU, argumentando que o combate à criminalidade “deve ocorrer dentro dos limites da legalidade, com uso proporcional da força, transparência na apuração dos fatos e garantia do devido processo legal”.

O eco da ditadura no discurso de Cláudio Castro

Ao perceber que operações policiais letais lhe renderam apoio entre setores da extrema direita, o governador do Rio de Janeiro decidiu abandonar qualquer verniz moderado. Com um discurso que remete diretamente à retórica autoritária da ditadura militar, ele se apoiou no rastro das mais de 100 mortes.

Castro elogiou os agentes envolvidos e disparou: “Ou soma no combate à criminalidade ou suma!” — uma reformulação explícita do slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”, usado pelos militares entre 1964 e 1985 para deslegitimar qualquer crítica ao regime, à repressão e à violência de Estado.

A frase, dificilmente espontânea, revela cálculo político. E confirma o diagnóstico clássico de Karl Marx sobre a repetição da História — primeiro como tragédia, depois como farsa. No caso brasileiro, a farsa tem um gosto amargo, agravado pela banalização da morte e pela despolitização da violência.

O alvo imediato do recado foi o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que cobrou responsabilidade do governo estadual após os episódios sangrentos. No entanto, o governador também é pressionado pelo Supremo Tribunal Federal. O ministro Alexandre de Moraes já solicitou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre a escalada de violência no estado.

Mais à vontade diante da repercussão, Castro afirmou: “Temos muita tranquilidade de defendermos tudo que fizemos ontem”, destacando sua solidariedade às famílias dos quatro policiais mortos na ação: “De vítima ontem, só tivemos esses policiais.”

A fala ignora o cenário de dezenas de corpos, entre eles o de civis, e reforça uma narrativa em que todo morto pela polícia é culpado por definição. A mesma linha foi adotada em 2021, na Chacina do Jacarezinho, quando 28 pessoas — 27 moradores e um agente — foram mortos numa operação desastrosa. À época, um delegado da Polícia Civil declarou: “Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante.”

No Rio de Janeiro, ser baleado virou critério automático de culpabilidade. A justiça deixa de ser um processo para se tornar um veredito sumário. A polícia, que deveria investigar e prender, se converte em acusadora, juíza e carrasca. Isso subverte o Estado Democrático de Direito e o papel da Constituição de 1988, que assegura a todos o devido processo legal.

Mais grave: esse tipo de ação abre caminho para o avanço do poder paralelo. A “limpeza” promovida por forças do Estado não apenas elimina rivais do tráfico, como facilita a ocupação de territórios por milícias, cada vez mais articuladas politicamente. Para parte da classe média e alta, fica a ilusão de que o governo está “agindo”, mesmo que o preço seja a barbárie.

Enquanto isso, os próprios policiais, transformados em “guerreiros” em discursos oficiais, seguem enfrentando uma rotina de baixos salários, falta de estrutura, treinamento precário e missões de alto risco sem planejamento estratégico. O desprezo pela vida — seja de civis ou agentes — é a regra num Estado que confunde segurança com extermínio.

Em uma sociedade atravessada pela lógica miliciana, não há espaço para suspeitos. Só há culpados. E, para muitos, apenas uma sentença: a morte.

Operação expõe falência da segurança pública

Castro comemorou o resultado da operação nas redes sociais com uma foto ao lado de armamentos apreendidos e a legenda: “Depois disso, alguém ainda duvida que nossas forças de segurança estão fazendo sua parte?”

Apesar da retórica oficial, especialistas apontam que a altíssima letalidade é indicativo não de sucesso, mas de fracasso estratégico. “Quando o Estado precisa matar para demonstrar força, é porque perdeu o controle sobre as outras ferramentas de poder”, resume o sociólogo Ignácio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj. Para Cano, o modelo atual é “repetitivo, ineficaz e socialmente desastroso”.

A insistência em operações com resultado pirotécnico, elevado número de mortos e poucos resultados estruturais aponta para a ausência de uma política de segurança orientada por inteligência. Não há integração eficaz entre bases de dados estaduais e federais, nem articulação entre órgãos que deveriam atuar no rastreamento de armas, lavagem de dinheiro e bloqueio de bens associados ao crime organizado.

O discurso oficial se apoia na lógica do medo. Parte da população, especialmente setores das classes média e alta, vê nas ações violentas um sinal de que “algo está sendo feito”, ainda que o “algo” se traduza em chacinas. Postagens como “se morreu, era bandido” proliferam nas redes sociais, naturalizando a ideia de execução sumária como política de Estado.

“O Estado brasileiro é tolerante com a morte quando ela se dá em certas geografias e atinge certos corpos”, observa a antropóloga Juliana Farias, pesquisadora do NECVU/UFRJ. A banalização das mortes em comunidades pobres revela um esgarçamento do pacto democrático e a substituição do devido processo legal pela força bruta.

Além de moradores, os próprios policiais são vítimas de uma política de confronto sem planejamento. Quatro agentes morreram na ação desta terça-feira. Em vez de investimento em inteligência, treinamento, proteção e valorização profissional, o Estado envia seus policiais para o confronto como bucha de canhão.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Rio de Janeiro lidera o ranking nacional de mortes decorrentes de intervenções policiais. Em 2023, foram 1.330 mortes — cerca de 3 por dia. O estado também é um dos que menos investem proporcionalmente em políticas preventivas, como educação, cultura e geração de emprego nas áreas mais vulneráveis.

A farsa da guerra às drogas e a blindagem dos verdadeiros chefes

A política de segurança no Rio é cíclica: chacinas em favelas, celebração de resultados simbólicos, esquecimento dos mortos e nenhuma mudança estrutural. A tese de que o problema está nos “territórios ocupados” é apenas meia verdade. O poder real do tráfico e das milícias está nas movimentações financeiras e conexões políticas.

Enquanto o Comando Vermelho fecha comunidades, os verdadeiros chefes do crime seguem operando em bairros nobres e utilizando instrumentos legais para lavar dinheiro e financiar campanhas. Em vez de combater essas estruturas, o Estado opta por ações de alta letalidade em regiões empobrecidas, longe do olhar vigilante da elite.

Como aponta o pesquisador Michel Misse, referência no estudo da violência urbana: “As milícias são hoje o maior poder armado do estado, com proteção política, econômica e social.”

O combate eficiente ao crime organizado exige coordenação federativa, ação contra o fluxo de armas e drogas, investigação financeira, sequestro de bens e responsabilização de políticos e empresários envolvidos com facções. Só depois de enfraquecer as estruturas centrais, o Estado pode entrar nas comunidades com ações de segurança cidadã, políticas públicas, saneamento, saúde, educação e geração de renda.

Mas isso exige tempo, investimento e vontade política — ativos escassos no atual governo fluminense.

ONU denuncia ‘brutalidade extrema’

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos denunciou o que classificou como “brutalidade extrema” nas ações policiais no Rio de Janeiro e cobrou uma reforma profunda nos métodos de policiamento no Brasil. A organização também exigiu uma investigação independente e eficaz sobre a megaoperação.

“Compreendo os desafios impostos por organizações criminosas violentas como o Comando Vermelho. No entanto, a recorrência de operações com alto número de mortes — em sua maioria, de pessoas negras — levanta sérias preocupações sobre os métodos empregados”, afirmou o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk.

No comunicado, emitido em Genebra, Türk alertou para a normalização da letalidade policial no país, especialmente no Rio de Janeiro. “O Brasil precisa romper o ciclo de violência e garantir que suas operações de segurança estejam em conformidade com os padrões internacionais sobre o uso da força”, declarou.

A ONU reiterou o apelo por transparência feito no dia anterior e defendeu uma resposta rápida e independente por parte das autoridades brasileiras. “É essencial que sejam realizadas investigações céleres, autônomas e eficazes sobre os eventos de terça-feira. Reformas estruturais no policiamento são urgentes e inadiáveis”, reforçou Türk.

Ele também recomendou a adoção de uma estratégia nacional de segurança pública baseada em princípios de direitos humanos. Segundo o alto comissário, o uso de força letal deve obedecer aos critérios de legalidade, necessidade, proporcionalidade e não discriminação. “A força letal só pode ser empregada em situações absolutamente necessárias para proteger vidas ou prevenir ferimentos graves diante de uma ameaça iminente”, frisou.

A ONU também chamou atenção para o racismo estrutural na atuação das forças de segurança. Segundo o Mecanismo Internacional Independente de Especialistas para Promover a Justiça Racial e a Igualdade na Aplicação da Lei, a violência policial contra a população negra no Brasil é “generalizada e sistemática”. Estima-se que cerca de 5 mil pessoas negras sejam mortas por ano em ações policiais, com destaque para jovens que vivem em comunidades empobrecidas.

“É hora de desmontar um sistema que perpetua o racismo, a discriminação e a injustiça”, afirmou Türk. “Reformas urgentes são necessárias para evitar que tragédias como essa se repitam. Violações não podem permanecer impunes. A responsabilização adequada deve conduzir à verdade e à justiça, para romper com o ciclo de impunidade e violência.”

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