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Brasil
Fraude no Master: disputa no STF expõe temor de precedente institucional
Publicado em 21/01/2026 10:07 - Semana On
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O Banco Central do Brasil decretou nesta quarta-feira (21) a liquidação extrajudicial do Will Bank, instituição digital controlada pelo grupo Master. O banco estava desde novembro sob regime de administração especial temporária, mecanismo aplicado quando ainda há expectativa de recuperação ou venda — hipótese que, segundo o regulador, não se confirmou.
O Will Bank havia sido preservado quando o BC decidiu liquidar o Banco Master, em 18 de novembro, apostando na possibilidade de interesse de investidores. O regime especial poderia se estender por até 120 dias, mas a situação se deteriorou rapidamente. O ponto de inflexão ocorreu quando a instituição deixou de honrar pagamentos a integrantes da cadeia de cartões, incluindo a bandeira Mastercard, o que levou ao bloqueio de sua participação no arranjo de pagamentos.
Em ato assinado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, a autoridade monetária apontou como fundamentos da liquidação o “comprometimento da situação econômico-financeira”, a “insolvência” do banco e o “vínculo de interesse” com o Banco Master, já sob liquidação. Na prática, a medida implica a interrupção imediata das atividades do Will Bank e sua retirada do Sistema Financeiro Nacional, além da indisponibilidade dos bens de controladores e ex-administradores.
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Apesar do porte limitado — o conglomerado Master representava 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro —, o caso ganhou relevância pelo encadeamento de falhas. Classificado como conglomerado de crédito diversificado, de pequeno porte e enquadrado no segmento S3 da regulação prudencial, o grupo tinha o Banco Master como instituição líder.
Antes mesmo do anúncio oficial da liquidação, a Mastercard havia suspendido transações com cartões emitidos pelo Will Bank para conter a ampliação do passivo. A bandeira também executou garantias associadas às dívidas do banco, passando a deter participações relevantes na varejista Westwing e no BRB.
Em nota, o Banco Central afirmou que, ao decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, considerou “adequada e aderente ao interesse público” a adoção do regime especial para o Master Múltiplo, diante da possibilidade de preservar a controlada Will Financeira. Essa alternativa, contudo, “não se mostrou viável” após o descumprimento da grade de pagamentos com a Mastercard, registrado na segunda-feira (19).
O dia 24 de novembro de 2025 foi fixado como termo legal da liquidação extrajudicial do Will Bank. O BC informou ainda que segue apurando responsabilidades e que o resultado das investigações pode resultar em sanções administrativas e comunicações a outras autoridades competentes.
Fundado em 2017 e adquirido pelo grupo Master em 2024, o Will Bank encerrou o primeiro semestre com R$ 14,4 bilhões em ativos, prejuízo de R$ 244,7 milhões e patrimônio líquido próximo de R$ 300 milhões, segundo dados do próprio Banco Central. Uma eventual venda da instituição poderia ter reduzido o impacto para o Fundo Garantidor de Créditos, que agora deverá arcar com até R$ 40,6 bilhões em indenizações — a maior já registrada pelo fundo — a cerca de 800 mil investidores de CDBs e outros títulos emitidos pelo Master.
Sem a venda, as perdas tendem a aumentar. Em setembro, o Will Bank mantinha R$ 6,5 bilhões em depósitos a prazo e nenhum valor em depósitos à vista.
O episódio também se conecta às investigações criminais em curso. Na semana passada, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura o uso de fundos de investimento para inflar artificialmente o patrimônio do Banco Master. Entre os alvos estão o controlador Daniel Vorcaro, familiares e empresários, incluindo Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag, também liquidada pelo BC. Vorcaro chegou a ser preso na primeira fase da operação, em novembro, sob acusação de liderar o esquema, e hoje responde ao processo em liberdade, monitorado por tornozeleira eletrônica.
O que muda para os clientes
Com a liquidação, o Fundo Garantidor de Créditos é automaticamente acionado. Clientes com recursos em contas digitais ou aplicações cobertas pelo FGC, como CDBs, terão direito a receber até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, incluindo rendimentos até a data da liquidação. Valores acima desse limite só poderão ser recuperados caso reste capital após a venda dos ativos do banco.
Os rendimentos ficam congelados a partir desta quarta-feira (21). Para receber, o credor deverá se manifestar: pessoas físicas fazem a solicitação pelo aplicativo do FGC, enquanto pessoas jurídicas utilizam o site do fundo. Após a validação e assinatura digital do termo, o pagamento ocorre em até dois dias úteis, embora o prazo médio para início dos desembolsos seja de cerca de 30 dias. O fundo alerta que não autoriza intermediários nem cobra taxas para liberação dos valores.
Dívidas com o banco permanecem válidas. Empréstimos, financiamentos, faturas de cartão de crédito e parcelas de crédito consignado continuam sendo cobrados, agora sob administração do liquidante nomeado pelo BC, a EFB Regimes Especiais de Empresas. Já as chaves Pix do Will Bank perdem validade imediata, uma vez que a instituição foi excluída do Sistema de Pagamentos Instantâneos.
No processo de liquidação, o Banco Central buscará levantar recursos para pagamento dos credores. Caberá ao liquidante identificar, no balanço do Will Bank, quais ativos estão efetivamente disponíveis para venda e conduzir as negociações no mercado. O resultado desse processo determinará o quanto poderá ser recuperado além da cobertura oferecida pelo FGC.
Disputa no STF expõe temor de precedente institucional
O retorno antecipado do ministro Edson Fachin a Brasília, antes do fim do recesso do Judiciário, desencadeou especulações no Supremo Tribunal Federal sobre uma possível iniciativa para retirar Dias Toffoli da relatoria do caso envolvendo o Banco Master. A hipótese, no entanto, encontra forte resistência interna e é vista por integrantes da Corte como uma ruptura institucional de alto risco.
Nos bastidores, Toffoli tem sido categórico: não pretende deixar a relatoria. A colegas, interpreta as movimentações como algo além de falta de coleguismo — um gesto que beira a hostilidade institucional. A avaliação predominante no tribunal é que um afastamento imposto pelo presidente do STF seria inédito e abriria um precedente considerado “gravíssimo”, com efeitos duradouros sobre a autonomia dos ministros e o funcionamento da Corte.
Apesar do ruído público, ministros ouvidos sustentam que o andamento substantivo do processo não foi comprometido. Segundo um integrante do STF que acompanha o caso, pedidos formulados pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República foram atendidos, operações ocorreram conforme o previsto e os dados apreendidos seguem em análise. “Naquilo que importa, o trabalho foi feito”, resumiu.
O clima, contudo, é de tensão latente. O tribunal retoma suas atividades em fevereiro com uma pauta sensível e discussões reservadas. Entre os cenários cogitados está a possibilidade de que, à medida que os autos avancem, se conclua que a menção ao deputado João Carlos Bacelar nos documentos apreendidos com Daniel Vorcaro, controlador do Master, não configura elemento penal suficiente para atrair a competência do STF, o que levaria à devolução do caso à primeira instância da Justiça Federal. Outra alternativa — um afastamento voluntário do relator, por razões pessoais — é descartada por Toffoli.
A maioria da Corte atua, por ora, para reduzir a temperatura e ganhar tempo. Um afastamento de ofício, além de não contar com apoio majoritário, poderia isolar ainda mais Fachin. O receio central é a criação de jurisprudência: permitir que o presidente do STF retire um colega da relatoria sob pressão política abriria margem para intervenções futuras alinhadas a interesses circunstanciais, inclusive do Executivo.
Esse mesmo argumento ajuda a explicar a resistência interna à proposta de um código de conduta específico para ministros do STF, defendida por Fachin. Ao estudar modelos internacionais, como o da Corte Constitucional alemã, ministros destacaram um ponto crucial: a definição clara de quem detém o poder de fazer cumprir as regras. No Brasil, a quem caberia esse papel? Ao Conselho Nacional de Justiça, composto majoritariamente por integrantes de instâncias inferiores ao STF? Ou ao Senado Federal, onde se acumulam pedidos de impeachment de ministros, em grande parte de natureza política?
“Ao mudar as regras do jogo, é preciso saber quem distribui as cartas”, resume um ministro, sintetizando a preocupação institucional.
Fachin, por sua vez, avalia que o desgaste provocado pelo escândalo do Banco Master oferece uma janela para avançar na agenda ética. Enxergou nas controvérsias envolvendo Toffoli — da proximidade com advogados de investigados a vínculos familiares com fundos ligados ao banco — um catalisador para tentar superar resistências históricas dentro da Corte.
A movimentação coloca o STF diante de um teste interno. A discussão sobre ética e autocontenção, até aqui abstrata, ganhou contornos concretos. Resta saber quantos ministros estarão dispostos a aceitar regras mais claras de conduta — e, sobretudo, quem teria legitimidade para aplicá-las.
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