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Brasil
Fachin antecipa retorno para conter lambanças de Toffoli no caso
Publicado em 20/01/2026 2:36 - Semana On
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O entorno do Banco Master montou, ao longo dos últimos anos, um sofisticado sistema de produção de riqueza fictícia. A engrenagem combinava ativos ambientais de existência duvidosa, títulos bancários sem liquidez e uma contabilidade criativa capaz de transformar passivos e papéis mortos em bilhões registrados no papel. O resultado foi um ecossistema financeiro artificial que funcionou sob os olhos do mercado e com respostas tardias dos órgãos de controle.
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No Norte do país, o verniz era ambiental. Empresas sem histórico no setor passaram a declarar volumes bilionários em créditos de carbono, lastreados em áreas da Amazônia marcadas por disputas fundiárias, sobreposição de assentamentos e pendências legais. Em alguns casos, as companhias estavam formalmente registradas em endereços onde nenhuma atividade funcionava. Ainda assim, os ativos prosperavam nos balanços. A revelação foi feita em investigação publicada nesta semana pela jornalista Amanda Rossi, no UOL.
Um dos exemplos mais emblemáticos foi o de uma empresa que, partindo de um capital social simbólico de R$ 100, declarou patrimônio de R$ 26,6 bilhões em curto espaço de tempo. A floresta, nesse arranjo, deixou de ser bioma e passou a cumprir papel contábil: justificativa para a criação de créditos cuja certificação séria seria, em tese, inviável.
No Sul, o milagre assumiu forma bancária. Títulos do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), liquidado há quase 20 anos, foram adquiridos por valores irrisórios e reapresentados como ativos robustos. Papéis sem valor econômico real voltaram aos balanços com cifras infladas, tratados como riqueza líquida. A prática foi detalhada em reportagem de Amanda Rossi e Natália Portinari, publicada no último dia 9, também no UOL.
Não se tratava de falsificação grosseira, mas de operações sofisticadas, capazes de movimentar dezenas de bilhões de reais. Essa riqueza fantasma servia para alavancar crédito, atrair investidores e, segundo investigações, viabilizar esquemas de lavagem de dinheiro.
O elo entre os créditos ambientais inflados no Norte e os papéis bancários sem lastro no Sul passa pelo clã ligado ao Banco Master. Fundos da Reag, investigados por suspeitas de fraude bancária e lavagem de recursos, inflaram ativos do antigo Besc. Ao mesmo tempo, Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, controlador do banco, figura entre os principais investidores das empresas Global Carbon e Golden Green, que declararam, juntas, cerca de R$ 40 bilhões em capital sob suspeita de inflação artificial.
A dinâmica era circular: empresas e fundos ligados à mesma família negociavam entre si, retroagiam aumentos de capital, inflavam avaliações e criavam a aparência de patrimônio sólido. O dinheiro não surgia de produção, inovação ou geração de valor real, mas de uma engenharia contábil que convertia esperteza em ativo financeiro.
Nada disso ocorreu à margem do sistema. Auditorias, relatórios técnicos e certificações conferiram aparência de normalidade às operações. Alertas chegaram aos reguladores, procedimentos foram instaurados, mas a engrenagem seguiu ativa tempo suficiente para que cifras bilionárias circulassem.
O discurso recorrente da “devida diligência”, tão celebrado nos fóruns financeiros da Faria Lima, mostrou seus limites. Diante de promessas de retornos elevados, a disposição para questionar a origem dos ativos diminuiu drasticamente.
O impacto final recai sobre terceiros. Fundos de pensão, investidores individuais, mecanismos públicos de garantia e, em última instância, a sociedade absorvem os prejuízos quando a fantasia contábil se desfaz. Os ganhos permanecem concentrados, protegidos por estruturas empresariais complexas.
O caso não expõe apenas a ousadia de um grupo empresarial, mas as fragilidades do sistema de fiscalização. Banco Central, CVM, certificadoras e auditorias reagiram tarde ou de forma insuficiente. Fiscalizar com rigor exige recursos, autonomia e disposição para enfrentar interesses poderosos — um custo que o Estado, muitas vezes, hesita em assumir.
Retorno antecipado de Fachin busca conter crise no STF
O avanço das investigações sobre o Banco Master produziu reflexos diretos no topo do Judiciário. O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, interrompeu o recesso e antecipou seu retorno a Brasília, avaliando que o momento exige atuação direta da presidência.
A movimentação tem como pano de fundo o desgaste institucional provocado pela condução do inquérito no STF, relatado pelo ministro Dias Toffoli. Fachin busca administrar a tensão aberta entre o tribunal, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, após decisões que ampliaram o alcance do processo e impuseram alto grau de sigilo.
Nesta quarta-feira, Fachin cumpre agenda em São Luís para encontro com o ministro Flávio Dino, em gesto interpretado como tentativa de alinhamento interno em meio à crise.
O procurador-geral Paulo Gonet recebeu quatro representações parlamentares pedindo a declaração de suspeição de Toffoli. A hipótese, contudo, enfrenta forte barreira histórica: em mais de duas décadas, o STF jamais acolheu pedido de afastamento de um de seus ministros.
As preocupações concentram-se no método adotado pelo relator. Toffoli determinou a centralização de todas as investigações no Supremo, inclusive aquelas sem autoridades com foro privilegiado, e restringiu o acesso público aos autos. O ápice da tensão ocorreu quando ordenou que materiais apreendidos em novas fases da operação fossem enviados diretamente ao seu gabinete — decisão revista após alertas da PF e parecer contrário da PGR.
O mal-estar institucional tornou-se público com nota da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, que classificou o cenário como “atípico” e apontou interferências no planejamento investigativo, incluindo prazos reduzidos, procedimentos fora do padrão e a indicação direta de peritos.
O desfecho do caso testará não apenas a responsabilização de um esquema financeiro de grandes proporções, mas também a capacidade das instituições de preservarem sua credibilidade diante de pressões políticas, econômicas e corporativas.
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