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Brasil
Na contramão, empresários pressionam por anistia em troca de alívio econômico
Publicado em 05/09/2025 9:37 - Semana On
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Um mês após o início da vigência das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, o temido impacto sistêmico na economia nacional não se concretizou. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) revelam que, apesar da queda de 18,5% nas exportações para o mercado norte-americano em agosto, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 6,1 bilhões — um crescimento de 35,8% em relação ao mesmo período do ano passado.
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A contenção dos danos se deve, em grande parte, à lista de isenção com cerca de 700 produtos e à rápida adaptação das empresas brasileiras que redirecionaram sua produção para outros mercados. O setor de carnes, por exemplo, expandiu sua presença em mais de 150 países e abriu novos destinos como Indonésia, Filipinas, São Vicente e Granadinas, além de negociar acesso ao Japão, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC).
Entretanto, setores não contemplados na lista de isenção — como café, suco de laranja e peças aeronáuticas — sentiram o impacto de forma mais intensa. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) registrou uma queda de 50% nas exportações do grão para os EUA, após a suspensão de contratos e paralisação de novos negócios em função da insegurança comercial gerada pela medida. O café não torrado representa hoje 6,9% das exportações brasileiras ao mercado norte-americano.
Apesar da tensão inicial, a reação dos mercados financeiros foi positiva: o Ibovespa acumulou alta superior a 6% no período, a maior desde agosto de 2022. Para o gestor Eduardo Grübler, da AMW, a medida teve um “efeito menor que o esperado”, ainda que tenha afetado pontualmente pequenas e médias empresas.
“O tarifaço teve um efeito menor que o esperado na economia brasileira como um todo, apesar do susto inicial. A resiliência de setores como o da carne e a Embraer, que foi beneficiada pela isenção, ajudou a segurar os impactos mais severos”, avaliou Grübler.
Diversificação como resposta
Um dos principais efeitos do tarifaço, segundo especialistas, foi a aceleração da diversificação de mercados — um desafio histórico para o comércio exterior brasileiro. Para o economista Alex Agostini, da Austin Rating, a crise serviu como “choque de realidade”:
“O principal efeito foi tirar o Brasil da zona de conforto, levando-o a diversificar mercados e relações comerciais. Apesar de um impacto inicial estimado em 0,6% do PIB, o impacto real será menor e diluído ao longo do tempo”, avaliou.
Jackson Campos, especialista em comércio exterior, destacou a preferência da China por produtos sul-americanos como fator decisivo para evitar uma ruptura na oferta brasileira. Mas ele alerta: produtos sem alternativas logísticas ou sanitárias rápidas seguem vulneráveis.
A ApexBrasil estima que 195 produtos brasileiros estejam potencialmente expostos aos efeitos das tarifas, variando conforme o peso das exportações em cada estado. Entre os mais sensíveis estão os semimanufaturados de ferro ou aço não ligado e o próprio café não torrado.
Política comercial ativa
O governo federal respondeu ao desafio com uma ofensiva diplomática e comercial. Desde o início do ano, segundo a Apex, foram realizados 16 encontros empresariais liderados pelo presidente Lula, em países como China, Japão, Espanha, Arábia Saudita e Angola — além de mais quatro com o vice-presidente Geraldo Alckmin. A agência contabiliza a abertura de quase 410 mercados desde o início do atual governo.
“É uma vitória para o Brasil. O presidente Lula e a Apex fizeram o dever de casa. O Brasil agora mira a Índia, o maior potencial que temos para exportar”, disse Jorge Viana. “Vamos aumentar nossa participação na Austrália e, nos próximos dias, vamos ao Canadá, que compra US$ 1 bilhão de café brasileiro.”
Com um tom otimista, Viana afirmou que o Brasil não está “pessimista quanto ao dia de amanhã”, e destacou que os esforços recentes marcam uma ruptura com a política passiva de comércio exterior das gestões anteriores.
UE avança em acordo com Mercosul
A Comissão Europeia apresentou na quarta-feira (3) ao Conselho Europeu a proposta final do acordo de livre comércio com o Mercosul, destravando um impasse que já dura quase 30 anos. A iniciativa marca um avanço decisivo nas negociações e acontece em um contexto global de crescente protecionismo, agravado pelas sanções comerciais do presidente Donald Trump a diversos parceiros estratégicos.
Se ratificado, o tratado criará a maior zona de livre comércio do mundo, englobando mais de 700 milhões de consumidores e conectando duas regiões formadas por países democráticos e grandes potências exportadoras. A proposta da Comissão Europeia divide o acordo em duas partes: uma comercial, que precisa de maioria qualificada no Conselho e aprovação do Parlamento Europeu, e outra política, que requer ratificação pelos parlamentos nacionais dos 27 países da União Europeia (UE).
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, celebrou o avanço e destacou os impactos positivos para o bloco: “As empresas da UE e o setor agroalimentar colherão imediatamente os benefícios da redução das tarifas e dos custos, contribuindo para o crescimento econômico e a criação de empregos.”
Do lado do Mercosul, o tratado também precisa ser ratificado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que ocupa a presidência rotativa do bloco até o fim do ano, já declarou que pretende concluir a ratificação até dezembro.
“Seria o acordo mais excepcional já feito neste começo de século e uma resposta ao unilateralismo”, afirmou Lula em junho, durante visita à França. “Queremos mostrar que o multilateralismo vai sobreviver.”
Salvaguardas econômicas e resistência política
Apesar do avanço formal, o texto ainda enfrenta resistências internas relevantes na Europa, especialmente entre agricultores e ambientalistas. França, Itália e Polônia vinham se opondo abertamente ao tratado, alegando que as importações do Mercosul — principalmente de carne, frango e açúcar — causariam concorrência desleal e prejudicariam os padrões sanitários e ambientais europeus.
Para reduzir a oposição, a Comissão Europeia incluiu salvaguardas comerciais e apoios financeiros na nova proposta. Entre as medidas estão:
– Abertura gradual dos mercados,
– Limites de importação para produtos sensíveis,
– Fundo de € 6,3 bilhões para apoiar agricultores afetados,
– E mais de € 300 bilhões em subsídios via nova Política Agrícola Comum (PAC).
Essas concessões foram bem recebidas por alguns governos. O ministro do Comércio francês, Laurent Saint-Martin, afirmou que os ajustes são “um passo na direção certa”. A Itália, por sua vez, declarou apoio às “salvaguardas adicionais para proteger os agricultores europeus”.
A Polônia continua sendo a principal resistência. O país é o maior produtor de frango da UE e teme que a entrada de produtos sul-americanos derrube os preços e prejudique seu setor rural.
“Não desistiremos quando se trata dos interesses dos produtores agrícolas poloneses”, disse o primeiro-ministro Donald Tusk. Ainda assim, Tusk reconheceu que não terá força política para barrar sozinho o acordo.
Divisões no Parlamento Europeu
O Parlamento Europeu, que terá de aprovar a parte comercial do tratado, também apresenta divisões. O Partido Popular Europeu (EPP), principal força de centro-direita, manifestou apoio ao texto. Porém, 40 eurodeputados — incluindo 14 do próprio EPP — divulgaram uma carta se opondo ao acordo, segundo o portal Euractiv.
Em contrapartida, o eurodeputado Bernd Lange (Partido Social-Democrata) elogiou o avanço: “Será um presente de Natal maravilhoso para o mundo. Mostraria que o comércio pode ser baseado em uma estrutura democrática.”
A articulação para aprovar o tratado será delicada, exigindo costura política entre diferentes frentes ideológicas e setores produtivos. O peso da Alemanha, tradicional defensora do acordo, pode ser decisivo. Em maio, o chanceler Friedrich Merz defendeu a ratificação “rápida”, em visita oficial a Paris ao lado de Macron.
Implicações para o Brasil
Para o governo brasileiro, o tratado representa uma oportunidade estratégica de reposicionar o país nas cadeias globais de valor e reduzir a dependência comercial com parceiros tradicionais. A UE é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com intercâmbio de US$ 95 bilhões em 2024, e responde por quase metade do estoque de investimento estrangeiro direto no país.
Além de ampliar o acesso a mercados europeus, o governo brasileiro aposta que o acordo atrairá novos investimentos, aumentará a competitividade da indústria nacional e estimulará a transição verde — uma agenda valorizada tanto no Mercosul quanto na UE.
Brasília, porém, também precisará administrar suas contradições internas. Setores do agronegócio brasileiro, frequentemente alvo de críticas ambientais da UE, terão de adaptar padrões e práticas às exigências europeias, especialmente no que diz respeito ao desmatamento e à rastreabilidade de produtos.
A apresentação do texto final pela Comissão Europeia representa um marco no longo e conturbado processo de negociação entre Mercosul e União Europeia. Mas o caminho até a ratificação completa ainda é incerto. A pressão de agricultores, ambientalistas e governos nacionais com interesses eleitorais pode travar o avanço do tratado.
A janela de oportunidade, contudo, está aberta. Com o apoio de potências como Alemanha e Brasil, e sob a liderança política de Lula, que busca consolidar o tratado como símbolo de sua diplomacia multilateral, o acordo poderá sair do papel. Resta saber se o capital político será suficiente para vencer as resistências históricas dos dois lados do Atlântico.
Empresários pressionam por anistia a Bolsonaro em troca de alívio no tarifaço
Empresários brasileiros em visita aos Estados Unidos ouviram de representantes do governo Donald Trump que o tarifaço de 50% sobre produtos nacionais é uma retaliação política — e que, para derrubá-lo, o lobby deve ser feito em Brasília, e não em Washington. A orientação, relatada pela jornalista Mariana Sanches, do UOL, explicita que o recado da Casa Branca não se refere a comércio, mas a interferência direta nas instituições brasileiras: para que as tarifas caiam, Jair Bolsonaro precisa ser anistiado.
A declaração, feita em reuniões oficiais com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), desmonta a narrativa de governadores e parlamentares bolsonaristas, que têm afirmado tratar-se de uma medida econômica causada por falhas da diplomacia do governo Lula. A realidade, no entanto, é que o próprio deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente e réu por tentativa de golpe de Estado, articula há meses sanções contra o Brasil junto a aliados de Trump — uma estratégia que, agora, começa a cobrar seu preço político e econômico.
“Quando um membro do governo Trump fala para procurar Brasília, está dizendo que a situação vai mudar quando o nosso país estiver de joelhos e atender às necessidades políticas deles”, resume uma fonte diplomática ouvida sob anonimato.
Trocar soberania por exportação
Diante da clareza com que os EUA estabeleceram suas condições — anistia a Bolsonaro e revisão de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre regulação de redes sociais —, setores do empresariado brasileiro passaram a defender abertamente que o Congresso Nacional aprove uma lei de anistia como moeda de troca para aliviar as tarifas. A proposta, que significaria ceder à chantagem estrangeira, tem gerado indignação entre juristas, diplomatas e membros da sociedade civil.
A insatisfação também é interna. Ao menos seis empresários que participaram da missão da CNI a Washington relataram, sob anonimato, “constrangimento” com a presença de Eduardo Bolsonaro e do comentarista político Paulo Figueiredo no mesmo hotel da delegação. Segundo relatos, ambos participam de uma ofensiva coordenada para pressionar os EUA a manterem ou ampliarem as sanções, com o objetivo de forçar a aprovação da anistia no Brasil.
“Não foi ele [Eduardo] quem criou o problema? Agora vai aparecer aqui para vender a solução?”, questionou um representante da indústria paulista.
A própria CNI tentou se distanciar da presença do deputado. O presidente da entidade, Ricardo Alban, afirmou que a missão foi pensada para excluir qualquer viés político. “A visita dos senadores [há algumas semanas] era política, queríamos fazer uma visita empresarial”, disse.
Bolsonaro livre, STF silenciado
Em todas as reuniões com autoridades americanas — no Departamento de Estado, no Departamento de Comércio e no USTR (Representante de Comércio dos EUA) —, a carta enviada por Trump ao presidente Lula foi citada como referência para as sanções. No documento, o ex-presidente dos EUA acusa o Brasil de promover uma “caça às bruxas” contra Bolsonaro e critica decisões do STF sobre as big techs.
“Ficou claro que a dimensão política é a chave para que possamos desenvolver soluções concretas”, disse o embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC e atual consultor da CNI.
Ou seja, enquanto o governo brasileiro se recusa a negociar a independência do Judiciário, os EUA afirmam que essa é a condição mínima para retomar o diálogo comercial. Desde o início da crise, não houve sequer a instalação de uma mesa formal de negociação entre os dois governos. O impasse é institucional: para o governo Trump, o caminho para rever tarifas é a interferência direta no sistema de justiça brasileiro — algo inaceitável em qualquer democracia funcional.
Empresariado flerta com rendição
Com canais diplomáticos bloqueados e pressão econômica crescente, uma parte do empresariado brasileiro parece inclinada a ceder. A proposta de aprovar a anistia como “solução interna” ao tarifaço circula nos bastidores da CNI e em grupos de WhatsApp de grandes representantes do setor produtivo. O gesto, no entanto, equivale a sacrificar o princípio da soberania nacional em troca de vantagens comerciais.
“Só o fato de uma potência estrangeira exigir que não se julgue pessoas por crimes graves já seria motivo para garantir que o julgamento aconteça. Ceder é passar o recibo de que, se pressionar, a gente entrega”, afirma uma fonte do Itamaraty sob reserva.
Além disso, há o risco de que a capitulação estimule novas investidas. “Trump é do tipo que, quando sente cheiro de sangue, morde de novo”, alerta um diplomata brasileiro. Em outras palavras: não há garantias de que a anistia resulte em qualquer reversão de tarifas. Ao contrário, pode gerar precedentes ainda mais perigosos.
Tentativa de apelo econômico fracassa
Sem poder negociar no campo institucional, a CNI buscou oferecer alternativas comerciais que pudessem atrair o interesse dos EUA: exploração conjunta de terras-raras, ampliação da cooperação no setor de etanol e uso de energia limpa brasileira para instalação de data centers de inteligência artificial. Os três setores são estratégicos para os americanos — especialmente os dois primeiros, em meio à rivalidade crescente com a China.
A resposta, no entanto, foi fria. “Eles não pararam para se debruçar sobre o que poderia ser feito com o Brasil”, relatou Azevêdo. A administração Trump, segundo o ex-diretor da OMC, está sobrecarregada com negociações em curso com outros países e não colocou o Brasil entre as prioridades.
“Eles querem que sejamos ousados e propositivos. É um governo que pensa fora da caixinha, então nós também temos que pensar”, disse Alban, em tom cauteloso.
Pressão deve vir de dentro
Com os EUA deixando claro que só mudarão de posição se o Brasil ceder internamente, o próximo movimento está nas mãos do Congresso e dos empresários. Para especialistas, o caminho não é dobrar os joelhos, mas expor o custo da chantagem — e cobrar responsabilidade de quem a causou.
“Que os empresários brasileiros pressionem Jair Bolsonaro e seus aliados, dentro e fora do país, para interromperem a conspiração. E questionem governadores quando afirmarem, em eventos voltados ao capital, que o tarifaço é econômico e não político”, sintetiza uma fonte do setor externo.
Por ora, o que se vê é silêncio. E aplausos tímidos.
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