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Brasil
Enquanto defende desmonte do Estado e austeridade, setor privado apela a socorros bilionários após fraudes
Publicado em 02/04/2025 1:53 - Semana On
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A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra 13 ex-executivos do Grupo Americanas por fraudes de R$ 25 bilhões escancara um dos aspectos mais perversos do capitalismo contemporâneo: a simbiose tóxica entre um mercado que se diz autossuficiente e um Estado que, quando pressionado pelas engrenagens do poder econômico, se vê obrigado a resgatar o insalvável. A mesma ideologia que demoniza o funcionalismo público, a regulação econômica e a proteção social — pilares de qualquer democracia madura — não hesita em acionar o socorro estatal quando o castelo de cartas começa a ruir.
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A peça acusatória do MPF, protocolada na Justiça Federal do Rio de Janeiro, aponta que Miguel Gutierrez, ex-CEO da Americanas e figura central no escândalo, comandou um esquema de fraudes contábeis durante pelo menos seis anos. A manipulação dos balanços, conforme a denúncia, inflou artificialmente o valor das ações da companhia na bolsa de valores, iludindo investidores, lesando credores e maquiando a real saúde financeira de uma das maiores varejistas do país.
O rombo, que veio à tona em janeiro de 2023, provocou a desvalorização de mais de R$ 70 bilhões em ativos da companhia e culminou no maior pedido de recuperação judicial da história do varejo brasileiro. O novo CEO, Sergio Rial, abandonou o cargo em menos de dez dias. No rastro da destruição: 9 mil credores, uma dívida que ultrapassa os R$ 50 bilhões e uma legião de trabalhadores à mercê da instabilidade.
Um capital que exige, mas não assume
A narrativa não é inédita. No Brasil e no mundo, crises provocadas por má gestão, fraude ou especulação são, sistematicamente, socializadas. Bancos e grandes grupos econômicos, que se apresentam como arautos da meritocracia e da eficiência do setor privado, costumam defender, em tempos de bonança, o Estado mínimo. Mas quando o desastre é obra própria, tornam-se os primeiros a pleitear o salvamento com recursos públicos, linhas de crédito subsidiadas ou renegociação de dívidas em condições impensáveis ao pequeno empresário ou ao cidadão comum.
A ironia é gritante. Como já alertava o economista Ha-Joon Chang, professor da Universidade de Cambridge, “a maioria dos países desenvolvidos chegou onde está hoje com políticas que incluem o protecionismo, o subsídio estatal e uma forte regulação dos mercados. Depois que se industrializaram, passaram a pregar o oposto”.
No caso das Americanas, o plano de recuperação homologado em fevereiro de 2024 prevê a injeção de R$ 12 bilhões em recursos próprios por parte dos acionistas de referência — Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — nomes que há décadas figuram na lista dos homens mais ricos do Brasil. Outro tanto, R$ 12 bilhões, virá dos maiores bancos credores, entre eles Bradesco, Itaú, BTG Pactual e Santander — todos eles também contemplados por frequentes benefícios fiscais e políticas públicas de estímulo ao crédito.
É o retrato acabado do que o filósofo Byung-Chul Han chama de “neoliberalismo como religião”: uma crença dogmática na eficiência do mercado, mesmo diante de sua falência prática e ética. Uma fé cega que promove a concentração de renda, o desmonte dos serviços públicos e a precarização do trabalho, mas se esvai na primeira crise.
A farsa da autossuficiência do mercado
A denúncia do MPF traz elementos concretos que desmontam a ficção da “transparência” corporativa: trocas de mensagens por WhatsApp revelam a tentativa dos executivos de mascarar as fraudes diante das auditorias. Três dos envolvidos firmaram acordos de colaboração premiada, detalhando o funcionamento do esquema. A maquiagem contábil incluía, entre outros truques, o lançamento como faturamento de operações de crédito destinadas ao pagamento de fornecedores. Não era contabilidade criativa — era falsificação.
É impossível ignorar o simbolismo: enquanto milhões de brasileiros enfrentam cortes em políticas sociais, universidades sucateadas e filas no SUS, o sistema financeiro e seus aliados corporativos garantem, sem pudor, o acolhimento estatal quando a lógica da especulação implode. Segundo levantamento da consultoria Economatica, desde 2016 — início do período em que as fraudes na Americanas teriam começado — o lucro dos quatro maiores bancos do país ultrapassou R$ 500 bilhões. Uma montanha de capital que, curiosamente, nunca é suficiente para enfrentar os próprios riscos.
Estado mínimo para quem?
“Socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres”, já dizia o economista Joseph Stiglitz, Nobel de Economia de 2001. A frase se aplica com precisão cirúrgica ao caso Americanas. O escândalo evidencia como o Estado é permanentemente interpelado a agir, mas quase sempre em favor dos mesmos: os grandes conglomerados que concentram poder, mídia e influência política.
O debate que se impõe, portanto, é mais profundo. Não se trata apenas de punir indivíduos — o que, sim, é essencial —, mas de questionar a estrutura de um sistema que permite e estimula esse tipo de comportamento. Um capitalismo sem freios, sem regulação e blindado pelo lobby é terreno fértil para fraudes, desigualdades e crises cíclicas que penalizam sempre os mesmos.
A recuperação judicial da Americanas, ainda que evite a falência de uma gigante do varejo, reforça a lógica perversa de um modelo em que o risco é privado, mas o prejuízo é público. Ao final, o custo é sempre repartido entre trabalhadores, pequenos fornecedores e contribuintes — estes, sim, constantemente cobrados a apertar o cinto.