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Brasil
Datafolha revela aumento no número de brasileiros que aceitam uma ditadura ou se mostram indiferentes à forma de governo
Publicado em 18/12/2024 10:29 - Semana On
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O apoio à democracia no Brasil permanece amplamente majoritário, mas registra uma queda expressiva nos últimos dois anos. Segundo pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2024, 69% dos brasileiros afirmam preferir a democracia como a melhor forma de governo. Embora o índice siga elevado, trata-se de uma redução significativa em relação aos 79% observados em outubro de 2022, período de forte mobilização democrática diante das ameaças de ruptura institucional associadas ao governo Jair Bolsonaro.
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A pesquisa, realizada com 2.002 eleitores em 113 municípios, revela também um crescimento no número de brasileiros que aceitam a possibilidade de uma ditadura “em certas circunstâncias”, de 5% para 8%, e um salto de 11% para 17% na fatia que se declara indiferente à forma de governo. Esses números acendem um alerta, especialmente em um país que ainda carrega as marcas do autoritarismo instaurado pelo regime militar entre 1964 e 1985.

O perigo da indiferença: o fantasma da ditadura que não se dissipa
O Brasil viveu, ao longo dos anos, flutuações importantes na forma como a população percebe a relação entre democracia e estabilidade política. O Datafolha aponta que o pico de apoio à ditadura, de 11%, foi registrado em setembro de 1992, em meio à turbulência do impeachment de Fernando Collor de Mello. Na ocasião, a instabilidade institucional reforçou, para parte da sociedade, a associação entre o fracasso de governos eleitos e o próprio sistema democrático.
Esse mesmo movimento pode estar se repetindo hoje. Embora a presidência de Jair Bolsonaro (2019-2022) tenha consolidado níveis altos de apoio à democracia, o discurso autoritário do ex-presidente, sua apologia ao golpe de 1964 e os ataques reiterados ao sistema eleitoral contribuíram para a reemergência de posições ambíguas ou abertamente simpáticas à ditadura.
A socióloga e cientista política Maria Victoria Benevides, que estuda o impacto do autoritarismo nas sociedades latino-americanas, alerta para o risco dessa dinâmica. “O desencanto com a democracia muitas vezes não se manifesta em apoio explícito à ditadura, mas sim na indiferença. Quando parte da sociedade diz que tanto faz a forma de governo, cria-se um terreno fértil para aventuras autoritárias”, pontuou Benevides, em entrevista recente ao jornal Folha de S.Paulo.

Perfil do apoio e as desigualdades na percepção democrática
A análise dos dados por perfil demográfico revela que o apoio à democracia não é uniforme. Homens (74%) apoiam a democracia mais que as mulheres (64%), enquanto a diferença entre níveis de escolaridade é ainda mais expressiva: 87% das pessoas com ensino superior preferem a democracia, contra apenas 56% dos menos escolarizados. A renda também é um fator importante, já que 80% dos que ganham mais de cinco salários mínimos defendem o regime democrático, em comparação com 61% dos que recebem até dois mínimos.
Esse abismo na percepção democrática entre classes e níveis de escolaridade não é novo. Desde as análises de Antonio Gramsci sobre a “hegemonia cultural”, entende-se que a difusão dos valores democráticos requer uma disputa constante no campo das ideias. Para o cientista político Fernando Limongi, professor da USP e pesquisador do Cebrap, “a confiança nas instituições é fortemente mediada pelo acesso à informação e pela capacidade crítica dos cidadãos. Isso ajuda a explicar por que níveis mais altos de escolaridade estão associados a maior apoio à democracia”, afirmou Limongi em debate no Fórum Brasileiro de Democracia.
Outro ponto relevante da pesquisa é que, apesar da polarização política no Brasil, não há diferença estatística significativa no apoio à democracia entre os que se identificam como “petistas” ou “bolsonaristas”. Isso sugere que, ao menos em nível declaratório, o compromisso com o regime democrático se mantém transversal às preferências partidárias — um dado relevante para a estabilidade do sistema.
Há risco de volta à ditadura?
O Datafolha também perguntou se os brasileiros acreditam na possibilidade de retorno da ditadura. Para 52%, esse risco não existe, mas 21% consideram haver uma “pequena possibilidade” e outros 21% enxergam uma “grande possibilidade” de retrocesso autoritário. Essa divisão evidencia uma percepção ainda latente de que a democracia brasileira, embora consolidada formalmente, permanece em teste constante.
O temor não é infundado. O Brasil viveu momentos de forte instabilidade entre a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e a posse de Luiz Inácio Lula da Silva para seu terceiro mandato. Investigações conduzidas pela Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) apontaram indícios de uma tentativa de golpe de Estado, que envolveu articulações para não reconhecer o resultado das urnas e criar uma ruptura institucional.
De acordo com o levantamento, 68% dos brasileiros acreditam que houve risco de golpe durante esse período. Para 43% dos entrevistados, o perigo foi “grande”, enquanto 25% afirmam que não houve qualquer risco de ruptura. Essas percepções refletem a gravidade dos fatos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes radicais invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. A cena foi comparada à invasão do Capitólio, nos EUA, em 6 de janeiro de 2021, mas com uma resposta mais ágil das autoridades brasileiras.
Para o historiador e escritor Lilia Schwarcz, “a experiência brasileira de enfrentamento à tentativa de golpe em 2023 mostrou uma maturidade institucional que talvez os próprios brasileiros não percebam”. Schwarcz argumenta que a presença de um Judiciário mais robusto, com respaldo das Forças Armadas e da sociedade civil, garantiu a preservação das instituições democráticas, mesmo sob ataque.
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O desafio da manutenção da fé democrática
O recuo no apoio à democracia e o crescimento da indiferença revelados pelo Datafolha devem ser analisados à luz do contexto histórico e político. A democracia brasileira, mesmo após a redemocratização de 1985, sempre oscilou entre momentos de maior e menor adesão social. A diferença é que, desta vez, o ataque ao regime veio de dentro, com o então presidente Jair Bolsonaro questionando as urnas eletrônicas e incentivando atos de ruptura.
Embora o apoio à democracia ainda seja majoritário, o aumento da indiferença (de 11% para 17%) e o salto de 5% para 8% nos que aceitam a ditadura indicam que parte da sociedade começa a relativizar o valor do regime democrático. Isso pode ter relação com a desilusão política, o cansaço diante da polarização e as crises econômicas que frequentemente abalam a confiança nas instituições.

Os dados do Datafolha revelam que a democracia brasileira está em uma encruzilhada. Se por um lado, a ampla maioria (69%) ainda a considera o melhor regime, por outro, a presença de uma parcela significativa de indiferentes e a persistência de quem aceita a ditadura sinalizam que o pacto democrático precisa ser reafirmado.
O desafio, como apontou o filósofo francês Claude Lefort, é a permanente “instabilidade criadora” da democracia, que precisa ser constantemente renovada pela participação dos cidadãos. No Brasil, isso requer não apenas reformas institucionais, mas também uma ação mais ativa de escolas, meios de comunicação e lideranças políticas para reduzir a apatia e fortalecer a crença de que a democracia, com todos os seus defeitos, ainda é o regime mais capaz de assegurar liberdade e justiça.
Como destacou Winston Churchill, em seu famoso discurso de 1947, “a democracia é a pior forma de governo, exceto por todas as outras que já foram tentadas”. Esta lição permanece atual. O Brasil pode ter superado tentativas de golpe, mas o Datafolha mostra que a democracia não está garantida por decreto. É uma construção coletiva e cotidiana.
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