Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Brasil
Extrema direita internacional está unida para atacar a democracia em todo o mundo
Publicado em 10/09/2025 10:17 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
“O presidente não tem medo de usar o poder econômico e militar dos Estados Unidos da América para proteger a liberdade de expressão em todo o mundo.” A afirmação partiu de Karoline Leavitt, porta-voz de Donald Trump, na última terça-feira (9), em resposta a uma pergunta sobre possíveis represálias à provável condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Dita em meio ao julgamento da cúpula golpista de 8 de janeiro, a fala reacendeu temores de ingerência estrangeira no processo democrático brasileiro — desta vez, com retórica armada.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A Casa Branca, sob administração trumpista, já havia atacado a soberania nacional com a tarifa de 50% e com a inclusão do ministro Alexandre de Moraes entre os alvos da Lei Magnitsky — legislação americana que sanciona indivíduos considerados violadores de direitos humanos. Embora ambas as medidas sejam juridicamente contestáveis e politicamente questionadas por aliados históricos dos EUA na região, foi a referência explícita ao uso da força que atravessou o limite do aceitável na diplomacia internacional.
Em tom crítico, o ministro do Supremo Flávio Dino reagiu à pressão: “Será que alguém acredita que um cartão de crédito ou o Mickey vai mudar um julgamento do Supremo?”, ironizou. A frase ecoa um sentimento crescente no Judiciário e entre lideranças políticas brasileiras: o de que o governo Trump estaria instrumentalizando sua política externa para pressionar cortes democráticas e proteger aliados ideológicos.
Uma ameaça sem precedentes
Ainda que improvável do ponto de vista prático, a menção ao uso de força militar contra o Brasil não pode ser tratada como simples bravata. Analistas lembram que, em 2020, Trump classificou o então ditador saudita Mohammed bin Salman como “um amigo” e ignorou o assassinato brutal do jornalista Jamal Khashoggi. A retórica de força é parte de sua gramática política, e seus alvos tendem a ser governos democráticos que contrariam seus interesses, não autocracias.
Em julho, Trump já havia insinuado esse caminho. Em carta pública, afirmou estar “protegendo a segurança nacional” diante das “ações imprudentes do governo do Brasil” e prometeu “alcançar a paz por meio da força”. O discurso, que remete à lógica de guerra preventiva, classifica o Brasil como ameaça externa — o que, na doutrina militar americana, pode justificar ações unilaterais.
Para o cientista político Oliver Stuenkel, professor da FGV-SP e especialista em relações internacionais, “a retórica de força por parte dos EUA contra um parceiro democrático e estratégico como o Brasil é inédita e perigosa”. Em artigo publicado na revista Americas Quarterly, Stuenkel alerta que “o trumpismo trata aliados como instrumentos descartáveis, e não como parceiros soberanos”.
A sombra da intervenção e o silêncio que incomoda
A comparação com a “Operação Brother Sam”, em 1964, quando os EUA prepararam uma força-tarefa naval para apoiar o golpe militar no Brasil, é inevitável. A diferença é que agora a defesa da intervenção externa ocorre à luz do dia, por meio de redes sociais e declarações públicas. Deputados bolsonaristas, como Nikolas Ferreira (PL-MG), chegaram a reagir com entusiasmo à ameaça americana. No X (ex-Twitter), publicou dois emojis de olhos arregalados diante da notícia da ameaça militar, numa clara demonstração de torcida por sanções externas ao Judiciário brasileiro.
Segundo o artigo 359-I do Código Penal brasileiro, negociar com governo estrangeiro para provocar atos de guerra contra o país é crime, com pena de até 8 anos de prisão. Já o Código Penal Militar, em seu artigo 142 (o mesmo que os bolsonaristas invocam equivocadamente para justificar intervenção interna), prevê pena de até 30 anos para quem tentar “submeter o território nacional à soberania de país estrangeiro”.
“O Brasil precisa reagir institucionalmente. O Ministério Público deve apurar possíveis condutas criminosas de agentes políticos que flertam com traição à pátria”, defende Eloísa Machado, professora de Direito Constitucional da FGV Direito SP. “A liberdade de expressão não pode ser usada como cortina para encobrir tentativas de impunidade golpista.”
Sem embaixador, sem resposta à altura
Desde o início do novo mandato de Trump, os Estados Unidos não nomearam embaixador no Brasil. A ausência de representação diplomática plena em Brasília agrava o cenário. Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada, é quem ocupa interinamente o posto. Diante da gravidade da declaração de Leavitt, espera-se que o Itamaraty convoque o representante para prestar esclarecimentos formais.
A diplomacia brasileira tem adotado tom moderado, evitando escalar a crise. Mas internamente cresce a pressão por uma resposta firme. A ausência de uma manifestação do presidente Lula até agora alimenta críticas. Espera-se que o chefe de Estado aborde o tema em seu próximo pronunciamento oficial.
Chantagem externa, cumplicidade interna
Por trás da ameaça está a tentativa clara de influenciar decisões judiciais que envolvem Jair Bolsonaro. O julgamento no STF — prestes a condenar o ex-presidente por liderar uma organização criminosa que tentou um golpe de Estado — tornou-se alvo de campanha internacional coordenada. Michael Shellenberger, ativista trumpista travestido de jornalista, questionou abertamente sobre possíveis sanções americanas ao Brasil. A resposta da Casa Branca escancarou o alinhamento entre bolsonarismo e trumpismo.
A situação exige vigilância da sociedade civil e compromisso das instituições com a soberania nacional. “Não se trata apenas de defender o Supremo ou um governo específico. Trata-se de proteger o Brasil de uma nova forma de colonialismo, onde potências estrangeiras tentam ditar as regras da democracia alheia”, afirma a historiadora Lilia Schwarcz, em entrevista à Folha de S.Paulo.
O Brasil como trincheira da democracia
Diante da ameaça de Trump, é preciso lembrar: resistir à intimidação externa é dever constitucional. Proteger a independência dos Poderes não é questão partidária, mas de Estado. O apoio explícito à intervenção de uma potência estrangeira por parte de parlamentares brasileiros não pode ser normalizado. O silêncio do Congresso e de lideranças conservadoras — como Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr., Ronaldo Caiado e Michelle Bolsonaro — revela cumplicidade ou covardia.
Ao tentar pressionar o Judiciário com tarifas, listas negras e, agora, ameaças armadas, Trump transforma a diplomacia em arma de chantagem. A soberania nacional não pode estar à venda — nem sob ameaça. E quem torce por um Brasil ajoelhado diante de Washington precisa lembrar que isso, sim, é crime. E dos mais graves.
Governo brasileiro reage à ameaça
O governo brasileiro reagiu com veemência à ameaça do governo Trump. Em nota conjunta, o Ministério das Relações Exteriores e a Secretaria de Comunicação Social (Secom) condenaram o que chamaram de tentativa de coagir as instituições democráticas brasileiras e afirmaram que os três Poderes “não se intimidarão por qualquer forma de atentado à nossa soberania”.
A declaração da porta-voz Karoline Leavitt, que sugeriu o uso de força militar para interferir em decisões internas de outro Estado soberano, provocou reações duras no Planalto. A fala foi feita durante coletiva na Casa Branca, quando Leavitt afirmou: “O presidente não tem medo de usar o poderio econômico e militar dos EUA para proteger a liberdade de expressão no mundo”. A declaração veio no mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal formou maioria para condenar Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.
Em Manaus, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou o momento de “delicado” e criticou duramente o ex-presidente e seus aliados: “Esses caras tiveram a pachorra de mandar gente para os Estados Unidos para falar mal do Brasil e para condenar o Brasil”, disse Lula.
Itamaraty repudia coação e defende soberania nacional
Na nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores foi categórico: “O governo brasileiro repudia qualquer interferência de outros países na soberania brasileira. O primeiro passo para proteger a liberdade de expressão é justamente defender a democracia e respeitar a vontade popular expressa nas urnas.”
O comunicado também alertou para a tentativa de grupos antidemocráticos brasileiros de instrumentalizar governos estrangeiros em benefício próprio — um recado direto à família Bolsonaro e seus aliados.
Gleisi acusa conspiração
A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, elevou o tom e acusou explicitamente a família Bolsonaro de conspiração contra o país. Em uma publicação nas redes sociais, Gleisi afirmou: “Não bastam as tarifas contra nossas exportações, as sanções ilegais contra ministros do governo, do STF e suas famílias, agora ameaçam invadir o Brasil para livrar Jair Bolsonaro da cadeia. Isso é totalmente inadmissível.”
A ministra também indicou que o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) estaria articulando diretamente com setores trumpistas nos Estados Unidos para ampliar a pressão contra o Judiciário brasileiro.
Militares descartam ameaça, mas mantêm silêncio institucional
Apesar da gravidade da declaração americana, a cúpula das Forças Armadas brasileiras avalia que a ameaça é improvável de ser concretizada. Generais do Exército, ouvidos sob anonimato, afirmaram que “não existe possibilidade” de uso real de força militar contra o Brasil. A ordem, no entanto, é manter o silêncio.
A leitura nos bastidores da Defesa é que a resposta deve vir por canais diplomáticos e civis, e não militares. A tradição de parceria entre as Forças Armadas dos dois países — especialmente em missões conjuntas e programas de intercâmbio — também pesa na avaliação de que a ameaça não será levada adiante.
Ainda assim, os oficiais ouvidos consideram a fala da porta-voz americana “diplomaticamente desastrosa” e “incompatível com os princípios de respeito entre nações soberanas”.
Dupla hipocrisia
A retórica de Karoline Leavitt é contestada não apenas por seu conteúdo, mas também por sua incoerência. O governo Trump mantém alianças estratégicas com regimes autoritários que sistematicamente violam a liberdade de expressão, como a Arábia Saudita — onde o jornalista Jamal Khashoggi foi assassinado e desmembrado dentro de um consulado, sem qualquer condenação contundente por parte de Trump.
Além disso, nos próprios Estados Unidos, o governo vem sendo acusado de interferência política interna: monitoramento de ativistas estudantis, perseguição ideológica em universidades e museus e tentativas de censura de servidores públicos têm sido denunciadas por entidades como a American Civil Liberties Union (ACLU) e pela PEN America, organização internacional de defesa da liberdade de imprensa.
Tentativa de chantagem internacional entra no radar jurídico
A articulação de políticos brasileiros com governos estrangeiros para interferir no funcionamento das instituições nacionais pode configurar crime. Segundo o artigo 359-I do Código Penal, é punível com até 8 anos de prisão “negociar com governo ou grupo estrangeiro com o fim de provocar atos típicos de guerra contra o país”. No Código Penal Militar, o artigo 142 (ironicamente o mais citado por bolsonaristas) prevê pena de 15 a 30 anos para tentativa de submeter o território nacional à soberania estrangeira.
Juristas e parlamentares pedem agora que o Ministério Público Militar investigue a conduta de parlamentares envolvidos. “Não se trata apenas de retórica: é necessário apurar se houve colaboração concreta com agentes estrangeiros para constranger o funcionamento da Justiça brasileira”, afirmou a jurista Eloísa Machado, da FGV-SP, à reportagem.
Soberania não se negocia
A reação institucional brasileira foi firme, mas a crise diplomática expõe uma nova face do bolsonarismo: a defesa explícita da tutela estrangeira sobre decisões internas. Não se trata mais de “opinião” sobre o Supremo ou de “crítica” à Justiça — trata-se de articulação com uma potência estrangeira para livrar aliados de punição judicial, ainda que isso implique ameaçar a integridade territorial do país.
A presença de vozes que relativizam essa ameaça ou a consideram “plausível” — como parlamentares da extrema direita e lideranças religiosas bolsonaristas — evidencia o quanto a democracia brasileira ainda está sob ataque. É preciso firmeza e clareza: a soberania nacional não pode ser moeda de troca nem alvo de chantagem internacional.
Embaixada dos EUA volta a ameaçar Alexandre de Moraes
A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil voltou a subir o tom contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, relator do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Em nova postagem nas redes sociais, publicada nesta semana, a representação diplomática afirma que continuará a adotar “as medidas cabíveis” contra Moraes e outros que, segundo os norte-americanos, estariam “minando liberdades fundamentais”.
“Para o ministro Alexandre de Moraes e os indivíduos cujos abusos de autoridade têm minado essas liberdades fundamentais — continuaremos a tomar as medidas cabíveis”, diz a publicação oficial da embaixada, replicando uma mensagem do subsecretário de Diplomacia Pública do Departamento de Estado, Darren Beattie.
A postagem reacende o embate diplomático iniciado no mês passado, quando a embaixada já havia acusado Moraes de ser “o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores”. Na ocasião, a representação alertou que aliados do ministro no Judiciário e em outras esferas também poderiam ser alvo de sanções por parte do governo Trump.
Em resposta, o Itamaraty convocou o encarregado de negócios da embaixada, Gabriel Escobar, para prestar esclarecimentos. Desde então, não houve recuo público por parte da diplomacia norte-americana, que passou a ecoar, nas redes, o discurso de membros do governo Trump e da ala trumpista do Partido Republicano.
Mensagem faz aceno a bolsonaristas
A nova publicação republica uma mensagem de Darren Beattie feita em 8 de setembro, data da Independência do Brasil. Na ocasião, Beattie associou os festejos cívico-militares à “luta por liberdade e justiça” e usou a comemoração como argumento para justificar o apoio dos EUA a setores contrários ao julgamento de Bolsonaro.
“O Dia da Independência do Brasil foi um lembrete poderoso de nosso compromisso em apoiar o povo brasileiro que busca preservar os valores de liberdade e justiça”, escreveu o subsecretário, cuja postagem foi endossada pela embaixada no Brasil.
O 7 de setembro foi marcado por manifestações em defesa da anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023, que depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Parte desses manifestantes é alvo de ações no Supremo, incluindo o próprio ex-presidente Bolsonaro, acusado de liderar a trama golpista.
Reações nas redes e questionamentos sobre interferência externa
A publicação provocou reações imediatas entre usuários brasileiros nas redes sociais. Enquanto uma minoria agradeceu o posicionamento dos EUA, a maioria classificou a atitude como um gesto indevido de ingerência estrangeira. Uma das mensagens mais compartilhadas questionava se a atuação da embaixada e de Beattie não configuraria “interferência na política interna do Brasil”.
A dúvida chegou ao Grok, assistente de inteligência artificial da empresa X (antigo Twitter), de Elon Musk. O chatbot, ao responder ao questionamento de um usuário, reconheceu o dilema: “Sim, muitos veem as declarações e avaliações dos EUA contra o ministro Alexandre de Moraes como interferência em assuntos internos brasileiros, violando a soberania [brasileira], mas outros argumentam que é uma resposta legítima a supostos abusos de poder que afetam interesses globais de liberdade”, escreveu a IA da plataforma.
Contexto diplomático e risco de escalada
A escalada de tensão entre Brasil e Estados Unidos ocorre em um momento sensível para as instituições brasileiras. O STF está no centro da resposta ao golpe fracassado de 2023 e conduz os julgamentos dos principais responsáveis pela tentativa de ruptura democrática.
Ao mesmo tempo, o governo de Donald Trump tem adotado medidas agressivas contra o Brasil, incluindo a imposição de tarifas comerciais e a inclusão de ministros brasileiros em listas de sanções. O discurso da atual Casa Branca — centrado na retórica de “liberdade de expressão” — tem sido amplamente utilizado como justificativa para pressionar o Judiciário e blindar Bolsonaro de punições.
Nos bastidores, diplomatas brasileiros avaliam que os ataques de Washington a Moraes fazem parte de uma estratégia coordenada com parlamentares bolsonaristas, especialmente o deputado Eduardo Bolsonaro, que mantém interlocução direta com setores trumpistas nos EUA.
Deixe um comentário