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Brasil
Petrobras anuncia que vai parcelar reajuste do querosene de aviação
Publicado em 02/04/2026 9:33 - Semana On
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A escalada do conflito envolvendo Irã e Estados Unidos começa a produzir efeitos concretos no Brasil, especialmente no setor aéreo, já pressionado por custos elevados e recuperação desigual. Na quarta-feira (1º/4), a Petrobras anunciou reajuste de 54,6% no preço do querosene de aviação (QAV). Desde fevereiro, início da crise, o aumento acumulado chega a 64%. Apesar do impacto imediato, a estatal informou que apenas 18% desse reajuste será aplicado em abril, com o restante diluído ao longo de seis meses, a partir de julho, sob a justificativa de garantir o “bom funcionamento do mercado”.
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O movimento ocorre em um contexto já adverso. Antes mesmo do novo reajuste, os preços das passagens aéreas vinham em trajetória de alta. A prévia da inflação de março, medida pelo IPCA-15, registrou avanço de 5,94% nas tarifas, indicando que o setor já repassava pressões anteriores de custos. Com o encarecimento do combustível — principal insumo da aviação —, a tendência é de intensificação desse movimento, ainda que o repasse integral ao consumidor seja considerado improvável no curto prazo.
A origem da alta está diretamente ligada ao cenário geopolítico. O Irã exerce controle sobre o estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde transita cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, segundo a Agência Internacional de Energia. A região conecta o Golfo de Omã ao Golfo Pérsico e funciona como principal rota de exportação para grandes produtores, como Arábia Saudita e Iraque. Com o aumento das tensões, crescem os riscos logísticos e operacionais no transporte do petróleo, o que se reflete na valorização do barril no mercado internacional.
Os números evidenciam essa volatilidade. Antes da intensificação do conflito, o barril do tipo Brent era negociado a US$ 71,32. Em março, ultrapassou US$ 115 e, mesmo após oscilações, permanecia próximo de US$ 99 — cerca de 40% acima do patamar pré-crise. Novos pronunciamentos políticos voltaram a pressionar os preços, reforçando a instabilidade. Como derivado direto do petróleo, o QAV acompanha essa dinâmica, replicando aumentos já observados em outros conflitos recentes, como a guerra na Ucrânia.
No caso brasileiro, a sensibilidade a essas variações é ampliada por fatores internos. A política de Paridade de Preço de Importação (PPI) faz com que o valor dos combustíveis seja atrelado ao mercado internacional, independentemente dos custos domésticos de produção. Na prática, a Petrobras calcula os preços considerando a cotação do petróleo, a variação cambial e custos logísticos hipotéticos, como frete marítimo e taxas portuárias — ainda que cerca de 90% do QAV consumido no país seja produzido internamente.
Essa estrutura tem impacto direto sobre as companhias aéreas. Em condições normais, o combustível já representa cerca de 40% dos custos operacionais no Brasil, acima da média global de 27%. Após o reajuste recente, essa participação subiu para 45%, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). A situação é agravada por mudanças operacionais decorrentes da guerra: rotas mais longas, adotadas por questões de segurança, aumentam o tempo de voo e o consumo de combustível, elevando ainda mais os custos.
Diante desse cenário, cresce a dúvida entre consumidores sobre o momento ideal para comprar passagens. Especialistas apontam que, embora o repasse total dos custos seja improvável, há espaço para novos aumentos. Em uma simulação com o Airbus A380 — maior avião comercial do mundo —, o custo adicional poderia chegar a R$ 1,8 mil por passageiro, considerando ocupação média de 80%.
A recomendação predominante é antecipar a compra, especialmente para viagens ao longo do ano. Diferentemente do câmbio, que permite diluição de risco por meio de compras graduais, o setor aéreo tende a repassar custos de forma abrupta. Além disso, há o risco de redução na oferta de voos, o que, combinado à demanda estável, pode pressionar ainda mais os preços, seguindo a lógica clássica de oferta e demanda.
Outro ponto de atenção para os viajantes é o seguro-viagem, frequentemente oferecido por operadoras de cartão de crédito. Em um ambiente de maior instabilidade, esse recurso ganha relevância ao cobrir desde emergências médicas até cancelamentos.
Para além do impacto imediato, a crise reforça uma lição recorrente em cenários geopolíticos: conflitos armados têm efeitos econômicos difusos e duradouros. Nesse contexto, especialistas sugerem estratégias de proteção financeira mais amplas, como a diversificação de ativos e até a exposição a diferentes mercados internacionais — uma tentativa de mitigar riscos que, como se vê, podem atravessar fronteiras com rapidez e atingir diretamente o bolso do consumidor.
Petrobras anuncia que vai parcelar reajuste
A Petrobras divulgou que vai parcelar o reajuste anunciado para o querosene de aviação. Distribuidoras que atendem à aviação comercial poderão optar por pagar apenas 18% de aumento e parcelar a diferença em até seis vezes, a partir de julho.
Na prática, isso significa que distribuidoras que vendem para companhias aéreas podem comprar o QAV com 18% de entrada e ainda terão três meses até pagar a primeira das seis prestações. O combustível representa quase um terço dos custos das companhias aéreas, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A Petrobras informou que, até a próxima segunda-feira (6), disponibilizará ao mercado um termo de adesão ao parcelamento, com validade retroativa a 1º de abril.
De acordo com a companhia, a medida visa preservar a demanda pelo produto e mitigar os efeitos do reajuste no setor de aviação brasileiro, “assegurando o bom funcionamento do mercado”.
“Esse instrumento contribui com a saúde financeira dos clientes da companhia ao mesmo tempo em que preserva neutralidade financeira para a Petrobras, considerando o cenário de forte elevação das cotações internacionais dos derivados de petróleo, intensificado por tensões geopolíticas recentes no Oriente Médio”, justificou a estatal em comunicado.
A companhia adiantou ainda que o mecanismo de parcelamento poderá continuar a ser ofertado em maio e em junho, com parâmetros ainda a serem calculados.
“A Petrobras segue comprometida com uma atuação responsável, equilibrada e transparente, sem repassar volatilidade de curto prazo aos preços nacionais”, assinala a empresa.
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