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Brasil
Puxada pela energia, inflação aumenta e afeta custo de vida do brasileiro
Publicado em 12/03/2025 10:49 - Semana On
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O Brasil atravessa um período de alta inflacionária que afeta, de forma direta e brutal, o cotidiano da população. Em fevereiro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou um avanço de 1,31%, o maior para o mês desde 2003. No acumulado de 12 meses, a inflação superou a marca de 5,06%, acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central. Se por um lado o crescimento do PIB e a redução do desemprego mostram um país que ainda avança, por outro, a escalada no custo de vida deteriora a popularidade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e pode ter consequências diretas na próxima eleição presidencial, em 2026.
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A inflação sempre foi um tema sensível na política brasileira. Os sucessivos choques inflacionários ao longo das décadas de 1980 e 1990 foram determinantes para o colapso de governos e para a ascensão de novos líderes. O Plano Real, lançado em 1994, garantiu a estabilidade monetária necessária para que Fernando Henrique Cardoso conquistasse duas eleições consecutivas. Da mesma forma, a crise inflacionária de 2015-2016 contribuiu para o desgaste de Dilma Rousseff e culminou no seu impeachment. Agora, a alta dos alimentos e da energia elétrica coloca o governo Lula sob pressão, evidenciando que, no Brasil, a economia e a política sempre caminham lado a lado.
A inflação dos alimentos e seus impactos desiguais
Entre os principais fatores que pressionam o IPCA, destaca-se a alta nos alimentos. O café da manhã do brasileiro ficou mais caro: os ovos subiram 15,39%, o mamão 11,7%, o café 10,77% e até o pão francês teve um aumento de 0,82%. A alimentação dentro de casa teve uma alta média de 0,79% em fevereiro, mantendo uma sequência de aumentos mensais.
O peso desse fenômeno não se distribui de forma homogênea. No Brasil, os mais pobres gastam uma parcela muito maior de sua renda com alimentação. De acordo com o IBGE, famílias que recebem até dois salários mínimos comprometem mais de 25% do seu orçamento com comida, enquanto nas classes mais altas esse percentual não chega a 10%. Isso significa que, quando o preço dos alimentos sobe acima da inflação geral, o impacto na população de baixa renda é desproporcionalmente maior.
A justificativa para esses aumentos envolve múltiplos fatores. Eventos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, reduziram a produção agrícola e encareceram diversos produtos. Além disso, a demanda internacional por commodities como café, milho e carne faz com que produtores prefiram exportar seus produtos, limitando a oferta para o mercado interno e elevando os preços. Como se não bastasse, o câmbio desfavorável e o aumento dos custos logísticos — impulsionados pelo preço do diesel — pressionam ainda mais a inflação dos alimentos.
O impacto desses aumentos vai além do bolso do consumidor. Ele afeta diretamente a nutrição e a segurança alimentar da população. Com a alta dos preços, muitas famílias recorrem a alternativas menos saudáveis, substituindo proteínas nobres por alimentos ultraprocessados, ricos em sódio, açúcares e gorduras. O resultado é o aumento de doenças como obesidade e hipertensão, reforçando um ciclo de desigualdade que compromete a qualidade de vida das camadas mais vulneráveis da sociedade.
Energia elétrica e combustíveis: os outros vilões da inflação
Além da alimentação, a alta da energia elétrica foi um dos principais motores da inflação de fevereiro. As tarifas residenciais subiram 16,8%, anulando o efeito do bônus concedido pela hidrelétrica de Itaipu em janeiro. Esse aumento tem impacto em toda a cadeia produtiva, elevando os custos industriais e contribuindo para a persistência inflacionária.
Os combustíveis também seguem como um fator preocupante. Em fevereiro, o diesel aumentou 4,35%, o etanol 3,62% e a gasolina 2,78%, refletindo os reajustes no ICMS e a valorização do dólar. Como o Brasil depende do transporte rodoviário para escoar sua produção, o encarecimento do diesel tem efeito cascata sobre os preços dos alimentos e de outros bens essenciais.
Essa conjuntura pressiona o Banco Central a adotar uma postura mais rígida em relação à política monetária. Atualmente, o BC projeta que a inflação permanecerá acima de 4,5% até pelo menos junho, o que reduz a margem para cortes agressivos na taxa Selic. O dilema para o governo Lula é claro: reduzir os juros para estimular o crescimento pode gerar mais inflação, enquanto manter a Selic elevada freia a economia e limita a geração de empregos.
A resposta do governo
Diante da crescente insatisfação popular com o custo de vida, o presidente Lula tem sinalizado a possibilidade de adotar “medidas drásticas” para conter a alta dos alimentos. O governo já anunciou a isenção do imposto de importação sobre nove produtos essenciais, incluindo café, azeite, açúcar, milho, óleo de girassol, sardinha, biscoitos, macarrão e carnes. No entanto, especialistas alertam que essa política pode ter impacto limitado, uma vez que a cadeia de preços dos alimentos é influenciada por múltiplos fatores além da tributação.
Outras medidas vêm sendo debatidas, como o fortalecimento dos estoques reguladores e o incentivo à produção agrícola em diferentes regiões do país. Pequenos produtores rurais desempenham um papel fundamental na oferta de alimentos frescos para o mercado interno, mas enfrentam dificuldades para acessar crédito e infraestrutura. Investir nesse setor pode ser uma saída sustentável para garantir preços mais baixos no longo prazo.
No entanto, há desafios estruturais que vão além das medidas emergenciais. A crise climática, por exemplo, tem um impacto cada vez maior na produção de alimentos, exigindo políticas agrícolas adaptativas. O governo precisará considerar incentivos para práticas mais resilientes, como sistemas de irrigação eficientes e variedades agrícolas mais resistentes ao calor extremo. Além disso, a questão cambial permanece como um fator determinante para os preços dos alimentos e dos combustíveis, reforçando a necessidade de uma política econômica coordenada.
O impacto eleitoral
A história política brasileira mostra que a inflação é um dos fatores mais determinantes para o humor do eleitorado. Se os preços dos alimentos continuarem subindo nos próximos anos, a eleição de 2026 pode ser fortemente influenciada pelo custo de vida. A oposição, que já se movimenta para explorar esse tema, pode encontrar na insatisfação popular um trunfo eleitoral poderoso.
Além disso, a questão alimentar pode ter impacto direto na situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que enfrenta processos judiciais que podem levá-lo à condenação e à inelegibilidade. Se a economia estiver em crise, a pressão por uma alternativa ao atual governo crescerá, o que pode fortalecer setores que defendem sua anistia ou até mesmo uma mudança no cenário político.
Como afirmou Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, “a economia não garante eleições, mas pode destruí-las”. Lula e sua equipe sabem que não basta controlar a inflação geral: é preciso reduzir o custo dos alimentos. No Brasil, a política passa pela picanha, pelo arroz e pelo feijão. E, mais do que nunca, pelo café da manhã.
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