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Brasil

A tempestade no prato: por que a comida ficou mais cara no Brasil

El Niño, dólar, desequilíbrios fiscais e hábitos de consumo afetam o preço dos alimentos

Publicado em 26/03/2025 9:46 - Semana On

Divulgação Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

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O preço do alimento no Brasil subiu à mesa da população como um novo indicador de crise estrutural. Enquanto a inflação oficial dos alimentos e bebidas alcançou 7% no acumulado de 12 meses até fevereiro de 2025, segundo o IBGE, o país assiste ao encarecimento de itens básicos – como café, ovos e carne – em meio a uma combinação inédita de eventos climáticos extremos, instabilidade cambial e falhas estruturais na política fiscal. Mais do que um fenômeno conjuntural, o que se desenha é um alerta sobre a segurança alimentar nacional e a vulnerabilidade dos brasileiros – sobretudo os mais pobres – a fatores globais e domésticos que se entrelaçam e se potencializam.

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Entre os fatores que ajudam a entender essa escalada de preços, está a valorização expressiva do dólar frente ao real. De acordo com dados do IPEA, a moeda americana saiu de R$ 4,91 no início de 2024 para R$ 6,10 no fim do ano – uma alta de 24%. Esse salto teve origem na reação negativa do mercado ao plano de ajuste fiscal do governo federal, que previa economizar R$ 70 bilhões até 2026, mas gerou desconfiança sobre a capacidade do Estado de controlar a dívida pública.

“O preço doméstico dos alimentos está ligado ao preço internacional, determinado em dólar”, explicou o economista Samuel Pessoa, da Julius Baer Family Office, à DW Brasil. Com a desvalorização do real, produtos importados ou exportáveis ficam mais caros internamente. Itens como o óleo de soja (alta de 23,3%), o azeite de oliva (14%) e cortes bovinos foram fortemente impactados.

Essa dinâmica expõe um paradoxo recorrente na economia brasileira: quanto mais o país depende da exportação de commodities agrícolas, mais o consumo interno sofre quando o mercado externo se mostra aquecido. Como sintetiza o economista André Braz, da Fundação Getúlio Vargas (FGV): “Com câmbio valorizado, é como se o Brasil estivesse em promoção. Todo mundo quer vir aqui comprar da gente. Isso, claro, desabastece o nosso mercado interno”.

O peso do clima: El Niño e a força invisível que esmaga colheitas

Se o dólar atua como força econômica visível, o clima opera como uma variável difusa, mas devastadora. Em 2024, os impactos do fenômeno El Niño foram mais intensos que em anos anteriores, segundo a consultoria LCA, responsável por calcular que 2,25 pontos percentuais da inflação dos alimentos em domicílio (8,22%) decorreram exclusivamente de eventos climáticos.

O El Niño, que aquece o Pacífico e altera os padrões de chuva no planeta, provocou secas severas no Norte e Nordeste e chuvas excessivas no Sul do país. O resultado foi a perda de safras inteiras, especialmente de frutas e hortaliças. Itens como a tangerina (alta de 59%), abobrinha (28,7%) e limão (25,3%) se tornaram símbolos de uma agricultura vulnerável.

“Até o fim do século passado, a gente quase não falava de El Niño. Agora, é recorrente. O aquecimento global tornou esses fenômenos mais frequentes e intensos”, alerta Braz. De fato, estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) mostrou que mais da metade do território brasileiro (55%) foi afetado por estiagem em 2024.

Do agro ao prato: os efeitos sociais de uma inflação concentrada

O impacto da inflação de alimentos recai de maneira desigual sobre a sociedade. Como apontado por reportagem da DW, famílias de baixa renda têm recorrido a cortes alternativos e menos nobres de proteína – como carcaças de frango (R$ 7/kg) e suã de porco (R$ 10/kg). A substituição do ovo pela carne vermelha tornou-se insustentável: os ovos subiram 10,5% em um ano; a carne, 22%.

Essa mudança no padrão de consumo atinge também camadas médias, que passaram a trocar marcas de sucos, iogurtes e outros produtos industrializados. Ainda que a renda média do brasileiro tenha subido 4,3% em 2024, chegando a R$ 3,3 mil, segundo o IPEA, o avanço não foi suficiente para conter a corrosão inflacionária da alimentação, que compromete uma parcela crescente do orçamento familiar.

A pesquisadora Franciele Cardoso, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), aponta que o impacto do clima na agricultura afeta diretamente a segurança alimentar. “Tanto o calor quanto a chuva em excesso reduzem a frutificação e causam amadurecimento acelerado. Isso pode levar à perda de safra e gerar desperdício.”

Estrutura de risco: o elo frágil entre política fiscal e segurança alimentar

No pano de fundo dessa crise está uma estrutura econômica que, embora exportadora e produtora agrícola, é incapaz de proteger seu próprio mercado interno de choques. A política fiscal fragilizada, a instabilidade do câmbio e a ausência de um sistema de estoques reguladores tornam o país refém da volatilidade internacional.

Como lembra Pessoa, o endividamento público – hoje em torno de 75% do PIB – compromete a credibilidade da política econômica. E, sem credibilidade, o real se desvaloriza, os preços sobem e os alimentos tornam-se, paradoxalmente, um bem de luxo para parte da população.

A tentativa do governo de conter essa alta por meio da redução de impostos sobre produtos como carne, milho e açúcar pode gerar alívio momentâneo, mas não resolve a raiz do problema. Como afirmou o vice-presidente Geraldo Alckmin durante evento do Valor Econômico, a esperança está agora na recuperação da safra: o IBGE projeta crescimento de 10,6% para 2025, puxado pela soja e o arroz.

O que está em jogo

O encarecimento dos alimentos não é apenas um fenômeno de mercado. É um marcador de desigualdade, de vulnerabilidade climática e de desequilíbrios estruturais. Como escreveu o sociólogo Zygmunt Bauman, “em tempos líquidos, a insegurança é a única certeza”. E, quando essa insegurança atinge o prato, revela muito mais do que índices econômicos: revela a fragilidade de um projeto de país.

Neste cenário, o combate à fome – que voltou ao centro do debate político com a pandemia – exige mais do que ações pontuais. Requer políticas públicas robustas, previsibilidade fiscal, adaptação climática e uma nova compreensão sobre o direito à alimentação como dimensão essencial da cidadania.

O PARADOXO


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