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Brasil
Mato Grosso do Sul está entre os 10 estados que menos desperdiçam: ainda assim, 38,58% vão para o ralo
Publicado em 02/12/2025 10:35 - Semana On
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O Brasil desperdiça diariamente o equivalente a 6.346 piscinas olímpicas de água tratada antes que ela chegue às torneiras. O cálculo faz parte do Estudo de Perdas de Água 2025, divulgado pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a GO Associados.
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O levantamento usa dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA, base 2023) e mostra que o país perdeu 5,8 bilhões de metros cúbicos de água tratada em um ano, volume suficiente para abastecer cerca de 50 milhões de pessoas.
As perdas totais representam 40,31% da água produzida, porcentagem acima da meta de 25% definida pela Portaria 490/2021, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.
As regiões Norte (49,78%) e Nordeste (46,25%) registram os piores índices. Estados como Alagoas (69,86%), Roraima (62,51%) e Acre (62,25%) desperdiçam mais da metade da água distribuída. Já Goiás (25,68%), Distrito Federal (31,46%) e São Paulo (32,66%) têm os melhores indicadores.
É considerada perda de água aquela que ocorre por causa de vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados. Segundo o estudo, somente as perdas físicas — sobretudo vazamentos — ultrapassam 3 bilhões de metros cúbicos por ano. Esse volume seria capaz de garantir água às 17,2 milhões de pessoas que vivem em comunidades vulneráveis por quase dois anos.
As perdas também geram custos adicionais para o sistema, segundo o estudo: maior gasto com químicos, energia, manutenção, uso excessivo de infraestrutura e captação desnecessária em mananciais já pressionados pelas mudanças climáticas.
O impacto ambiental é direto. A necessidade de captar mais água do que a demanda real aumenta a pressão sobre rios, reduz a disponibilidade hídrica e amplia os custos de mitigação. Em um país que já enfrenta secas prolongadas, calor extremo e alteração no regime de chuvas, a tendência é de agravamento. O estudo lembra que cerca de 34 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada.
“Ainda vemos um progresso tímido nos índices de redução de perdas de água, enquanto milhões de brasileiros continuam sem acesso regular e de qualidade à água potável, fundamental para uma vida digna. Perdemos diariamente mais de 6,3 mil piscinas de água potável, um exemplo alarmante de ineficiência”, diz Luana Pretto, presidente-executiva do Trata Brasil.
“Eventos como secas intensas, alterações nas chuvas e calor extremo têm agravado a escassez hídrica, afetando nossos rios e desafiando a capacidade do país em garantir o fornecimento de água para todos. Investir na redução de perdas e na modernização da infraestrutura não é apenas necessário, mas urgente”, complementa.
As discrepâncias regionais mostram que os piores indicadores estão nos locais com menor capacidade de investimento e maior vulnerabilidade institucional. Para os autores, reduzir perdas é também uma estratégia de adaptação climática, essencial no cenário discutido durante a 30ª Conferência das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas (COP30).
Segundo o estudo, se o Brasil reduzisse o índice atual para os 25% previstos pela regulação, economizaria 1,9 bilhão de m³ de água — volume equivalente ao consumo de 31 milhões de pessoas em um ano. O ganho econômico estimado é de R$ 17 bilhões até 2033, valor que aumentaria a resiliência dos municípios e ampliaria a oferta de água em meio ao avanço das mudanças climáticas.
Os motivo do desperdício variam. Vazamentos, fraudes, falhas de medição, etc. De acordo com o estudo do ITB, as perdas atuais das concessionárias de água são de 40,31%. O considerável “aceitável”, seria de 25%, ou seja, um quarto de tudo que se produz, ainda assustador. A redução da marca atual para a meta de 25% representaria uma economia coletiva de R$ 34,6 bilhões até 2033, graças à redução de custos operacionais e de obras emergenciais. Para se ter uma ideia, com esse valor seria possível construir 19 novas Unidades Básicas de Saúde no país.
O Brasil é frequentemente apontado por sua disponibilidade de água no cenário mundial, mas no que diz respeito à gestão hídrica, considerando as perdas da operação, o país ocupa a 86ª posição entre 139 nações, abaixo de quatro vizinhos sul-americanos: Equador, Bolívia, Chile e Argentina. O levantamento do ITB ajuda a lançar luz sobre a gravidade silenciosa enfrentada. Em Alagoas, estado com o maior volume de perdas no país, de cada 10 litros de água captada, tratada e distribuída, sete vão para o ralo. Na ponta oposta está Goiás, única unidade federativa na casa dos 25% de perdas.
Os dados, comparando o retrato do saneamento básico no país entre 2019 e 2023, mostra que a região Sudeste, maior centro econômico nacional, vem na contramão da evolução, aumentando suas perdas em 2,5 pontos percentuais. Em outras palavras, mesmo onde há mais investimentos e tecnologia, a situação tem piorado.
A Portaria 490/2021, do Ministério do Desenvolvimento Regional, define como meta para os municípios atingirem marcas de perdas operacionais inferiores a 25% até 2034. Essa seria uma condição para acesso a recursos federais. A dificuldade de que esse objetivo seja cumprido esbarra na prática: atualmente apenas 13 das 100 maiores cidades do país seriam consideradas aptas se a regra já estivesse valendo hoje – ao todo, são 5.570 municípios.

Perdas e mais perdas: mas por que tanta água vai pro ralo?
Segundo especialistas ouvidos pela Agência Pública, esse cenário é consequência de baixo investimento, ineficiência técnica e um modelo econômico que continua a priorizar o volume vendido, em vez da eficiência no uso da água.
O coordenador do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas) Amauri Pollachi avalia que o desperdício é resultado de uma falta de prioridade estrutural no combate às perdas, abandonado em nome da redução de custos e da maximização do lucro: “Se você reduz investimentos, atuação, atenção, a disponibilidade de gente capacitada, as perdas acabam crescendo. A rede envelhece, a pressão aumenta, o desgaste aumenta — e o desperdício só piora”.
Para o ecologista e presidente do Instituto Internacional de Ecologia (IIE), José Galizia Tundisi, o problema é essencialmente técnico, mas sua persistência revela também falhas de gestão e lentidão política. “Precisa ter a vontade política do setor público de resolver o problema das perdas e juntar o investimento que tem que ser feito para poder resolver tecnicamente o problema”, afirma Tundisi.
“[O cenário] esbarra na lentidão e na falta de acesso à tecnologia. Um município de 50 mil habitantes, no interior, não tem técnicos competentes para fazer o trabalho. Nem curso técnico de tratamento de água [às vezes] existe”, avalia, antes de apontar como o problema passa à margem da percepção coletiva. “A verdade incômoda é que nós perdemos água e não percebemos essa perda. A população não percebe essa perda e os políticos não percebem a necessidade de uma legislação mais consistente para resolver esse problema”, complementa.
A presidente executiva do ITB, Luana Pretto, explica que para que o país avance para reduzir as perdas para níveis abaixo dos 25% seria necessário realizar a modelagem hidráulica dos sistemas de distribuição para compreender seu funcionamento, setorizar a rede – “para que a identificação dos vazamentos ocultos seja mais assertiva” – e, enfim, adotar controles de vazão e pressão. Em outras palavras, modernizar estrutura e gestão de um país com proporções continentais em que ainda não falta água. Ainda.
Para o coordenador do Ondas Amauri Pollachi, o problema vem das medidas de contenção adotadas no país, que, em geral, têm caráter mais paliativo do que preventivo: “O que se faz no Brasil é atuar por espasmos. Faz-se um investimento, se consegue um resultado positivo e depois se abandona. É como fazer uma grande reforma na sua casa e nunca fazer manutenção”.
Cidades brasileiras correm risco de desabastecimento de água até 2050
Diante das mudanças climáticas e da ineficiência na distribuição de água, o Brasil pode sofrer com o desabastecimento até 2050, de acordo com projeção do Instituto Trata Brasil até 2050.
Na média das cidades brasileiras, haveria restrição de 3,4% na disponibilidade de água ao longo do ano, o que representaria 12 dias de racionamento anualmente. Em partes mais secas do Nordeste e do Centro-Oeste, a restrição poderia passar dos 30 dias.
O estudo Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas foi divulgado pelo Trata Brasil, em parceria com a consultoria Ex Ante. O objetivo foi projetar cenários de demanda de água nas moradias brasileiras em 2050, apontando as principais variáveis que influenciam as diferentes tendências de crescimento do consumo.
Considerando um crescimento de Produto Interno Bruto (PIB) de 2,7% ao ano e o atual índice de perdas, a demanda por água até 2050 exigiria um aumento de 59,3% em relação à produção de água tratada em 2023. O levantamento mostra ainda que a alta dessa demanda é impulsionada também pelo aumento de temperatura.
A temperatura máxima deverá aumentar aproximadamente 1º Celsius em comparação aos níveis observados em 2023, enquanto a temperatura mínima terá um acréscimo estimado de 0,47º Celsius. Outras tendências incluem a redução no número de dias chuvosos e a ocorrência de precipitações mais fortes.
Regiões áridas
Aumento de temperatura combinado com menos dias de chuva tendem, segundo o estudo, a intensificar a aridez de diversas regiões, ampliando o semiárido brasileiro e trazendo o risco de desertificação em novas áreas.
De acordo com o Trata Brasil, o estudo indica que são muitos os desafios para o pleno abastecimento de água até 2050. Para Luana Pretto, presidente executiva do instituto, o caminho para que haja água para todos passa pela priorização do tema e pelo aumento do investimento a partir de agora.
“Os dados apresentados reforçam a tendência de aumento no consumo de água, vindos com a maior oferta dos serviços, a expansão demográfica e o crescimento da economia. As tendências climáticas indicam restrição de oferta de água de 3,4% na média do ano por escassez de recursos hídricos em nossos mananciais”, disse, em nota.
Esses dois fatores combinados, segundo a especialista, trazem a urgência para que o país adote medidas imediatas e efetivas para reduzir as perdas no sistema de distribuição de água e planeje, de forma sustentável, a gestão e uso dos recursos hídricos.
“Onde já enfrentamos escassez, como em partes do Nordeste e Centro-Oeste, a falta de água pode se prolongar por mais de 30 dias, o que traz impactos severos na saúde e na qualidade de vida das pessoas. É fundamental agir agora para promover eficiência, e preparar o país para enfrentar os desafios que as mudanças climáticas trarão nos próximos anos”, acrescentou.
Mais de 2 bilhões de pessoas vivem sem acesso seguro à água potável, alerta ONU
Um quarto da população mundial ainda não tem acesso à água potável de forma segura. O alerta foi feito por agências das Nações Unidas, que demonstraram preocupação com a lentidão no avanço rumo à meta de cobertura universal até 2030.
Segundo relatório conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 2 bilhões de pessoas permanecem sem acesso a serviços adequados de abastecimento de água. Destas, cerca de 106 milhões ainda dependem de fontes de água de superfície, como rios, lagos e canais — um tipo de recurso vulnerável à contaminação.
Embora o número de pessoas que utilizam água de superfície tenha diminuído em 61 milhões na última década, o progresso é insuficiente. Em 2024, apenas 89 países possuíam serviços básicos de abastecimento, sendo que apenas 31 alcançaram a cobertura universal com sistemas geridos de forma segura. Já os países onde uma em cada quatro pessoas carece de serviços básicos estão majoritariamente concentrados no continente africano.
De acordo com os critérios da ONU, o serviço de abastecimento de água é considerado “gerido com segurança” quando é fornecido no local de uso, disponível quando necessário e livre de contaminação fecal ou química. Abaixo desse padrão, estão os níveis “básico” (acesso em até 30 minutos), “limitado” (com espera maior), “não tratado” (como poços desprotegidos) e “superficial”.
A precariedade no acesso à água também compromete o saneamento e a higiene. O relatório aponta que, desde 2015, 1,2 bilhão de pessoas passaram a contar com serviços de saneamento geridos com segurança — o que representa um avanço de 48% para 58% da cobertura global. Esses serviços incluem instalações privadas adequadas, com destinação segura dos resíduos.
No mesmo período, o número de pessoas que praticam a defecação a céu aberto caiu de 429 milhões para 354 milhões. Já o acesso a instalações básicas de higiene — como locais para lavar as mãos com água e sabão — passou de 66% para 80% da população mundial.
As consequências da falta de acesso à água potável e saneamento adequado são graves, especialmente para crianças. “Quando as crianças não têm acesso à água potável, saneamento e higiene, sua saúde, educação e futuro ficam comprometidos”, afirmou Cecilia Scharp, diretora do programa Wash, do Unicef. Ela destacou ainda o impacto desproporcional sobre meninas e adolescentes, que enfrentam maiores dificuldades, especialmente durante o período menstrual.
Rüdiger Krech, diretor de meio ambiente e mudanças climáticas da OMS, foi categórico: “Água, saneamento e higiene não são privilégios. São direitos humanos fundamentais. Precisamos acelerar nossas ações, sobretudo para atender as comunidades mais marginalizadas”.
O relatório da ONU reforça a urgência de medidas concretas para garantir o direito à água e ao saneamento para todos — um compromisso previsto na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que, segundo as próprias agências, está cada vez mais distante de ser cumprido.
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