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Brasil
Patriotas de chapéu de alumínio marcharão enrolados a bandeia dos EUA
Publicado em 06/09/2025 11:53 - Semana On
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Neste 7 de Setembro, o Brasil celebrará sua independência sob uma tensão simbólica. De um lado, a extrema direita e a direita domesticada prometem atos em defesa de Jair Bolsonaro, enrolados em bandeiras nacionais e, ironicamente, também em bandeiras dos Estados Unidos — país cujo presidente, Donald Trump, ameaça os brasileiros com sanções diplomáticas e tarifárias. Do outro, o governo Lula conduz as celebrações oficiais com verde, amarelo e bonés azuis “O Brasil é dos Brasileiros”, ressignificando, sem confronto direto, os símbolos sequestrados pela extrema direita desde 2015. A disputa vai além da estética: trata-se da soberania nacional, da memória democrática e da luta contra o projeto autoritário que une, hoje, a ultradireita brasileira ao trumpismo internacional.
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Desde os protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, as cores verde e amarelo se tornaram símbolo de uma direita radicalizada. A apropriação estética foi turbinada por Bolsonaro, que consolidou o uso desses símbolos como identificação de apoio pessoal ao seu governo e, mais tarde, ao seu projeto de ruptura institucional. Em 7 de setembro de 2021 e 2022, o amarelo e o verde coloriram manifestações com ameaças explícitas ao STF, pedidos de intervenção militar e, posteriormente, à tentativa de golpe de Estado que culminou na invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.
É nesse contexto que o governo Lula tenta recuperar o sentido nacional dos símbolos. Todo governo autoritário tenta sequestrar símbolos nacionais quando chega ao poder para confundir o apoio à nação com o apoio a si próprio, evocando o desafio de desbolsonarizar o imaginário patriótico.
Mas foi um gesto vindo de fora que acabou por catalisar essa disputa simbólica.
Trump e o “presente” à esquerda brasileira
Na tentativa de proteger Jair Bolsonaro das consequências legais de seus atos golpistas, Donald Trump acabou entregando uma arma política ao governo brasileiro. Ao impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros e ameaçar restringir vistos diplomáticos para autoridades brasileiras que participarem da Assembleia Geral da ONU, Trump prestou um desserviço à imagem de seu aliado e acabou por fortalecer a narrativa nacionalista de Lula.
A justificativa de Trump? O Brasil, segundo ele, “mudou radicalmente para a esquerda” e “está fazendo muito, muito mal”. A crítica velada ao STF — especialmente ao ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal 2668, que investiga Bolsonaro por tentativa de golpe — insere-se numa estratégia mais ampla do trumpismo: pressionar governos que contrariam sua agenda ideológica, mesmo à custa da soberania de outros países.
Patriotas de papel-alumínio
O paradoxo não poderia ser mais simbólico: no mesmo momento em que se declaram “patriotas”, bolsonaristas desfilam com bandeiras dos EUA, pedem anistia para golpistas e atacam as instituições brasileiras. O gesto revela um fenômeno descrito por estudiosos como “nacionalismo de conveniência” — quando símbolos pátrios são manipulados para fins de poder pessoal, e não em defesa da soberania ou da coletividade.
Para o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, “a extrema direita não defende a nação, mas um projeto de poder autoritário travestido de nacionalismo. O que ela chama de patriotismo é, muitas vezes, vassalagem ao capital estrangeiro e às potências hegemônicas”.
A tentativa de Eduardo Bolsonaro de internacionalizar o litígio interno e transformar Jair em “preso político” ilustra esse comportamento. Pior: revela o quanto parte do bolsonarismo está disposta a enfraquecer o Brasil em fóruns internacionais se isso servir aos seus objetivos políticos.
O verdadeiro campo de batalha
O Dia da Independência de 2025 será, mais do que nunca, um reflexo da batalha pela memória, pelo símbolo e pela direção que o Brasil pretende seguir. Se o bolsonarismo insiste em celebrar seus atos com roupagem patriótica — embora cada vez mais enrolado em bandeiras norte-americanas e retórica trumpista —, o governo Lula tenta reposicionar o nacionalismo sob a lógica democrática: o Brasil é dos brasileiros, mas todos os brasileiros, não de um líder carismático com aspirações autoritárias.
Na prática, essa disputa simbólica pode influenciar diretamente os rumos eleitorais de 2026. Como destacou a análise da Pauta 1, “o que vai reeleger ou não Lula é, principalmente, o preço do arroz e do feijão”. No entanto, a retomada da narrativa nacionalista, agora com elementos democráticos e populares, pode fazer diferença entre os eleitores não ideológicos — aqueles que ora votam em um lado, ora em outro.
A presença de bonés azuis com os dizeres “O Brasil é dos Brasileiros”, como contraponto ao “Make America Great Again” de Trump e seus aliados brasileiros, tem valor político e simbólico. Trata-se de um esforço de deslocamento semântico e de resgate histórico.
Entre a servidão e a soberania
Se o STF ceder à pressão internacional e suspender a ação penal contra Bolsonaro, a imagem do Judiciário como garantidor da Constituição será abalada. Se o Congresso aprovar uma anistia para os golpistas de 8 de janeiro, estará dizendo ao mundo que há no Brasil uma elite política disposta a se ajoelhar diante de interesses externos para manter um projeto autoritário de pé.
Como já ensinava o filósofo francês Étienne de La Boétie, em seu clássico Discurso da Servidão Voluntária, “os tiranos só se mantêm no poder porque há quem se disponha a servi-los”. A história está repleta de exemplos de elites que, para manter seus privilégios, preferiram trair a pátria a defender a democracia.
Neste 7 de setembro, portanto, o verdadeiro ato patriótico será o de defender as instituições, a soberania e o Estado de Direito. Pois não há nada mais antinacionalista do que pedir intervenção estrangeira contra seu próprio povo.
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