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Artigo da Semana

Cinco argumentos que a internet precisa parar de usar

Publicado em 09/11/2013 12:00 -

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Hoje em dia é impossível navegar pelo Facebook sem tropeçar num barraco. Qualquer que seja o tema, as discussões estão cada vez mais acaloradas, agressivas e – principalmente – improdutivas. Debater opiniões é uma importante forma de exercício da liberdade de expressão. É parte de viver numa sociedade democrática. E assim como dirigir ou beber tequila, debates exigem prática, calma e autocontrole. Eis alguns dos equívocos de argumentação que transformam qualquer bate-papo em arranca-rabo.

1) Você pensa isso? Então você é nazista/petista/racista/flamenguista/etc.

Você pode ser a favor do sistema de cotas sem ser necessariamente um “petralha” e pode apoiar uma política econômica mais liberal sem ser necessariamente “reacionário”. Um argumento não deixa de ser válido porque ele é partilhado por grupos de defesa de outros posicionamentos questionáveis. Atacar a pessoa e não o seu argumento é equivocado e não resolve a questão. Hitler era vegetariano, mas essa informação em nada contribui para a discussão sobre os méritos do vegetarianismo. Também não reduz todo vegetariano à condição de nazista. Mesmo um relógio quebrado acerta duas vezes por dia.

2) Você não concorda comigo? Isso é censura!

A liberdade de expressão é uma garantia constitucional de todos nós. Você pode dizer o que quiser, fazer a piada que quiser, se manifestar do jeito que quiser. É seu discurso, é seu direito. Da mesma forma, as pessoas que discordarem do seu discurso têm o direito constitucional de manifestar sua discordância. Tudo dentro da lei e – quem dera – dos preceitos mínimos de civilidade. Se alguém se ofender ou se sentir prejudicado pelo seu discurso, existem ainda recursos legais para exigir reparação. Mas isso não constitui censura. Sua liberdade de manifestação não anula a liberdade de manifestação que ela fomentar. Réplica não é patrulhamento, é diálogo. Não foi pra isso que você se manifestou? Então.

Qualquer que seja o tema, as discussões estão cada vez mais acaloradas, agressivas e – principalmente – improdutivas.

3) Queria ver se fosse sua mãe/filha/avó/cachorro/etc

Há quem acredite que uma discussão não é válida, a menos que analisada de forma passional, sem embasamento na razão. É um equívoco. Um argumento deve ser válido, independente do grau de parentesco dos debatedores com os objetos da discussão. Senão precisaremos de duas constituições, dois códigos penais, dois códigos civis… Um para parentes e outro para desconhecidos. Igualzinho aos cargos públicos.

4) Só podia ser no Brasil!

Quase 90% dos comentários em sites de notícias transita sobre esse preceito: Isso só acontece porque é no Brasil. Se fosse na Europa/EUA/Iraque não seria assim. Esse argumento parece pressupor que o único país onde há violência, corrupção ou TV de má qualidade é o nosso. É um argumento de fácil contestação. Basta clicar na editoria internacional.
Não concorda com minhas atitudes? Isso é inveja!

Sempre que celebridade x ou y faz ou fala algo de gosto duvidoso, vira notícia. E, logo abaixo da notícia, começam as críticas ao que foi dito/feito. E, meia dúzia de comentários abaixo, os fãs da celebridade em questão (quando não a própria) já engatam: Isso é inveja! É porque vocês não tem dinheiro/fama/mulher/sucesso como ele! Vão lavar uma trouxa de roupa!
É perfeitamente possível reprovar a ação de uma pessoa pública sem, necessariamente, desejar estar em seu lugar. Por outro lado, fica a dúvida: o que deseja aquele que julga as ações de quem não lhe diz respeito? 

Rodrigo Amém é Jornalista e redator


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