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Viver Bem

Verde que cura

Contato com a natureza acalma a mente e contribui para o alívio da dor

Publicado em 31/05/2025 10:05 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Em tempos de urbanização intensa e rotinas aceleradas, a ciência tem reiterado o que culturas tradicionais já intuíram há séculos: a natureza pode ser um poderoso remédio. De caminhadas conscientes em florestas a simples momentos de contemplação de paisagens naturais, cresce o número de estudos que revelam os benefícios terapêuticos do contato com o ambiente natural – não apenas para a saúde mental, mas também para o alívio da dor e a recuperação de lesões físicas.

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A prática dos banhos de floresta (shinrin-yoku), nascida no Japão na década de 1980, tornou-se símbolo dessa redescoberta da natureza como aliada da saúde. Um estudo recente, baseado nessa técnica de imersão sensorial em ambientes florestais, demonstrou reduções significativas em sintomas de depressão e ansiedade. A eficácia, neste caso, não está ligada ao exercício físico ou à atividade intensa, mas à atenção plena e ao envolvimento emocional com o ambiente natural.

Contudo, o que tem surpreendido pesquisadores é o efeito desse contato também sobre dores físicas. Um estudo europeu publicado em abril revelou que até mesmo breves exposições à natureza podem reduzir a percepção da dor. Esse achado reforça o potencial terapêutico da natureza em contextos de reabilitação médica, como apontado por uma pesquisa dinamarquesa do ano passado: 17 pacientes com lesão cerebral relataram melhorias significativas após incluírem caminhadas e observações naturais em suas rotinas de recuperação. Entre os relatos, destacam-se sensações de autonomia, cooperação, bem-estar emocional e até “alegria renovada”.

O cérebro, a atenção e o verde

Esses efeitos não são apenas subjetivos. A neurociência tem contribuído para explicar o fenômeno. Holli-Anne Passmore, psicóloga e pesquisadora da Universidade Concordia de Edmonton, no Canadá, estuda os vínculos entre bem-estar e natureza. Segundo ela, o cérebro humano responde de forma singular ao ambiente natural porque este ativa o que a psicologia chama de “atenção suave” — uma forma de concentração que não exige esforço mental elevado, ao contrário dos estímulos urbanos intensos, como telas ou sinais luminosos.

“Um letreiro luminoso que você não consegue ignorar entra em contato e basicamente diz ‘olhe para mim’, enquanto as coisas na natureza tendem a capturar sua atenção, mas não entram em contato e te sacodem pelos ombros”, explica Passmore. Essa atenção suave permite ao cérebro entrar em modo de recuperação, diminuindo a carga cognitiva e promovendo descanso mental — fator essencial para o equilíbrio emocional e até para a resposta física a lesões.

A neuroimagem confirma que essas experiências reduzem a atividade em áreas cerebrais associadas ao estresse e à ruminação. Segundo Passmore, isso se traduz em um ciclo virtuoso: “Quando estamos em um estado emocional melhor, não importa o tipo de lesão, o corpo vai responder”.

Qualidade, não quantidade

Mas afinal, quanto tempo de natureza é necessário para sentir os benefícios? Ao contrário do que se imagina, não é preciso passar horas em uma floresta remota. A chave está na qualidade do contato. “Prestar atenção à natureza no seu dia a dia e perceber como ela faz você se sentir teve um aumento incrivelmente grande em diferentes aspectos do bem-estar”, diz Passmore. Esse efeito inclui não só emoções positivas, como também sensações de conexão com os outros, gratidão profunda e até experiências de admiração diante da vida.

Um estudo publicado na Nature Scientific Reports apontou que apenas duas horas semanais de exposição à natureza já são suficientes para promover melhorias significativas na saúde física e mental. Essa exposição pode ocorrer em pequenos parques urbanos, jardins ou até mesmo em trajetos com vegetação.

Da contemplação à política pública

Em um momento em que crises de saúde mental desafiam sistemas públicos em todo o mundo, as evidências científicas sobre os benefícios do contato com a natureza ganham peso também como argumento político. Países como Escócia e Canadá já incluem “prescrições de natureza” em seus sistemas de saúde, recomendando caminhadas ao ar livre como parte do tratamento para ansiedade, depressão e dores crônicas.

A Organização Mundial da Saúde também reconhece o papel dos espaços verdes como determinantes sociais da saúde e recomenda a ampliação do acesso a áreas naturais como política urbana. Em um mundo cada vez mais urbano — em 2023, 57% da população mundial vivia em áreas urbanas, segundo o Banco Mundial — o desafio está em reintegrar a natureza ao cotidiano.

Mais do que um cenário bonito, a natureza se confirma, com respaldo científico crescente, como uma aliada fundamental na promoção da saúde integral. Em meio ao barulho e à velocidade do mundo moderno, talvez o silêncio das árvores e o fluxo de um riacho ofereçam exatamente o que o cérebro e o corpo mais precisam: tempo, pausa e conexão. Como indicam as evidências, cuidar do meio ambiente é também uma forma de cuidar de nós mesmos.

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