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Viver Bem

Vape vira epidemia invisível que ameaça a saúde dos jovens

Casos graves de lesão pulmonar expõem os riscos dos cigarros eletrônicos

Publicado em 24/05/2025 11:18 - Semana On

Divulgação Joédson Alves - Agência Brasil

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O caso de uma adolescente americana diagnosticada com uma condição pulmonar irreversível após três anos de uso secreto de cigarros eletrônicos reacendeu um alerta que reverbera em escala global: os vapes, muitas vezes vistos como inofensivos ou “menos perigosos” que o cigarro tradicional, podem estar no centro de uma crise silenciosa de saúde pública. O crescimento acelerado do uso entre jovens, somado à falta de regulamentação eficaz e aos sinais crescentes de danos à saúde, indica que o mundo está lidando com uma ameaça ainda pouco compreendida — mas potencialmente devastadora.

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Em 2019, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos registraram quase 3 mil casos de lesões pulmonares associadas ao uso de cigarros eletrônicos, com 68 mortes confirmadas. A maioria das vítimas: adolescentes e jovens adultos. Embora os números possam parecer baixos diante de outras crises sanitárias, especialistas alertam para a gravidade do dano contínuo e progressivo causado pelo uso dos dispositivos.

“De vez em quando, alguns dos casos mais graves chegam às manchetes. Mas por trás de tudo isso está o dano lento e prolongado que os usuários de cigarros eletrônicos estão sofrendo em seus pulmões”, afirmou o professor Donal O’Shea, da Universidade de Medicina e Ciências da Saúde RCSI, da Irlanda, em entrevista à BBC. Segundo ele, os riscos estão sendo subestimados, em parte pela imagem enganosa de que o vape é uma alternativa segura ao cigarro tradicional.

A composição dos vapes, embora amplamente difundida pela indústria como mais “limpa”, é complexa e ainda pouco estudada. O processo de aquecimento dos líquidos no aparelho — que gera um aerossol inalado diretamente para os pulmões — pode desencadear milhares de reações químicas. “A forma como você introduz um composto no corpo é fundamental para determinar sua toxicidade. O tecido pulmonar, por exemplo, é extremamente sensível e não se regenera facilmente”, alerta O’Shea.

Os primeiros estudos já apontam consequências preocupantes: inflamação pulmonar, infarto, depressão e até câncer. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que, embora os efeitos de longo prazo ainda sejam desconhecidos, já se sabe que os vapes liberam substâncias cancerígenas e aumentam o risco de doenças cardíacas e respiratórias. Entre os jovens, os impactos podem ser ainda mais severos.

“O tecido pulmonar, cardíaco e cerebral dos adolescentes ainda está em desenvolvimento, o que os torna mais vulneráveis a toxinas”, explica O’Shea. Além disso, a nicotina — presente na maioria dos dispositivos — é altamente viciante. Estudos relatam que muitos adolescentes desenvolvem dependência em poucas semanas, com sintomas de abstinência como irritabilidade e ansiedade surgindo poucas horas após o último uso.

Essa vulnerabilidade se reflete nas estatísticas. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE/IBGE) mostram que, em 2019, 16,8% dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos já haviam usado vape — o mesmo índice encontrado em um estudo da Universidade da Cidade do Cabo (UCT) com 25 mil estudantes sul-africanos. Números que revelam não apenas o alcance do problema, mas sua penetração entre públicos mais jovens.

No Brasil, embora a comercialização de cigarros eletrônicos seja proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009, o número de usuários saltou de 500 mil, em 2018, para 2,8 milhões, em 2023, segundo o Instituto Ipec. A proibição, na prática, esbarra em um mercado paralelo e na dificuldade de fiscalização — agravada pelo apelo estético dos aparelhos, sabores atrativos e marketing velado nas redes sociais.

O caso do acetato de vitamina E, identificado como o responsável por diversas mortes nos EUA, é emblemático: aquecido, esse espessante libera ceteno, um gás altamente tóxico. A descoberta, feita em 2019 por pesquisadores da Universidade de Utah, foi determinante para que países como México, Japão e membros da União Europeia adotassem restrições mais rígidas.

Apesar dos avanços regulatórios em alguns países, a indústria do vape segue crescendo, muitas vezes apoiada em discursos semelhantes aos usados pela indústria do tabaco no século XX. “Historicamente, foram necessárias décadas para provar que o cigarro causa doenças. Parece que estamos permitindo que a história se repita”, alerta O’Shea.

É justamente essa repetição histórica que torna o debate sobre os vapes urgente. O avanço tecnológico e a estética moderna dos dispositivos não devem mascarar o essencial: estamos diante de uma substância cujo impacto real sobre a saúde pública ainda está sendo escrito — com capítulos preocupantes já registrados em diversos continentes.

Se a experiência com o cigarro tradicional ensinou algo, é que a ciência precisa de tempo, mas a saúde pública não pode esperar. E, neste momento, adolescentes do mundo todo estão inalando não só vapores aromáticos, mas incertezas perigosas.

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