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Viver Bem

Suplementos e o envelhecimento

Eles não substituem dieta balanceada e atividade física e devem ser usados com critério

Publicado em 05/04/2025 11:24 - Semana On

Divulgação Semana On

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No mercado da longevidade, a promessa de envelhecer melhor com a ajuda de cápsulas, pós e comprimidos atrai cada vez mais adeptos. Mas enquanto cresce a oferta de suplementos que alegam combater os efeitos do tempo, especialistas alertam: esses produtos não são atalhos para a juventude eterna. Sua eficácia é limitada, seu uso exige cuidado e, sobretudo, não substituem os pilares de uma vida saudável — alimentação equilibrada e exercício físico.

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A busca por meios de desacelerar o envelhecimento tem alimentado uma indústria bilionária de suplementos alimentares em todo o mundo. Em 2023, o mercado global desse setor foi estimado em cerca de US$ 170 bilhões, segundo a Grand View Research, com expectativa de crescimento constante. No entanto, como aponta a professora Manuela Dolinsky, nutricionista da Universidade Federal Fluminense (UFF), essa busca esbarra na realidade científica: “Embora o colágeno seja essencial para a saúde da pele, a evidência de que suplementos de colágeno realmente retardam o envelhecimento da pele é limitada”, explica, destacando que os estudos disponíveis apontam apenas efeitos modestos e ainda inconclusivos.

A própria ideia de que antioxidantes poderiam funcionar como escudos contra o envelhecimento celular — ao neutralizar radicais livres produzidos pelo chamado estresse oxidativo — também não se sustenta com robustez. “Há pouco apoio clínico que sugira que doses altas dessas substâncias alterem o curso do envelhecimento”, afirma Dolinsky. O entusiasmo inicial com vitaminas C e E, por exemplo, arrefeceu à medida que pesquisas mais rigorosas não conseguiram demonstrar benefícios consistentes.

Certas deficiências nutricionais, no entanto, justificam o uso de suplementos — mas em contextos bem definidos. A vitamina B12 é um caso clássico: essencial para a produção de hemácias e a síntese de DNA, seus níveis baixos têm sido associados a maior risco de demência. Uma meta-análise publicada na revista Nutrition Reviews concluiu que a suplementação pode reduzir esse risco em pessoas com deficiência da vitamina. Contudo, o benefício não se estende a quem já desenvolveu a doença, sugerindo que, nesse caso, prevenir ainda é o melhor remédio.

A vitamina D, por sua vez, também merece atenção especial, sobretudo na terceira idade. Com a redução natural da exposição solar e a menor eficiência da pele na conversão dessa vitamina, a deficiência se torna comum. “Boa parte da população tem níveis abaixo do ideal, o que compromete a saúde óssea, muscular e dentária”, alerta o nutrólogo Nelson Lucif Jr., da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Em sua avaliação, a suplementação costuma ser indispensável entre idosos.

O mesmo vale para o cálcio. Apesar de sua abundância nos laticínios — ainda a melhor fonte segundo evidências científicas —, o consumo insuficiente é a regra entre os mais velhos. “É raro uma pessoa idosa consumir quantidades suficientes de laticínios para atingir a recomendação diária do mineral. Por isso, na maioria dos casos, a suplementação se torna indispensável”, reforça Lucif Jr.

Mas suplementar indiscriminadamente pode trazer riscos reais. Vitaminas lipossolúveis como A, D, E e K, quando consumidas em excesso, podem causar danos ao fígado, rins e ossos. O ômega 3, por exemplo, frequentemente associado à saúde cardiovascular, também tem efeitos controversos. Embora alguns estudos indiquem benefícios, outros apontam para um risco aumentado de fibrilação atrial.

A coenzima Q10, o gingerol (do gengibre), o resveratrol (presente nas uvas e vinhos) e a curcumina (da cúrcuma) são outros compostos populares, apoiados por estudos em células ou animais. No entanto, a transposição desses dados para seres humanos ainda carece de evidências sólidas quanto à eficácia e segurança, principalmente no que diz respeito à dosagem ideal.

Os probióticos — suplementos que atuam sobre a microbiota — despontam como uma das promessas mais concretas, com estudos demonstrando impacto positivo em áreas como saúde intestinal, ginecológica, controle glicêmico e até saúde mental. No entanto, há um grande desafio: a diversidade de espécies e cepas disponíveis torna difícil estabelecer condutas padronizadas. Como lembra Dolinsky, “faltam estudos que balizem o uso prático desses suplementos na população em geral”.

Além de serem caros, os suplementos também exigem acompanhamento médico, principalmente devido à possibilidade de interações medicamentosas. A vitamina C, por exemplo, pode interferir na ação de anticoagulantes, hormônios e medicamentos para colesterol. “É extremamente importante que as pessoas informem a seus médicos que fazem uso de suplementos”, alerta a médica Luciana Verçosa Viana, chefe do serviço de nutrologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (UFRGS).

Para ela, a crescente busca por suplementos reflete um desejo por soluções fáceis, mesmo que pouco eficazes. “A ideia de que um produto pode evitar os efeitos do envelhecimento é atraente porque promete uma solução simples, em vez de mudanças no estilo de vida que exigem esforço contínuo”, afirma. Mas, como também reforça Dolinsky, nenhuma cápsula substitui a prática regular de atividade física e uma dieta rica em frutas, vegetais, fibras e gorduras saudáveis — fundamentos consagrados da longevidade.

Embora os suplementos possam ser úteis em contextos específicos, tratá-los como panaceia é um equívoco. A ciência é clara: envelhecer bem ainda depende, majoritariamente, de escolhas cotidianas — e não de promessas encapsuladas.

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