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Viver Bem
A maioria das bulas de pílulas anticoncepcionais não cita possível efeito colateral na libido
Publicado em 27/09/2025 10:04 - Kaukab Shairani – DW
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Apeksha Shetty, uma indiana que mora em Viena, começou a tomar a pílula anticoncepcional por motivos hormonais. Um dos benefícios, ela pensava, seria poder fazer sexo com seu parceiro sem ter que se preocupar com gravidez.
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Mas as coisas não saíram como esperado. A pílula que foi prescrita a Shetty interrompeu completamente sua menstruação, e seu desejo sexual desapareceu. “Voltei ao médico e disse que não queria viver minha vida assim”, disse Shetty à DW. “Eu disse a ele que era jovem, que tinha um parceiro atraente e queria fazer sexo com ele.”
A história de Shetty não é isolada. A DW conversou com mulheres de diversas origens, incluindo África, Ásia, Oriente Médio e Europa. Todas relataram ter tomado pílula por recomendação médica, e a maioria afirma não ter sido orientada sobre possíveis impactos na libido – em muitos casos, nem mesmo a bula fazia menção ao efeito colateral.
A relação entre a pílula anticoncepcional e a libido das mulheres sempre foi complicada. A pílula deu início a uma nova era de autonomia sexual, mas, para algumas mulheres, os próprios hormônios sintéticos que impedem a gravidez também podem ter suprimido a libido.
A primeira pílula anticoncepcional foi aprovada nos Estados Unidos em 1960 pela FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos). Foi um passo sem precedentes na medicina e no planejamento familiar, dando às mulheres a capacidade de controlar sua fertilidade. As mulheres podiam ter relações sexuais sem o medo de uma gravidez indesejada.
Com o tempo, a pílula também passou a ser associada a uma maior liberdade sexual e autonomia corporal, especialmente para as mulheres. Mas, embora seja 99% eficaz como contraceptivo, a pílula não é uma forma segura de se proteger contra infecções sexualmente transmissíveis.
Tesão zero
Mariel*, que é do Chipre e mora na Holanda, começou a tomar a pílula há oito anos, quando tinha 20. Antes de aderir ao método contraceptivo, ela estava frequentemente “com tesão”, como ela mesma define.
“Eu queria ter mais relações sexuais e mais seguras”, disse Mariel à DW. “Mas a maioria das minhas relações sexuais no início não era motivada pela libido, mas mais porque eu podia, quase independentemente da minha libido.” Só mais tarde Mariel percebeu que a pílula havia diminuído seu desejo.
Uma grande revisão de 36 estudos envolvendo mais de 13 mil mulheres em 2013 descobriu que cerca de 15% das participantes relataram uma queda na libido enquanto usavam a pílula.
Desde então, poucos foram os esforços para tentar explicar o motivo, e os resultados existentes parecem ser contraditórios. Isso pode ter a ver com o fato de que os estudos são difíceis de serem comparados – embora a pílula geralmente contenha os hormônios estrogênio e progesterona, há variações na quantidade de cada um deles, o que pode levar a efeitos colaterais variados.
Em 2016, um ensaio clínico sobre o tema contou com 340 mulheres, uma parte delas tomando a pílula e a outra, um placebo. No geral, as participantes não notaram mudanças significativas em sua atividade sexual, mas as mulheres que tomavam a pílula relataram níveis mais baixos de desejo, excitação e prazer.
Pesquisadores acreditam que isso pode ser devido ao efeito da pílula sobre a testosterona. A pílula aumenta os níveis de globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), proteína que se liga à chamada testosterona livre no corpo. A testosterona livre proporciona o desejo sexual. Quando a SHBG se liga à testosterona livre, ela a neutraliza e, como resultado, reduz a libido.
Secura, dor e psicologia
Para algumas mulheres, os efeitos colaterais negativos da pílula não se limitam ao desejo. Eles também podem afetar a excitação física, particularmente a lubrificação.
A jornalista e ex-psicóloga Shristi Pal conta que começou a tomar a pílula para regular seus hormônios, mas percebeu secura vaginal e perda de libido. “Também foi psicológico”, disse à DW. “Você tem medo de qualquer tipo de atividade sexual se isso for causar dor. O cérebro diz que você não está pronta.”
Outras mulheres contaram à DW terem vivido oscilações emocionais enquanto tomavam a pílula – transitando entre apatia, ansiedade ou sensação de estar emocionalmente vulnerável.
Lee*, uma sul-africana na casa dos 40 anos, tomou a pílula há 10 anos, mas interrompeu o uso apenas dois meses depois porque sentiu que ela desestabilizava seu humor. “Eu ficava tão instável com a pílula que parei e mudei para [um dispositivo intrauterino]”, disse ela à DW. Os dispositivos intrauterinos (DIUs) são uma forma não hormonal de contracepção, inserida no útero por um médico.
Apenas uma mulher com quem a DW conversou relatou uma experiência consistentemente positiva. Morando no Canadá e preferindo permanecer anônima, ela começou a tomar a pílula para tratar acne. Anos depois, ela ainda a usa, mas agora principalmente para contracepção.
“Para mim, tem sido ótimo e me ajudou a funcionar um pouco melhor. Durante a menstruação, meus hormônios ficam muito regulados e, nos dias 14 e 15, em termos de libido, me sinto muito ativa”, disse ela, preferindo permanecer anônima.
Afinal, a pílula diminui a libido?
A resposta curta: é complicado. A libido é moldada por vários fatores: hormonais, psicológicos, relacionais e sociais – não apenas pela pílula. Mesmo no estudo que constatou diminuição da libido em 15% das mulheres, a maioria (85%) relatou nenhuma mudança ou um aumento no desejo. Os pesquisadores envolvidos acreditam que o aumento da libido em certos casos pode estar relacionado ao alívio psicológico de não ter que se preocupar com a gravidez.
A médica indiana Tanaya Narendra, educadora na área de saúde sexual, disse que, embora a diminuição da libido seja um efeito colateral conhecido da pílula, isso não foi comprovado – “ainda não foi estabelecida uma conexão universal”, disse ela.
Por um lado, as formas contemporâneas da pílula diferem muito das versões anteriores.
“Inicialmente, quando a pílula foi criada, os hormônios nela contidos eram medidos em miligramas. Agora, eles são medidos em microgramas [unidade de medida mil vezes menor], então houve uma redução nos hormônios e uma mudança dramática na produção da pílula”, disse Narendra.
Atualmente, diferentes combinações hormonais são adaptadas a diferentes necessidades: acne, endometriose, menstruação irregular e contracepção. Isso dificulta tirar conclusões sobre seus efeitos no desejo sexual.
Narendra disse que o efeito sobre a libido deve ser levado a sério, mas também que ela sentia que havia uma narrativa mais ampla em ação, “impulsionada por vozes conservadoras que visam restringir a autonomia reprodutiva das mulheres”.
Cada vez mais, na internet, é possível ver pessoas perguntando se a pílula afeta sua libido. “A mídia conservadora, ao minimizar a autonomia das mulheres, […] passou a adotar um tom sugestivo e levou as pessoas a acreditar que ela teria efeitos colaterais negativos”, observa.
Mas Narendra acredita que a maior falha não está na pílula em si, mas no silêncio e no estigma em torno da saúde das mulheres e do uso de contracepção. As mulheres, disse Narendra, não foram ensinadas a compreender seus corpos sem julgamento ou vergonha. Essa falta de conscientização deixou espaço para que a confusão, a desinformação e o medo crescessem.
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