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Viver Bem
Indústria é acusada de viciar jovens com marketing agressivo e plataformas digitais
Publicado em 13/10/2025 2:37 - Semana On
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O uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes alcançou um patamar alarmante: ao menos 15 milhões de jovens entre 13 e 15 anos em todo o mundo utilizam esses dispositivos, segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade alertou que crianças e adolescentes têm hoje nove vezes mais chances de iniciar o consumo de nicotina do que os adultos, um cenário que ameaça reverter décadas de avanços no controle do tabagismo.
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“Os cigarros eletrônicos estão alimentando uma nova onda de dependência da nicotina”, afirmou Etienne Krug, diretor do Departamento de Controle de Doenças Crônicas da OMS, ao apresentar o Relatório Global sobre as Tendências da Prevalência do Tabaco 2000-2024 e Projeções 2025-2030, em Genebra. Embora promovidos como alternativa menos nociva ao cigarro tradicional, os dispositivos eletrônicos, segundo Krug, “estão viciando crianças em nicotina mais cedo”, com efeitos ainda pouco compreendidos sobre a saúde a longo prazo.
O levantamento, baseado em 2.034 pesquisas realizadas em 194 países entre 1990 e 2024 – cobrindo 97% da população mundial – estima que mais de 100 milhões de pessoas utilizem atualmente cigarros eletrônicos, a maioria delas em países de alta renda. Do total, cerca de 86 milhões são adultos, enquanto 15 milhões são adolescentes, o que evidencia a dimensão do problema entre os mais jovens.
Táticas da indústria e redes sociais
A OMS também apontou diretamente para as práticas da indústria do tabaco, acusando fabricantes e distribuidores de recorrerem a estratégias de marketing agressivas, que exploram a estética moderna dos vapes, os sabores adocicados e o apelo em plataformas digitais. Segundo Alison Commar, autora principal do relatório, há uma “pesada exposição de crianças à propaganda online de produtos de nicotina”, inclusive com o envolvimento de influenciadores digitais.
“É muito difícil regular”, reconheceu Commar. “Os cigarros eletrônicos funcionam como uma porta de entrada para o tabaco entre os jovens ou como uma forma de manter a dependência à medida que envelhecem”, acrescentou.
A análise global mostra que nenhuma região do mundo registra prevalência abaixo de 9% entre adolescentes, e a Europa lidera o consumo na faixa de 13 a 15 anos, com média de 11,6% – praticamente igual entre meninos e meninas. Na América Latina, Chile (26,7%) e Argentina (23,5%) apresentam os percentuais mais altos, contrastando com países como Paraguai (6,4%) e Panamá (4,8%).
Avanços no controle do cigarro tradicional
Apesar do crescimento do uso dos cigarros eletrônicos, o relatório da OMS também registra um avanço importante na redução do consumo do tabaco convencional. Desde 2000, o número global de fumantes caiu de 1,38 bilhão para 1,24 bilhão em 2024, o que representa uma redução de 19,5%. A projeção é de que, até 2030, o índice global caia para 17,4% da população.
Essa queda tem sido mais significativa entre as mulheres – cuja taxa de consumo caiu de 16,5% para 6,6% em 25 anos – do que entre os homens, onde a redução foi de 49,8% para 32,5%. A faixa etária com maior prevalência segue sendo a dos 45 a 54 anos, embora o percentual tenha recuado de 42,1% para 25%. Entre jovens de 15 a 24 anos, a taxa caiu de 20,3% para 12,1%.
Regionalmente, a Europa passou a liderar o consumo de tabaco em 2024, com 24,1% da população adulta ainda fumando, ultrapassando o Sudeste Asiático, que tinha as maiores taxas em 2000. As Américas registram atualmente 14% de fumantes e a África, 9,5% – a menor prevalência global, embora com crescimento absoluto por causa do aumento populacional.
No Brasil, segundo o relatório, 9% da população ainda consome produtos de tabaco, índice inferior à média mundial.
OMS cobra ação firme dos governos
Diante do novo cenário, a OMS fez um apelo direto aos governos para que atuem “de forma rápida e enérgica” no combate à popularização dos dispositivos eletrônicos de nicotina, com reforço das políticas de prevenção, regulação da propaganda digital e proibição da venda a menores de idade.
“Quase 20% dos adultos ainda usam produtos de tabaco e nicotina. Não podemos baixar a guarda agora”, advertiu Jeremy Farrar, diretor-geral adjunto da OMS para promoção da saúde. O chefe da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reforçou que os avanços no controle do tabaco estão sendo minados pela ação de uma indústria que “reage com novos produtos e foca agressivamente nos jovens”.
Segundo dados da OMS, o tabaco continua sendo responsável por mais de 8 milhões de mortes por ano, sendo mais de 7 milhões entre fumantes diretos e 1 milhão por exposição passiva.
Um alerta sanitário e civilizatório
O que está em jogo, como indicam os dados, não é apenas uma disputa entre formas de consumo de nicotina, mas a sustentação de uma política de saúde pública construída ao longo de décadas. Ao atrair crianças e adolescentes, os cigarros eletrônicos colocam em xeque os fundamentos dessas conquistas, forçando a sociedade a enfrentar uma nova geração de dependência química disfarçada de modernidade.
A resposta, como sempre, passa por informação qualificada, regulação estatal e responsabilidade social – pilares indispensáveis em qualquer combate que envolva saúde coletiva e proteção de populações vulneráveis.
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