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Viver Bem

Explosão do Mounjaro nas redes e o mercado ilegal brasileiro

Anvisa endurece regras com retenção de receita para controlar venda de Ozempic, Wegovy e Saxenda

Publicado em 18/04/2025 9:41 - Semana On

Divulgação Semana On

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No vórtice entre o culto à magreza, a indústria farmacêutica e a lógica da medicalização dos corpos, as chamadas “canetas emagrecedoras” emergem como novo símbolo do desejo estético — e também como preocupação de saúde pública. No Brasil, a febre pelo Mounjaro, medicamento injetável desenvolvido originalmente para tratar diabetes tipo 2, gerou um mercado ilegal, levou a apreensões milionárias pela Receita Federal e obrigou a Anvisa a endurecer as regras para sua comercialização. Por trás da aparência moderna e promissora desses fármacos, revela-se um sistema que transforma angústias corporais em mercadoria.

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O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, já popular na Europa e nos Estados Unidos, foi aprovado pela Anvisa em setembro de 2023, mas ainda não chegou às farmácias brasileiras — o que deve ocorrer em junho, segundo a farmacêutica Eli Lilly. Isso não impediu seu uso no país: apenas entre os dias 12 e 15 de abril, a Receita Federal reteve, no Aeroporto Internacional do Recife, duas cargas da droga trazidas por um mesmo passageiro. No total, foram 638 doses avaliadas em R$ 1,8 milhão, destinadas ao comércio clandestino.

Nas redes sociais, sobretudo no TikTok, o Mounjaro tornou-se queridinho de influenciadoras e usuárias que celebram sua suposta eficácia para emagrecimento rápido. É nesse ambiente de culto estético que surgem também ofertas ilegais do medicamento — sem prescrição e sem controle. Especialistas alertam: “Ele não é recomendado para pessoas que não tenham indicação clínica”, explica Simone van de Sande Lee, diretora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “Todo medicamento tem potenciais benéficos e efeitos adversos.”

A tirzepatida atua imitando os hormônios GLP-1 e GIP, que regulam saciedade e digestão. Quando administrado — por injeção subcutânea semanal — o medicamento pode levar à perda significativa de peso. Mas os efeitos colaterais são diversos: náuseas, vômitos, distúrbios gastrointestinais e, em casos extremos, complicações hepáticas ou formação de pedras na vesícula. Em pessoas sem obesidade, a perda de massa muscular também é uma preocupação.

O uso indevido dessas substâncias revela um fenômeno mais amplo: a estetização do sofrimento e a conversão da saúde em capital simbólico. Como destaca a socióloga Marília Moschkovich, pesquisadora da área de corpo e gênero, “o corpo magro é visto como um ideal moral, quase uma virtude. A medicina, nesse contexto, vira instrumento de normalização”.

Não por acaso, o termo “canetas emagrecedoras” tornou-se viral — e problemático. “A tirzepatida não é um produto exclusivamente destinado à perda de peso”, esclarece Samara Rodrigues, endocrinologista do Grupo Valsa Saúde. “É um medicamento para controle do diabetes tipo 2, com efeito secundário de emagrecimento em pessoas com obesidade ou sobrepeso.” A SBEM e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) criticam o uso desse jargão, por banalizar o tratamento e estimular o uso recreativo de fármacos sérios.

Essa banalização levou a Anvisa a tomar uma medida inédita: no último dia 16, a agência anunciou que a venda de medicamentos como Ozempic, Saxenda, Wegovy e Mounjaro — todos agonistas do GLP-1 — passará a exigir retenção da receita médica, válida por até 90 dias e registrada no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). A decisão foi unânime entre os diretores da agência, após a constatação de um número elevado de efeitos adversos causados pelo uso indiscriminado, muitas vezes com motivação meramente estética.

A decisão é amparada também por sociedades médicas. Em carta pública divulgada no fim de 2024, a SBEM e a Sociedade Brasileira de Diabetes defenderam o controle rígido na venda dos medicamentos, argumentando que o uso desenfreado não apenas compromete a saúde de indivíduos, mas também prejudica o acesso daqueles que realmente necessitam do tratamento.

É nesse ponto que a questão deixa o campo da saúde individual e entra na arena da política pública. A medicalização da estética, ao ser alimentada pela indústria farmacêutica, pelas redes sociais e pelo mercado de influenciadoras, exacerba desigualdades e transfere para o indivíduo a responsabilidade por padrões impostos socialmente. “A lógica neoliberal transformou a saúde num projeto pessoal, onde fracassar é culpa sua”, afirma o filósofo Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (Han, 2017). Em outras palavras: é o sujeito que adoece para se adequar.

O contrabando, por sua vez, é sintoma de um problema estrutural. Em um país onde a vigilância sanitária luta para se impor diante do poder econômico do mercado negro e da indústria estética, a chegada de medicamentos como o Mounjaro sem controle regulatório compromete não só a segurança individual, mas a integridade do sistema de saúde pública. O Brasil repete, assim, um ciclo já observado em outras épocas e contextos: a busca por atalhos farmacológicos diante de pressões sociais que naturalizam o sofrimento corporal.

Mais do que uma moda passageira, a corrida pelas “canetas” revela os contornos de uma sociedade que terceiriza sua autoestima para moléculas sintéticas, empacotadas como solução mágica. Em meio à disputa entre a ciência médica e os algoritmos da vaidade digital, é preciso retomar uma discussão crítica sobre os limites da intervenção farmacológica, a ética da prescrição e, sobretudo, o direito à saúde como valor coletivo — e não como mercadoria.

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