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Viver Bem
Diagnósticos e tratamentos promovidos por influenciadores põe a saúde em risco
Publicado em 07/06/2025 10:31 - Semana On
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Em pleno século XXI, a desinformação médica ganhou nova forma e velocidade. Se no passado a promessa de cura vinha em frascos de “óleo de cobra” ou relicários milagrosos, hoje ela se espalha em vídeos com estética clean, trilha sonora otimista e hashtags populares. Um estudo publicado na revista científica JAMA Network Open pela Universidade de Sydney revela que oito em cada dez postagens sobre exames médicos feitas por influenciadores nas redes sociais são enganosas, falsas ou potencialmente prejudiciais à saúde pública.
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A pesquisa analisou 982 publicações no Instagram e no TikTok — plataformas que concentram um público jovem e altamente engajado — e constatou que apenas 15% dos conteúdos mencionavam os possíveis danos dos testes promovidos. Entre os principais problemas está a ausência de evidências científicas, o uso de dados distorcidos e a omissão de riscos, o que pode levar a diagnósticos e tratamentos desnecessários. Quase todos os influenciadores analisados não tinham formação médica, e mais de dois terços possuíam interesses financeiros diretos na divulgação dos exames, fator que intensifica o viés da comunicação.
A ilusão da prevenção total
O exemplo mais emblemático citado pelo estudo é o da celebridade Kim Kardashian, que em 2023 incentivou seus mais de 360 milhões de seguidores a realizarem uma ressonância magnética de corpo inteiro, promovendo o exame como uma “máquina salva-vidas”. Embora sofisticado, o exame não é recomendado para pessoas assintomáticas pela maioria dos órgãos reguladores, como a FDA (Food and Drug Administration) dos EUA. Segundo os pesquisadores, esse tipo de exame tem alto potencial de detectar anomalias clínicas que não causariam danos reais, levando a um ciclo de exames complementares, procedimentos invasivos e ansiedade desnecessária.
Essa prática está no centro de um problema crescente chamado overdiagnosis (diagnóstico excessivo), um fenômeno identificado e estudado pela medicina baseada em evidências. Segundo o relatório, “os testes de detecção precoce, embora bem-intencionados, são facas de dois gumes: salvam vidas, mas também medicalizam o que poderia ser apenas variações benignas do corpo humano”. Isso causa danos não apenas físicos e emocionais, mas também sobrecarrega sistemas de saúde já pressionados por doenças reais e não diagnosticadas.
Testes promovidos sem respaldo científico
Além da ressonância magnética de corpo inteiro, o estudo destaca outros exames promovidos sem embasamento científico sólido:
MCED (Multi-Cancer Early Detection): exame de sangue que identifica fragmentos de DNA tumoral. Apesar de prometer detectar mais de 50 tipos de câncer precocemente, não tem aprovação regulatória nem comprovação de que os benefícios superam os danos.
Teste AMH (Hormônio Antimülleriano): frequentemente vendido como “teste de fertilidade”, quando na verdade mede apenas a quantidade de óvulos, sem prever capacidade reprodutiva ou sucesso em tratamentos de fertilização.
Testes de microbioma intestinal: populares nas redes por prometerem “bem-estar intestinal” ou “cura de doenças autoimunes” com base na análise de fezes. Não há evidência suficiente que relacione o perfil do microbioma a tratamentos eficazes.
Exames de testosterona em homens saudáveis: promovem a ideia de reposição hormonal sem necessidade, o que pode levar ao uso indevido de suplementos com efeitos colaterais sérios.
Influência digital, impacto real
Segundo os autores do estudo, “essa nova evidência de informações persuasivas e enganosas em quase 1.000 postagens exige respostas urgentes para conter o excesso de diagnóstico e o uso indevido de testes médicos”.
A crítica vai além dos influenciadores. A ausência de regulação efetiva nas plataformas digitais transforma o ambiente online em terreno fértil para a desinformação. É justamente essa combinação de alto alcance, ausência de formação técnica e incentivos financeiros que torna o problema particularmente perigoso.
Estudos anteriores já vinham alertando sobre a interferência das redes sociais na saúde pública. A Organização Mundial da Saúde, em documento de 2022 sobre infodemia, ressaltou que “a proliferação de informações falsas durante crises sanitárias tem efeitos colaterais tão graves quanto o próprio agente patógeno”.
Entre algoritmos e diagnósticos: como se proteger
A pesquisa não deixa dúvida: o consumo de conteúdo de saúde nas redes sociais deve ser feito com ceticismo e responsabilidade. Algumas medidas simples podem reduzir os riscos:
Verificar credenciais de quem fornece as informações — médicos, pesquisadores e instituições reconhecidas são fontes confiáveis;
Questionar o conteúdo: o vídeo menciona efeitos colaterais? Há referência a estudos científicos? Há conflitos de interesse?
Consultar fontes oficiais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), sociedades médicas ou sites de hospitais universitários;
Evitar compartilhar conteúdos sensacionalistas, que prometem cura milagrosa ou diagnósticos infalíveis.
Uma questão de saúde pública e de cidadania
A disseminação de exames desnecessários e a glamourização de testes caros e sem eficácia comprovada não são apenas problemas médicos. São questões de ética, economia e cidadania. A medicalização da vida cotidiana, amplificada por influenciadores digitais, cria um mercado de ansiedade e dependência que transforma saúde em consumo e corpo humano em mercadoria.
Como alertou o médico e pesquisador britânico Richard Smith, ex-editor do British Medical Journal: “A maior ameaça à saúde pública atualmente não é o vírus nem a bactéria, mas a desinformação organizada e o uso abusivo de intervenções sem base científica”.
Diante desse cenário, a sociedade precisa decidir se continuará permitindo que algoritmos e interesses comerciais moldem seu entendimento sobre o que é saúde — ou se exigirá transparência, regulação e educação crítica para garantir que a medicina continue a ser, antes de tudo, um serviço ao bem comum.
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