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Saúde

Vacina contra herpes-zóster reduz risco de demência em mulheres

Estudo reforça relação entre infecções virais e neurodegeneração

Publicado em 05/04/2025 11:07 - Semana On

Divulgação Marcello Casal Jr - Agência Brasil

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A ciência acaba de lançar luz sobre uma conexão até então nebulosa entre infecções virais e doenças neurodegenerativas. Um estudo de coorte realizado no País de Gales e publicado na prestigiada revista Nature aponta que a vacinação contra a herpes-zóster pode reduzir em até 20% o risco de demência em mulheres. O achado reforça o que especialistas em neurologia e imunologia vinham suspeitando há anos: os vírus da família herpes podem desempenhar papel importante nos processos inflamatórios que, em última instância, contribuem para a degradação das funções cognitivas.

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A descoberta tem implicações que vão muito além da medicina. Ela se insere em debates globais sobre políticas de saúde pública, gênero, envelhecimento e desigualdade de acesso a imunizantes. No Brasil, por exemplo, a vacina contra a herpes-zóster só está disponível na rede privada — com preços que ultrapassam R$ 1 mil. O Sistema Único de Saúde (SUS), até o momento, oferece vacinação apenas contra a varicela para crianças, ignorando a população acima dos 50 anos, justamente a mais vulnerável ao vírus e, agora se sabe, potencialmente beneficiada na prevenção da demência.

Vírus, memória e desigualdade de gênero

O estudo monitorou, ao longo de sete anos, a evolução da saúde de pessoas vacinadas com o imunizante Zostavax — uma vacina de vírus vivo atenuado — e comparou os índices de demência entre os imunizados e os não imunizados. Os resultados foram notáveis: entre as mulheres vacinadas, a incidência de demência foi 20% menor. Nenhum efeito significativo foi identificado entre os homens.

A diferença de impacto entre os sexos levanta novas e urgentes questões científicas. Para o neurobiólogo Martin Korte, da Universidade Técnica de Braunschweig, que não participou do estudo, a explicação pode residir nos próprios mecanismos imunológicos femininos. “As mulheres têm maior propensão à demência e apresentam uma resposta mais intensa por meio de mecanismos autoimunes. O estudo pode estar apontando justamente para esse mecanismo”, afirmou à imprensa especializada.

A hipótese é que a vacinação possa atuar como uma forma de prevenção à neuroinflamação — um estado em que o sistema imunológico, em vez de proteger, ataca os tecidos cerebrais, contribuindo para doenças como Alzheimer. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 55 milhões de pessoas vivem hoje com algum tipo de demência, sendo dois terços mulheres. A combinação de maior longevidade, carga genética e fatores imunológicos torna esse grupo especialmente vulnerável.

O cobreiro e o elo com a demência

O vírus varicela-zóster, causador da catapora, permanece adormecido no corpo humano por anos após a infecção inicial. Quando reativado — geralmente em situações de imunossupressão ou envelhecimento — ele provoca a herpes-zóster, também chamada de “cobreiro”. A doença é conhecida pelas erupções cutâneas dolorosas e pode deixar sequelas nervosas de longo prazo, como a nevralgia pós-herpética.

O mais intrigante, contudo, é o potencial do vírus para desencadear reações autoimunes e processos inflamatórios no sistema nervoso central. Diversos estudos recentes vêm reforçando essa hipótese. Em artigo de revisão publicado na Journal of Alzheimer’s Disease (2020), o neurologista Ruth Itzhaki, da Universidade de Manchester, defendeu que “o vírus da herpes simples tipo 1 e outros vírus latentes, como o VVZ, podem estar implicados na etiologia do Alzheimer, especialmente em indivíduos geneticamente suscetíveis” (Itzhaki, 2020).

Vacina cara, acesso desigual

No Brasil, a vacina Zostavax é aplicada em dose única, enquanto a versão mais moderna, a Shingrix — inativada e com maior eficácia — é administrada em duas doses, com intervalo de dois meses. Ambas estão disponíveis apenas na rede privada e com alto custo. A ausência desses imunizantes no calendário oficial de vacinação para adultos evidencia um hiato entre descobertas científicas e políticas públicas.

“A nova evidência científica é tão robusta que se torna um argumento de saúde pública: a vacinação não deveria se limitar à prevenção do cobreiro, mas também ser vista como estratégia de redução do risco de demência”, defende o neurologista Peter Berlit, da Sociedade Alemã de Neurologia, que propôs publicamente a revisão das diretrizes de vacinação na Alemanha.

No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que cerca de 54 milhões de pessoas têm 50 anos ou mais — público diretamente impactado pelas recomendações do estudo. No entanto, a vacinação contra a herpes-zóster ainda não é objeto de campanha pública, deixando milhões de brasileiros à margem de uma proteção que pode ser decisiva tanto contra uma doença dolorosa quanto contra um declínio cognitivo irreversível.

Entre a ciência e a decisão política

Ao trazer evidências sólidas de que uma simples vacina pode ajudar a prevenir uma das doenças mais devastadoras do envelhecimento, o estudo publicado na Nature marca um ponto de inflexão. Mais do que um avanço biomédico, é uma convocação à responsabilidade dos governos, especialmente em países marcados por desigualdades estruturais.

Como alerta o neurocientista e filósofo francês Jean-Pierre Changeux, “as descobertas das neurociências devem ser incorporadas à reflexão ética e política” (The Physiology of Truth, 2002). Em um mundo onde o envelhecimento populacional é uma realidade crescente, não basta conhecer os caminhos da neurodegeneração: é preciso, acima de tudo, democratizar o acesso à prevenção.

INFÂNCIA ALVEJADA


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