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Saúde
Hospitalizações por influenza na terceira idade cresceram 189% em 2024
Publicado em 01/04/2025 1:17 - Semana On
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Com a chegada do outono e a queda nas temperaturas, o vírus da influenza ganha força e, com ele, um cenário alarmante se desenha para a população idosa. Só em 2024, o SUS registrou um aumento de 189% nas hospitalizações de pessoas com mais de 60 anos por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) causada pela gripe. Mais do que febre e dores no corpo, a doença pode desencadear infartos, AVCs e até a morte — risco potencializado pelos baixos índices de vacinação e negligenciado por grande parte da sociedade.
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O vírus da gripe, frequentemente subestimado pela população em geral, tem se revelado um inimigo mortal sobretudo para os idosos. Dados recentes do Sistema Único de Saúde (SUS) indicam uma escalada inquietante nas hospitalizações por SRAG entre pessoas acima dos 60 anos: um salto de 189% em 2024 em comparação com o ano anterior. O aumento nas admissões em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) foi de 187%, acompanhado por 157% mais óbitos — números que revelam a face mais grave de uma doença muitas vezes tratada como inofensiva.
A gravidade do cenário motivou a realização do evento Além da Gripe – Um debate sensível à gravidade dos riscos e impactos provocados pelo vírus da influenza, promovido pela farmacêutica Sanofi na última quarta-feira (26). O encontro buscou jogar luz sobre a sazonalidade da gripe e os riscos associados à baixa cobertura vacinal, em especial entre os mais velhos, grupo para o qual a gripe pode ser letal.
Além das complicações respiratórias, a gripe atua como um gatilho para eventos cardiovasculares. Conforme dados apresentados no evento, uma infecção por influenza aumenta em até dez vezes o risco de infarto e em oito vezes o risco de acidente vascular cerebral (AVC) nos três primeiros dias após o contágio. No caso dos idosos, o risco de AVC permanece elevado por até dois meses após a infecção. Esse dado dialoga com estudos como o publicado no New England Journal of Medicine (Kwong et al., 2018), que já havia identificado uma relação entre infecções respiratórias virais e eventos cardíacos agudos.
A vulnerabilidade dos idosos se explica não apenas pela idade avançada, mas também por condições preexistentes, como diabetes, hipertensão e doenças cardíacas. Em entrevista à BBC Brasil, o médico geriatra Alexandre Kalache, ex-diretor da OMS, já alertava: “Envelhecer bem não é apenas viver mais, é evitar aquilo que nos incapacita. E uma simples gripe pode ser o estopim.”
A questão da baixa adesão vacinal agrava ainda mais esse panorama. Embora o Brasil tenha um Programa Nacional de Imunizações (PNI) reconhecido internacionalmente, a taxa de vacinação contra a gripe entre idosos tem ficado aquém das metas estabelecidas. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2023, a cobertura vacinal ficou em torno de 68%, longe dos 90% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Fatores como desinformação, desinteresse e desconfiança em relação às vacinas ajudam a explicar esse déficit.
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, também há dificuldades em alcançar metas vacinais entre idosos, apesar de campanhas intensivas. No entanto, no Brasil, essa realidade é especialmente preocupante, dada a dimensão da população idosa e a dependência do SUS como principal rede de atendimento.
É nesse contexto que a gripe deixa de ser apenas um problema individual e se torna um desafio de saúde pública. A filósofa Hannah Arendt dizia que “a crise nos obriga a voltar às questões essenciais”. No caso da saúde, a pergunta essencial é: como proteger os mais vulneráveis em um país que envelhece rapidamente?
Segundo o IBGE, o Brasil terá, até 2030, mais idosos do que crianças. Isso exige não apenas políticas públicas eficazes, mas também uma mudança cultural: é preciso romper com a ideia de que a gripe é banal e com o preconceito etário que naturaliza a vulnerabilidade dos mais velhos.
A pandemia de Covid-19 escancarou como os vírus respiratórios podem colapsar sistemas de saúde e atingir de forma desproporcional os idosos. A lição, porém, parece já estar se perdendo. “A gripe não é um resfriado. Ela mata, e mata sobretudo os mais velhos”, resume a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em entrevista à CNN Brasil.
Em tempos de desinformação e negligência sanitária, reafirmar o valor da ciência e da prevenção é um ato de responsabilidade coletiva. E, nesse esforço, a vacinação — gratuita, segura e amplamente disponível — continua sendo a ferramenta mais eficaz para proteger vidas, especialmente as que já carregam décadas de história.