18/05/2024 - Edição 540

Saúde

Cólera, hepatite, leptospirose: os riscos do contato com água de enchentes

Com infestação no RS, o que explica ratos e baratas sobreviverem a inundação

Publicado em 08/05/2024 12:54 - Mariana Varella e Maurício Businari (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Foto: Lauro Alves - SECOM

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O Rio Grande do Sul vive uma das maiores tragédias da história, com inundações que já atingiram mais de dois terços dos municípios do estado.

Embora a catástrofe no RS possa ser considerada um evento extremo, são cada vez mais comuns fenômenos desse tipo causados pelo aquecimento global, provocado graças à emissão crescente de determinados gases (metano, dióxido de carbono etc.) gerados com atividades como queima de combustíveis fósseis, uso de fertilizantes, atividades agropecuárias, entre outras.

O mundo tem ignorado o alerta dos especialistas que avisam que o planeta, caso não tomemos medidas efetivas para reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, enfrentará eventos climáticos extremos com cada vez mais frequência. Talvez as pessoas julguem que essa é uma preocupação apenas das próximas gerações. Não é.

Um relatório publicado na “Lancet” em novembro do ano passado e realizado por pesquisadores internacionais que monitoram os efeitos do aquecimento global na saúde revelou que o problema já é uma realidade.

Com o mundo a caminhar atualmente para 3°C de aquecimento, novos atrasos nas medidas relativas às alterações climáticas ameaçarão cada vez mais a saúde e a sobrevivência de milhares de milhões de pessoas vivas hoje.

É urgente que todas as esferas de governo, União, estados e municípios, e a sociedade civil tomem medidas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Enquanto isso, também é preciso investir na infraestrutura de cidades e na prevenção das consequências de catástrofes ambientais previsíveis.

Nada disso vem sendo feito.

Os perigos da água contaminada

A água de enchentes pode ser foco de uma série de doenças graves, cujos riscos podem permanecer mesmo depois do fim das inundações.

Segundo a Cartilha de Orientação à População no Período de Alerta de Chuvas Intensas do Ministério da Saúde, as principais doenças que podem ser adquiridas por contato com água contaminada em enchentes são:

– cólera;

– febre tifoide;

–  hepatite tipo A;

– leptospirose;

– giardíase;

– amebíase;

– gastroenterites diarreicas;

– e esquistossomose.

Além dessas, podem ocorrer doenças de transmissão respiratória, como meningite, gripe, tuberculose e difteria, principalmente em locais de aglomeração como alojamentos e abrigos.

O tétano acidental, que pode ser adquirido nos acidentes com entulhos, em especial durante a limpeza do ambiente e na reconstrução das moradias, é outra doença que as pessoas devem ficar atentas em períodos de catástrofes ambientais.

Além das vacinas disponíveis para algumas dessas doenças, como hepatite A, tuberculose e tétano, não há tratamento preventivo que possa ser usado em massa para evitar as doenças que podem ser contraídas com água contaminada

É importante que isso fique claro porque há muita informação falsa nas redes sociais sobre tratamentos preventivos contra a leptospirose.

Em nota técnica divulgada no dia 5, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Gaúcha de Infectologia explicaram que a profilaxia (prevenção) da leptospirose com antibióticos só é indicada para pessoas que sofreram exposição prolongada à água de enchentes, como socorristas, e não deve ser adotada pela população em geral, como ampla medida de saúde pública.

A melhor forma de não contrair essas enfermidades é evitar o contato com a água de inundações, medida impossível para boa parte da população do RS.

O consumo de água potável é fundamental para preservar a saúde das populações atingidas, mas a região está com dificuldade de acesso à água: no momento, 70% da população de Porto Alegre está sob racionamento de água, e as imagens de pessoas em filas para obter água são frequentes em vários municípios.

Diante dessa situação, é até difícil falar em prevenção de doenças, já que ela necessariamente inclui o consumo de água potável. De toda forma, é importante que as pessoas fiquem atentas aos riscos a que estão sujeitas e tentem minimizá-los

As principais medidas para evitar as doenças que podem ser transmitidas pela água de enchentes são:

– Não tome água de enchente de jeito nenhum, mesmo que ela seja filtrada e fervida, e não use essa água para lavar alimentos, objetos e para higiene pessoal.

– Na ausência de água da rede de abastecimento local, filtre e desinfete a água disponível com solução de hipoclorito de sódio (água sanitária), com duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% por litro de água, e só a consuma após 30 minutos. Outro procedimento é filtrar e ferver a água por 5 minutos. Lembrando: a água utilizada não pode ser a água de enchente.

– Guarde os alimentos em lugares elevados, para mantê-los longe do alcance dos roedores, dos insetos e de outros animais, e para que a água da enchente e a lama não os alcancem.
Lave bem os alimentos in natura que sua família consumir com água corrente e água sanitária.

– Evite o contato com a água e a lama das enchentes, pois elas podem estar contaminadas. Se não for possível evitá-las, não fique muito tempo em contato com a água das enchentes e lave-se com água limpa e sabão assim que puder. Proteja as mãos e os pés com luvas e botas e, caso não os tenha, use sacos plásticos duplos.

– Não deixe que crianças brinquem nas águas da inundação.

– Não consuma água, alimentos e medicamentos que entraram em contato com as águas da inundação.

Essas recomendações valem sempre que houver risco de contato com água contaminada. São medidas que podem evitar doenças graves.

E lembre-se: se você se expôs à água de enchentes e tiver sintomas como mal-estar, febre, dor muscular, dor de cabeça, náusea, vômitos e diarreia, procure um serviço de saúde.

Ratos e baratas

Os alagamentos causados pelas chuvas e a cheia dos rios no Rio Grande do Sul fizeram surgir mais um problema desagradável para os moradores das cidades afetadas: a infestação de baratas e ratos.

Os relatos de infestação por esses animais começaram a surgir em Porto Alegre que foi bastante afetada pelas inundações.

Animais comumente encontrados em galerias de esgoto e áreas subterrâneas, seu aparecimento em massa é movido pelo instinto de sobrevivência. Segundo o biólogo César Favacho, mestre em Biodiversidade e Evolução, assim como os humanos, diante de uma enchente, esses animais procuram abrigo em lugares secos.

“Daí eles acabam indo para onde as pessoas também estão se abrigando, que são as partes mais secas, superiores, abrigadas da água. É aí que ocorre essa infestação, que, na verdade, é composta apenas dos bichos que já estavam lá, que muitas vezes estavam escondidos, começando a aparecer todos juntos, também procurando abrigo”, diz Favacho.

Existem cerca de 5.000 espécies de baratas no mundo, das quais 1.000 são brasileiras. As baratas urbanas correspondem a apenas 1% do total de espécies. Pertencentes à ordem Blattodea, são criaturas noturnas, habilidosas em se esconder e adaptáveis.

Com uma história que remonta a centenas de milhões de anos, esses artrópodes sobreviveram a cataclismos ecológicos que extinguiram outras espécies. No entanto, sua capacidade de resistência e adaptação também os torna uma presença constante na vida humana, especialmente em ambientes urbanos.

No caso da extinção dos dinossauros, uma série de fatores as ajudou a sobreviver. De acordo com o biólogo Brian Lovett, em artigo publicado no The Conversation, além de comer de tudo, a primeira característica fundamental para a sobrevivência é o corpo achatado, que permite ao bicho atravessar frestas diminutas e se manter em minibolsões isolados termicamente. Elas são muito eficazes para cavar, o que fez a diferença no calor daquela época.

O design vem de berço, já que até os ovos das baratas vêm embalados numa espécie de estojo, que protege a prole ainda por nascer de impactos, predadores, água, seca, temperaturas extremas etc.

Já os ratos são divididos em cerca de 2.000 espécies e apenas cerca de 50 delas são consideradas pragas urbanas, a maioria pertencente à família Muridae.

Os ratos urbanos, conhecidos cientificamente como Rattus norvegicus e Rattus rattus, são mestres na arte da adaptação. Originários da Ásia, esses roedores migraram para todos os cantos do globo, encontrando em ambientes urbanos o cenário ideal para prosperar.

Com hábitos noturnos e uma dieta variada que inclui restos de comida, lixo e até mesmo materiais de construção, esses roedores rapidamente se estabeleceram como habitantes indesejados das cidades modernas.

De acordo com uma pesquisa da Universidade de Sussex, na Inglaterra, existem cerca de 500 baratas por habitante no mundo. No entanto, as baratas urbanas podem ter uma densidade populacional ainda mais elevada, com mil baratas escondidas para cada uma encontrada.

Com relação aos ratos, não há no Brasil estimativas oficiais. Porém, um estudo conduzido em 2015 por pesquisadores da Universidade de Columbia, nos EUA, estimou que uma cidade como Nova York, por exemplo, abriga uma população de ratos em torno de 8 milhões, ou seja, um por habitante.

Medo atávico

O medo que sentimos desses animais, explica Favacho, é atávico. Ou seja, passado para nós de forma hereditária, por nossos ancestrais.

Os ratos, por exemplo, são conhecidos hospedeiros de pragas, como a peste bubônica, a hantavirose e a leptospirose.

Já as baratas são temidos vetores de hepatite A, febre tifoide, hanseníase, tuberculose, poliomielite, parasitoses, meningite e pneumonia, entre outras doenças.

“As baratas são vetores mecânicos, vetores físicos. Elas ficam andando por locais sujos e os microrganismos acabam grudando no corpo delas e elas os transportam mecanicamente de um lado para o outro. Por isso as infestações em enchentes são uma calamidade total para todo mundo, na verdade”, afirma César Favacho.

Outros animais também são resistentes e conseguem se safar. Favacho lembra, ainda, que não são apenas ratos e baratas que podem surgir em calamidades como a ocorrida no Rio Grande do Sul. Ele cita ainda outros animais, como aranhas, lacraias, escorpiões e até cobras, que podem sair de seus esconderijos em busca de segurança. “Todos os animais que não respiram embaixo d’água vão começar a aparecer”, afirma.


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