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Saúde
Com surtos crescentes, país reforça vacinação e vigilância
Publicado em 09/09/2025 2:14 - Semana On
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Um surto global de sarampo reacende alerta no Brasil, que já registra casos importados e vê risco de reintrodução do vírus em áreas vulneráveis. O país reforça estratégias de imunização e vigilância, mas enfrenta o desafio de manter alta cobertura vacinal em meio à hesitação da população.
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O sarampo voltou a preocupar autoridades sanitárias brasileiras. Com 10.139 casos e 18 mortes registrados nas Américas até agosto, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o vírus altamente contagioso ameaça se espalhar por fronteiras frágeis e sistemas de saúde ainda impactados pela pandemia. Embora o Brasil tenha reconquistado, em novembro de 2024, o certificado de eliminação da doença — perdido em 2019 —, 23 casos importados foram identificados em 2025, evidenciando a vulnerabilidade diante do avanço da doença em países vizinhos.
Os casos registrados no Brasil este ano ocorreram no Distrito Federal (1), Rio de Janeiro (2), São Paulo (1), Rio Grande do Sul (1) e, principalmente, no Tocantins (18). Neste último, o surto teve início em Campos Lindos, após uma família retornar da Bolívia, país que já soma 229 casos. A transmissão se intensificou entre membros de uma comunidade adepta a práticas naturais, com alta taxa de não vacinados — um cenário que evidencia os riscos da baixa cobertura vacinal.
“Tem risco enorme de o vírus entrar no país. O que tem de fazer é bloqueio, boa investigação para reconhecer casos precocemente e fazer com que casos importados não gerem circulação no Brasil”, alerta a infectologista Rosana Richtmann, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
América em alerta
Os surtos atuais representam um salto de 34 vezes em relação ao mesmo período de 2024, e a situação mais crítica concentra-se em Canadá, México e Estados Unidos, que juntos respondem por 9.815 casos e todas as mortes notificadas. Segundo a Opas, 71% das infecções ocorreram entre pessoas não vacinadas — reflexo direto da hesitação vacinal e da desinformação, intensificadas nos últimos anos.
Para o pesquisador Ramon Saavedra, do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, o sarampo é uma das doenças mais contagiosas conhecidas: “Uma pessoa pode transmitir rapidamente para 12 a 18 pessoas. A maioria das doenças infecciosas oscila entre dois e três.”
Esse potencial de transmissão torna o sarampo um marcador sensível da fragilidade nos sistemas de imunização. A pandemia de covid-19 agravou a situação, desviando recursos e interrompendo campanhas de vacinação. Países de menor renda per capita não conseguiram se reestruturar com rapidez, o que explica a reintrodução da doença em regiões onde ela já havia sido eliminada.
“Quando países são impactados por epidemias ou pandemias, têm uma falha do sistema de saúde”, explica Marilda Siqueira, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). “Doenças como o sarampo, que estavam eliminadas, estão ressurgindo e impactando diferentes níveis de saúde.”
Brasil em defesa do território
Diante do avanço da doença, o Ministério da Saúde intensificou ações de vacinação e vigilância em regiões de maior risco, especialmente no Tocantins, Maranhão, Acre, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e nos estados do Sul com fronteira com a Argentina. Também a região metropolitana de Belém foi incluída, em razão da preparação para a COP-30.
A vacinação segue estratégia de microplanejamento, com equipes atuando em setores específicos da população.
“A gente foi vacinando o setor hoteleiro, depois o comércio, depois taxistas e motoristas de aplicativos”, detalha Éder Gatti, diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI).
A pasta também autorizou a aplicação da chamada “dose zero” para crianças a partir de seis meses, faixa etária ainda fora do calendário regular, mas que passa a ser contemplada em cenários de surto. A imunização obrigatória segue aos 12 e 15 meses de idade.
Além disso, o Brasil doou 600 mil doses de vacina para a Bolívia, numa ação coordenada com a Opas, como tentativa de conter a propagação regional do vírus.
O desafio permanente
O Brasil reconquistou o certificado de eliminação do sarampo após atingir, em 2024, a meta de 95% de cobertura vacinal pela primeira vez desde 2016. Mas o maior desafio é manter esse patamar de forma contínua e homogênea. Para isso, o governo retomou ações de vacinação em escolas e iniciativas como a oferta de vacinas em estações de metrô, como ocorreu no Rio de Janeiro.
A pesquisadora Marilda Siqueira defende que é preciso investir em comunicação pública e melhorar o treinamento dos profissionais de saúde: “Esse pessoal precisa ser treinado constantemente. Há mudança frequente nas equipes das unidades básicas, e nem todos estão preparados.”
Outro fator crítico é a resistência vacinal alimentada por desinformação. Muitos pais, que cresceram em uma geração sem contato direto com doenças eliminadas, como a poliomielite, duvidam da necessidade das vacinas, reforçando um ciclo perigoso de negligência.
“O programa de imunização sofre as consequências do seu próprio êxito”, resume Gatti.
Última barreira
O controle do sarampo depende de uma resposta ágil. Febre alta, manchas vermelhas na pele, conjuntivite, tosse seca e mal-estar são sinais clínicos que devem ser imediatamente associados a ações de bloqueio vacinal, mesmo antes da confirmação laboratorial. Todos os brasileiros entre 12 meses e 59 anos de idade têm direito à vacina.
Segundo Ramon Saavedra, há tempo para evitar a reintrodução do vírus, desde que o esforço seja coordenado: “Analisando a linha do tempo pré-pandemia, pandemia e pós-pandemia, vemos um movimento de recuperação da cobertura vacinal. Mas precisa haver corresponsabilidade entre Ministério da Saúde, estados, municípios e sociedade civil.”
Além da cobertura ampla, ela precisa ser homogênea: grandes centros urbanos, áreas rurais e aldeias indígenas exigem estratégias diferenciadas, com atuação local e sensível às realidades de cada território.
Termômetro da saúde pública
A ameaça do sarampo funciona como alerta sobre a fragilidade de sistemas de saúde pública e da confiança coletiva na ciência. A vigilância precisa ser constante, e a vacinação, tratada como bem público essencial.
“Mesmo durante o período de negacionismo, as equipes à frente dos programas continuaram super comprometidas”, lembra Siqueira. “Para termos recebido o certificado no ano passado, mostramos que as equipes estavam atentas e trabalhando.”
O Brasil conseguiu eliminar o sarampo uma vez. Resta agora a tarefa mais difícil: evitar que ele volte a circular livremente em solo nacional.
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