Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
Em conversa com Lula, Xi Jinping declara apoio à soberania brasileira
Publicado em 12/08/2025 11:58 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O cancelamento da reunião entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, não é apenas um contratempo diplomático: é a confirmação de que a política comercial de Donald Trump em relação ao Brasil tem viés abertamente político. A decisão, tomada após declarações públicas do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) contra o encontro, expõe a interferência direta de atores da extrema direita brasileira na política externa de outro país, com prejuízos concretos para a economia nacional.
Segundo Haddad, a reunião — que teria como pauta as tarifas impostas aos produtos brasileiros — foi desmarcada por e-mail, sob o pretexto de “falta de agenda”, mas sem nova data prevista. O ministro atribui a decisão à “militância diplomática das forças de extrema direita”, citando nominalmente Eduardo Bolsonaro e o comentarista Paulo Figueiredo, que teriam atuado junto a autoridades americanas para inviabilizar o diálogo. Ambos negam, mas, nos bastidores, interlocutores confirmam que o gesto foi calculado para enviar um recado político: Trump não pretende negociar diretamente com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
O episódio remete a um padrão histórico: a sabotagem interna de interesses nacionais com alinhamento a potências estrangeiras. O caso mais emblemático ocorreu em 1964, quando o golpe militar brasileiro recebeu apoio direto de Washington, conforme registrado em documentos desclassificados do Departamento de Estado dos EUA. Hoje, a tática é menos militar e mais diplomática — mas não menos eficaz em minar a soberania do país. Como afirmou o cientista político Moniz Bandeira em A Segunda Guerra Fria (Civilização Brasileira, 2013), “as alianças de elites nacionais com potências estrangeiras sempre foram um vetor de erosão da autonomia política e econômica de países periféricos”.
O ex-secretário de Comércio, Welber Barral, lamentou a ruptura do canal de diálogo, lembrando que Bessent é um dos poucos assessores capazes de influenciar Trump em temas de comércio. Para Barral, a decisão é mais um sinal de que o Brasil não está na lista de prioridades da Casa Branca, que hoje concentra esforços no México, China e Canadá — nações diretamente atreladas ao comércio norte-americano pelo acordo USMCA.
O contraste é evidente: enquanto o Brasil enfrenta tarifas de 50% sobre produtos estratégicos, a China — que na teoria é o principal adversário geopolítico dos EUA — acaba de receber mais 90 dias de trégua na guerra comercial. A disparidade evidencia que a política de Trump não é movida apenas por interesses econômicos, mas por cálculos geopolíticos e ideológicos.
Internamente, o governo Lula tenta reagir. Entre as medidas estudadas estão linhas de crédito emergenciais, adiamento de impostos, manutenção de empregos e compras governamentais de produtos agrícolas — um pacote que remete às ações anticíclicas da crise de 2008, quando países adotaram políticas de socorro para evitar recessões prolongadas.
Mas a diferença crucial, agora, é que parte da crise é fabricada dentro de casa. E, como demonstra a história, quando setores políticos brasileiros trabalham para enfraquecer o país em nome de alianças externas, o preço é pago não apenas em pontos percentuais do PIB, mas na própria capacidade de o Brasil se posicionar como ator soberano no sistema internacional.
Em conversa com Lula, Xi Jinping declara apoio à soberania brasileira
O presidente Lula conversou por telefone com o presidente da China, Xi Jinping, na noite de ontem (11), por cerca de uma hora. Segundo o Palácio do Planalto, a conversa foi marcada por temas estratégicos da relação bilateral e pela troca de visões sobre a conjuntura internacional. O diálogo foi solicitado pelo líder brasileiro.
De acordo com o relato chinês, divulgado pela rede estatal CCTV e pela agência Xinhua, Xi afirmou que “a China está pronta para trabalhar com o Brasil para estabelecer um exemplo de unidade e autossuficiência entre os principais países do Sul Global”. Ele também declarou que “a China apoia o povo brasileiro na defesa de sua soberania nacional e apoia o Brasil na salvaguarda de seus direitos e interesses legítimos, exortando todos os países a se unirem na luta decidida contra o unilateralismo e o protecionismo”.
Brics e conjuntura internacional
O comunicado brasileiro destacou que a conversa abordou temas como Brics e oportunidades de negócios. Xi definiu o bloco como “plataforma-chave para construir consenso no Sul Global” e defendeu que os países do grupo atuem juntos para proteger “os direitos e interesses legítimos dos países em desenvolvimento”.
Lula relatou que “trocamos impressões sobre a atual conjuntura internacional e os recentes esforços pela paz entre Rússia e Ucrânia. Concordamos sobre o papel do G20 e do Brics na defesa do multilateralismo”. Ele também apontou a importância do grupo Amigos da Paz para buscar soluções políticas para o conflito.
COP 30 no centro da pauta ambiental
A questão climática foi outro destaque da ligação. “Reiterei a importância que a China terá para o sucesso da COP 30 e no combate à mudança do clima”, afirmou Lula nas redes. Xi Jinping respondeu que enviará a Belém, sede do evento em 2025, uma delegação de alto nível e trabalhará ao lado do Brasil para garantir o êxito da conferência.
Para o governo brasileiro, o encontro é uma oportunidade estratégica para firmar compromissos ambientais e ampliar investimentos em tecnologias limpas. O líder chinês reforçou que o seu país pretende construir, junto com o Brasil, “um mundo mais justo e um planeta mais sustentável”.
Cooperação econômica e tecnológica
O diálogo também reforçou o interesse em ampliar a parceria estratégica. Lula afirmou que ambos saudaram “os avanços já alcançados no âmbito das sinergias entre os programas nacionais de desenvolvimento dos dois países” e se comprometeram a expandir a cooperação para setores como saúde, petróleo e gás, economia digital e satélites.
Xi destacou que “as relações entre a China e o Brasil estão em seu melhor momento na história” e que o alinhamento das estratégias de desenvolvimento avança “de forma fluida”. Segundo ele, “o lado chinês está pronto para trabalhar com o Brasil para aproveitar oportunidades, fortalecer a coordenação e proporcionar mais resultados mutuamente benéficos de cooperação”.
A conversa ocorre em um cenário de disputas comerciais e realinhamentos estratégicos, no qual Brasil e China buscam reforçar a cooperação Sul-Sul. Embora não haja confirmação sobre debates envolvendo a recente escalada tarifária dos Estados Unidos contra países do Brics ou o pedido do ex-presidente Donald Trump para que a China aumente a compra de soja americana, o tom da ligação evidenciou sintonia em defesa do multilateralismo e de interesses comuns no comércio internacional.
Veja a íntegra do relato da conversa feito pela agência oficial chinesa, Xinhua:
“Xi diz que China e Brasil podem dar exemplo de unidade e autossuficiência no Sul Global
Beijing, 12 ago (Xinhua) — O presidente chinês, Xi Jinping, disse nesta terça-feira que a China está disposta a trabalhar com o Brasil para estabelecer um exemplo de unidade e autossuficiência entre os principais países do Sul Global e construir conjuntamente um mundo mais justo e um planeta mais sustentável.
Xi fez as declarações durante uma conversa telefônica com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
As relações entre China e Brasil estão em seu melhor momento na história, com a construção de uma comunidade China-Brasil de um futuro compartilhado e o alinhamento das estratégias de desenvolvimento dos dois países começando bem e progredindo de forma fluida, afirmou Xi.
O presidente chinês acrescentou que a China está disposta a trabalhar com o Brasil para aproveitar oportunidades, fortalecer a coordenação e alcançar mais resultados de cooperação mutuamente benéfica.
Xi disse ainda que a China apoia o povo brasileiro na defesa de sua soberania nacional e apoia o Brasil na salvaguarda de seus direitos e interesses legítimos, e conclamou todos os países a se unirem e se oporem resolutamente ao unilateralismo e ao protecionismo.
Xi destacou que o mecanismo do Brics é uma plataforma-chave para a construção de consenso no Sul Global e parabenizou o Brasil por sediar com êxito a cúpula do BRICS realizada recentemente.
Xi apelou aos países do Sul Global que salvaguardem conjuntamente a equidade e a justiça na comunidade internacional, defendam as normas básicas que regem as relações internacionais e protejam os direitos e interesses legítimos dos países em desenvolvimento.
A China e o Brasil devem continuar a enfrentar os desafios globais, garantir o sucesso da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que se realizará na cidade de Belém, Brasil, e devem promover o papel do grupo “Amigos da Paz” na promoção de uma solução política para a crise ucraniana, segundo Xi.
Lula, por sua vez, disse que o Brasil atribui grande importância às relações com a China e espera fortalecer a cooperação com a China, aprofundar o alinhamento estratégico e promover um maior desenvolvimento das relações bilaterais.
Ele informou Xi sobre a situação atual das relações entre o Brasil e os EUA e a posição de princípio inabalável do Brasil na salvaguarda de sua soberania.
Lula elogiou os esforços chineses para aderir ao multilateralismo e salvaguardar as regras do livre comércio, bem como seu papel responsável nos assuntos internacionais.
O Brasil está disposto a reforçar a comunicação e a coordenação com a China em mecanismos multilaterais como o Brics, opor-se à bullying unilateral e salvaguardar os interesses comuns de todos os países, de acordo com o presidente brasileiro.”
49% dos brasileiros defendem retaliação a tarifaço de Trump
Pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada nesta terça-feira (12), mostra que 49% dos brasileiros defendem que o Brasil deve responder ao tarifaço imposto pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a aplicação de tarifas elevadas sobre produtos norte-americanos. Por outro lado, 43% são contrários a essa abordagem.
A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi realizado entre os dias 1º e 5 de agosto, com 2.000 entrevistas em 132 cidades, um dia antes da entrada em vigor do tarifaço.
A pesquisa Ipsos-Ipec mostra a seguinte distribuição:
Entre os grupos mais favoráveis à retaliação estão os eleitores de Lula (61%), moradores do Norte e Centro-Oeste (58%), jovens entre 16 e 24 anos (55%), pessoas com ensino superior (53%), mulheres (51%), católicos (51%) e famílias com renda de 1 a 2 salários mínimos (50%).
Os mais contrários à medida concentram-se entre eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro (56%), residentes no Sul (52%), moradores da periferia (52%) e evangélicos (50%).
Tarifaço é visto como movimento político, diz maioria
A pesquisa também revela um amplo entendimento da sociedade sobre as motivações do governo norte-americano. A percepção dos brasileiros sobre a motivação do tarifaço ficou assim dividida:
A visão política é predominante entre pessoas com 45 a 59 anos (80%), moradores do Nordeste e Sudeste (77%), católicos (76%) e evangélicos (74%). A percepção também é majoritária em todas as faixas de renda, inclusive entre os que ganham acima de 5 salários mínimos (70%).
Imagem dos EUA sofre desgaste entre os brasileiros
A crise comercial impactou negativamente a percepção da população brasileira sobre os Estados Unidos:
Apoio à diversificação de parceiros comerciais
A pesquisa também mediu o apoio a uma possível reorientação da política comercial brasileira. A maior parte dos entrevistados — 68% — acredita que o Brasil deve priorizar acordos com parceiros como China e União Europeia, em vez de depender dos Estados Unidos.
Em resposta à pergunta: “O Brasil deveria priorizar acordos com outros parceiros comerciais, como a China e a União Europeia?”, as respostas foram as seguintes:
Isolamento internacional preocupa maioria da população
O levantamento também revela que 60% dos brasileiros temem que a crise com os EUA possa isolar o país no cenário internacional.
Em resposta à pergunta: “A situação de embate com os Estados Unidos pode deixar o Brasil mais isolado no cenário internacional?”, as respostas se dividiram da seguinte forma:
Governo estuda medidas de reciprocidade contra os EUA
A repercussão pública reforçou o debate interno no governo sobre a aplicação da Lei de Reciprocidade, recentemente aprovada pelo Congresso e regulamentada logo após o anúncio da tarifa americana.
O Palácio do Planalto, segundo fontes ouvidas pelo blog da jornalista Ana Flor, no g1, já solicitou aos ministérios das Relações Exteriores, da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a análise de ações específicas, com foco em setores como óleo e gás, farmacêutico e agrícola.
A orientação do presidente Lula (PT) é não adotar retaliações generalizadas, mas estudar medidas pontuais. Uma das propostas discutidas foi a suspensão de direitos de propriedade intelectual, como a quebra de patentes de medicamentos e defensivos agrícolas — ideia que, segundo o ministro da Saúde, ainda não tem aval do governo.
Internamente, a discussão divide setores produtivos. Empresários temem impactos sobre o custo de insumos importados dos EUA e o desgaste nas relações comerciais. Há ainda receios de que uma resposta direta possa dificultar a retomada de negociações diplomáticas para reverter o tarifaço.
Brasil leva tarifaço de Trump à OMC e denuncia uso político das sanções
O governo brasileiro formalizou uma queixa à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais, acusando a administração Donald Trump de violar regras internacionais e usar medidas comerciais como retaliação política. O documento, divulgado nesta terça-feira, circulou entre os governos de todo o mundo e expõe, de forma direta, que as razões apresentadas por Washington extrapolam o campo econômico e entram no terreno da disputa ideológica.
A queixa recorda que, em 9 de julho, Trump enviou carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva informando sobre as novas tarifas, com início em 1º de agosto. No texto, o republicano cita como justificativas o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), supostos “ataques” às eleições livres e restrições à liberdade de expressão nos EUA, exemplificadas pelas ordens do STF contra empresas americanas de mídia social. Também afirma, de forma incorreta segundo o Itamaraty, que o Brasil mantém “déficits comerciais” com os EUA — quando, na realidade, o saldo é favorável a Washington.
Em 15 de julho, o escritório comercial dos EUA (USTR) abriu investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio, alegando “práticas comerciais desleais” e supostos prejuízos a empresas, agricultores e trabalhadores americanos. Duas semanas depois, em 30 de julho, Trump assinou uma ordem executiva declarando “emergência nacional” frente às ações do governo brasileiro, impondo um adicional de 40% de tarifa a determinados produtos, somando-se à alíquota já existente e totalizando 50%.
O Itamaraty afirma que as medidas infringem diretamente o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) de 1994. Entre as violações citadas:
– Descumprimento do Artigo I:1, por não estender ao Brasil as mesmas vantagens concedidas a outros parceiros comerciais isentos do tarifaço.
– Violação do Artigo II:1(b), ao impor tarifas acima das taxas consolidadas na Lista de Concessões dos EUA.
– Incompatibilidade com o Artigo II:1(a), por não oferecer ao comércio brasileiro tratamento igual ao previsto no GATT.
– Desrespeito aos Artigos 23.1 e 23.2(a) do sistema de solução de disputas da OMC, por buscar “reparação” via tarifas, sem seguir os procedimentos multilaterais de resolução de controvérsias.
A acusação de “instrumentalização política do comércio” feita pelo Brasil não é isolada no histórico das relações EUA-América Latina. Durante a Guerra Fria, Washington frequentemente utilizou sanções econômicas e restrições comerciais como ferramentas de pressão ideológica, a exemplo do embargo a Cuba a partir de 1962 e das retaliações a governos alinhados a políticas nacionalistas. Para o professor de relações internacionais Amado Cervo, “as medidas coercitivas unilaterais, quando não baseadas em consenso multilateral, enfraquecem o próprio sistema internacional que os Estados Unidos ajudaram a criar” (Relações Internacionais da América Latina, Saraiva, 2001).
O documento do Itamaraty encerra afirmando que o Brasil “reserva-se o direito” de ampliar a queixa, adicionando novas alegações e medidas contestadas ao longo das consultas, cujo agendamento ainda depende de um acordo com Washington. Nos bastidores, diplomatas brasileiros avaliam que o processo na OMC pode se arrastar por anos — e que, até lá, os efeitos econômicos e políticos do tarifaço tendem a se aprofundar, especialmente no agronegócio e na indústria de base.
BRASIL mostra tua cara,fora EUA,governo livre soberano.