25/05/2024 - Edição 540

Poder

Para ser considerada democrática, a direita não pode ser bolsonarista

Apesar do esforço da imprensa hegemônica em limpar a imagem do governador Tarcísio de Freitas, o bolsonarismo é inseparável do extremismo político e do atraso civilizatório

Publicado em 09/05/2024 9:49 - João Filho (The Intercept_Brasil), Xico Sá (ICL Notícias), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação

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Enquanto parte da imprensa está à procura de bolsonaristas moderados, Eduardo Bolsonaro foi à Alemanha se encontrar com uma liderança de um partido neonazista, o Alternativa para a Alemanha, AfD na sigla em alemão, que é neta de um ministro de Hitler.

Quantos candidatos a ‘bolsonaristas moderados’ repreenderam o encontro do filho do ex-presidente com a deputada neonazista? Nenhum, claro, porque eles simplesmente não existem. É triste ter que falar uma obviedade dessas, mas vivemos tempos em que o óbvio precisa ser dito.

O bolsonarismo é antidemocrático, golpista e fascistoide por essência. Para fazer parte dessa gangue ideológica é necessário que se esteja de acordo com essas características fundamentais. Para fazer parte da extrema direita bolsonarista deve-se necessariamente abraçar o combo completo.

Nunca se viu um bolsonarista se colocar contra as ameaças golpistas do mito, até porque ele nem existiria se não fosse o golpismo. Bolsonaro é filho do golpe de 64 e ganhou fama atacando a democracia e defendendo o regime militar.

Como alguém que cultua sua figura e se alinha politicamente a ele poderia apresentar algum traço democrático? É ingênuo, para não dizer ridículo, que alguém nutra essa esperança.

Pelo o que se vê na imprensa, Tarcísio é o principal candidato ao cargo fictício de bolsonarista moderado. Ele seria um homem de perfil técnico, pragmático e não ideológico. Sim, essa figura obscura que integrou um governo que passou os quatro anos ameaçando de forma permanente a democracia.

Jamais se viu uma fala contrária de Tarcísio às movimentações golpistas do presidente. Tarcísio assistiu, caladinho, aos ataques contra as urnas eletrônicas, ao negacionismo assassino durante a pandemia, às Forças Armadas protegendo golpistas nos quartéis e a uma infinidade de atrocidades cometidas contra a democracia.

Apesar de não ter atuado na linha de frente do golpismo, este bolsonarista moderado sempre esteve junto e dando apoio moral para todos os absurdos. Depois de eleito governador do estado mais rico do país, continuou sendo um dos bolsonaristas mais fiéis a Bolsonaro e faz questão de deixar isso claro a todo momento.

Na última manifestação convocada por Bolsonaro em São Paulo para intimidar o Supremo Tribunal Federal, o governador fez questão de discursar e animar os golpistas: ‘Eu tenho certeza que vocês estavam com saudades de vestir verde e amarelo. Quem estava com saudades aí?’.

Este bolsonarista moderado não é apenas um animador de festa da manada golpista, mas um governador que aplaude a carnificina criminosa liderada pela Polícia Militar nas periferias do estado. Eis o homem de perfil técnico e moderado. Para ser um bolsonarista é preciso cultuar a figura de Bolsonaro. E isso Tarcísio faz com louvor, já que é ele quem o sustenta eleitoralmente.

É verdade que o bolsonarismo hoje é uma das principais forças políticas e populares do país e está legitimada dentro da democracia brasileira, por mais que isso soe contraditório. Não se discute com as urnas.

Não há nada o que os democratas possam fazer além de esperar que o golpismo dos bolsonaristas legitimamente eleitos seja enquadrado pela lei. Os democratas temos de aceitar essa nova configuração da democracia brasileira. Mas não sejamos ingênuos: não há a menor possibilidade do bolsonarismo parir políticos moderados e democráticos.

A força eleitoral da chamada direita moderada foi quase que completamente herdada pelo bolsonarismo. Hoje, os principais políticos de direita que não foram cooptados pelo bolsonarismo fazem parte do governo Lula.

Goste-se ou não, o atual governo é fruto de uma frente ampla composta por gente de esquerda, centro-esquerda, direita e centro-direita. Essa coalizão foi formada para barrar a continuidade do bolsonarismo no poder. A direita democrática e antibolsonarista é composta por políticos como Geraldo Alckmin e Simone Tebet.

Se o que se busca são novos nomes que representem uma direita civilizada e democrática, é dentro desse grupo que deve-se procurar. Acreditar na possibilidade de um bolsonarismo light, zero açúcar ou glúten free revela uma incompreensão de conceitos políticos básicos ou, na melhor das hipóteses, uma ingenuidade que beira o ridículo depois de tudo o que passamos nos últimos anos.

Mas deixemos um pouco o delírio do bolsonarismo moderado e voltemos à realidade: o intercâmbio entre bolsonaristas e os neonazistas da Alemanha. Sim, a AfD, liderada pela amiga da família Bolsonaro, é um partido neonazista.

Não se trata de opinião, mas de mera constatação dos fatos. O partido não se classifica como neonazista porque isso é crime na Alemanha, mas eles são os legítimos herdeiros do regime de Hitler. Apesar de estarem escamoteados, não há qualquer dúvida sobre isso entre os alemães.

A AfD está sendo investigada por associação ao nazismo depois que uma reportagem revelou uma reunião secreta entre suas lideranças e grupos neonazistas na Alemanha. No encontro, o líder neonazista Martin Sellner apresentou um plano de deportação de milhões de refugiados políticos, cidadãos estrangeiros com visto de residência e cidadãos alemães descendentes de imigrantes.

Entenderam o tamanho do buraco? Os aliados políticos do bolsonarismo planejaram expulsar do país cidadãos alemães que não são arianos. O plano era enviar essas pessoas para a África, remontando à ideia do regime nazista de enviar judeus para Madagascar. É com esse tipo de gente que o bosonarismo mantém relações políticas.

Assim como o bolsonarismo, a AfD cresceu vertiginosamente nos últimos anos e se consolidou como força política da Alemanha. Hoje, o partido conta com 13% dos assentos no parlamento e lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições estaduais deste ano.

Mas, diferente do Brasil, lá não se discute a necessidade de se encontrar ‘neonazistas moderados’. Não, o que tem se debatido por lá é a extinção do partido para a preservação da democracia.

O que é “bolsonarismo moderado” e quem melhor o representa hoje

A resposta é não. Não é possível contarmos com um “bolsonarismo moderado” que respeite os direitos humanos e seja devoto confesso da democracia tal como ela foi concebida, não necessariamente como se apresenta em grande parte do mundo. É possível, sim, contarmos com a direita, o centro e a esquerda não extremistas.

O bolsonarismo, como vimos nos últimos quatro anos de um presidente acidental, alimenta-se do ódio e da violência, não ama a vida a não ser dos que se identificam com ele, despreza os pobres, aprofunda as desigualdades e defende a derrubada do que chama de “sistema” para pôr no lugar o que de fato lhe interessa – um regime autoritário.

Sem mais, Bolsonaro sempre defendeu a tortura e a ditadura militar de 64 da qual se sente órfão. Os ditos liberais que o serviram no governo e no Congresso podem não ter tido a coragem de defender a tortura e a ditadura com o desassombro que ele fez, mas sabiam perfeitamente a quem serviam, e para o quê.

Uma pequena amostra disso foi dada em julho de 2022, a menos de três meses do primeiro turno das eleições daquele ano, quando Bolsonaro reuniu seus ministros no Palácio do Planalto para dizer que seria derrotado se nada de extraordinário acontecesse antes. Era a proposta de golpe oferecida sem nenhum disfarce.

Quantos ali descartaram a proposta sem hesitar? Quantos se levantaram de suas cadeiras, foram embora e em seguida pediram demissão? Nenhum. Passado o susto inicial, todos concordaram ou não ousaram discordar. A reunião foi adiante como se nada de anormal estivesse em pauta. Quem ali não estava, ficou sabendo depois.

Ocorre que a direita dita civilizada e democrática há muito tempo carece de votos para eleger seus representantes. Votou em Bolsonaro porque quis acreditar que poderia cavalgá-lo, e que mais tarde o domaria. Não lhe restava outro caminho para impedir mais uma vitória das forças da esquerda, apesar de Lula estar preso.

Resultado: não o cavalgou, muito menos domou. E por muito pouco, Bolsonaro não se reelegeu. Sem votos, outra vez a direita precisa dele para colapsar o atual governo e barrar sua continuidade em 2026. Bolsonaro está inelegível por oito anos. Certamente será condenado e preso. Mas, dentro da prisão, poderá ainda ser muito útil.

Daí a construção do “bolsonarismo moderado”, uma contradição em termos para enganar os mais desatentos ou os que votam em quem seu senhorio manda. Bolsonaro está para essa direita como os militares, no passado, estiveram para a velha UDN; ela, também sem votos, apelava sucessivamente para golpes.

Apoiou o golpe militar que acabou em 1945 com a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, que chegara ao poder em 1930 na crista de um golpe militar. Apoiou em 1954 o golpe que só não derrubou Getúlio eleito pelo voto popular porque Getúlio matou-se. Tudo fez para que Juscelino Kubitschek não tomasse posse em 1956.

Jânio Quadros, um populista de porre, foi invenção da direita que se elegeu em 1960, mas que renunciou seis meses depois pensando em voltar nos braços do povo e com um Congresso enfraquecido. João Goulart, o vice que assumiu o lugar de Jânio, era indigesto para a direita que, para livrar-se dele, apoiou o golpe de 64.

A direita, sob a democracia, só voltou a provar o gostinho da vitória em 1989, ao eleger presidente um falso brilhante, Fernando Collor. Acusado de corrupção, Collor terminou cassado. Os arautos do bolsonarismo moderado sonham com outro falso brilhante, Tarcísio de Freitas, descrito por Bolsonaro como “uma pessoa fantástica”.

Sim, é o mesmo Tarcísio, governador de São Paulo, que descreve o padrinho como um estadista que “garantiu a segurança do campo”; o mesmo que loteou o governo entre militares, entregou o comando das polícias para a bancada da bala e cunhou a frase que marcará para sempre sua administração: “O pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça ou no raio que o parta, que eu não tô nem aí”.

Sem máscara, o “bolsonarismo moderado” é isso aí.

Mídia hereditária larga 3ª via e adota ‘bolsonarismo moderado’

Nunca a mídia hereditária (também conhecida como imprensa tradicional ou hegemônica) adotou tão cedo um candidato à Presidência da República, como faz no momento com o militar (capitão do Exército) bolsonarista Tarcísio de Freitas.

Agora não tem mais essa de ficar à espera da Terceira Via, uma espécie de milagre de Fátima que não veio em 2018 e muito menos em 2022.

Essa é a grande novidade, o resto é meme.

O negócio é ir direto ao ponto, sem disfarce, e tentar vestir um modelito de “moderado” no carioca neo-bandeirante que comanda São Paulo com o martelo das privatizações em uma mão e um fuzil na outra — número de pessoas mortas por PMs em SP cresce 138% em um ano.

A missão é vender até a água do Estado (a Sabesp será rifada em breve ao mercado financeiro) e eliminar “os suspeitos de sempre” para exibir à sociedade como atrativo eleitoral.  Sangue de pobre e preto dá voto no Brasil.

O “bolsonarismo moderado” é o oximoro da hora. É tendência, é moda & modinha outono-inverno na imprensa.

Oximoro, como se sabe, é a arte de juntar palavras de significados opostos, como morto-vivo, silêncio ensurdecedor, obscura claridade, etc. Bolsonarismo moderado, portanto, é o cúmulo dos oximoros.

O uso e abuso da expressão pela mídia, na tentativa de emplacar Tarcísio (Republicanos) para 2026, lembra o esforço da revista Veja e da Globo em tornar Fernando Collor, então governador de Alagoas, o “caçador de marajás”.

O lançamento do bolsonarismo moderado na mídia coincidiu com o grito de “Volta Bolsonaro”, puxado pelo governador carioca dos paulistas (outro oximoro), na Agrishow, uma festa do Agro realizada em Ribeirão Preto–SP.

Esperto, Tarcísio está de olho no legado eleitoral do ex-presidente, inelegível até 2030. Por precaução, nega em público que irá concorrer ao Palácio do Planalto. Uma candidatura lançada de forma tão precoce pelos barões da imprensa pode sofrer desgastes e não segurar a onda até 2026.

Outro detalhe histórico: os governadores de São Paulo, mesmo com boa aprovação provinciana e torcida midiática, não conseguiram triunfar contra candidatos petistas em eleições presidenciais — casos de José Serra e Geraldo Alckmin, o atual vice de Lula.

Os tucanos não conseguiram ir além das fronteiras estaduais. Ficaram apenas como ilustres desconhecidos em outras regiões do país. Ilustres desconhecidos, aliás, mais um ótimo exemplo de oximoro para finalizar o texto da semana. Até a próxima.

Seis lições de ouro para quem quiser praticar o ‘bolsonarismo moderado’

Diante da cada vez mais visível adesão da grande imprensa a uma possível candidatura do governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, à Presidência da República, é possível tirar algumas lições úteis para uma parte dos políticos brasileiros.

Agraciado com páginas e mais páginas de jornais que tentam descrevê-lo como alguém muito diferente de Jair Bolsibaro, seu mentor, Tarcisio pode servir de exemplo para quem quiser seguir a ideia de certo colunista da Folha de S. Paulo e trilhar pelo novo caminho do “bolsonarismo moderado”.

É preciso que cientistas políticos se debrucem sobre essa nova modalidade para saber como seria na prática. Genocídio pela metade? Golpe de Estado com pedido educado ao governante golpeado? Fake news dentro de regras pré-determinadas?

Antes que esse estudo mais aprofundado seja feito, a coluna se apressa a aconselhar os políticos de direita que não querem ser confundidos com seguidores de Jair Bolsonaro, mas que ao mesmo tempo não dispensam votos do eleitor bolsonarista.

Baseado no cotidiano do governador de São Paulo, aí vão seis regras de ouro que podem ajudar bastante o extremista de sapatênis:

Fale baixo – Um dos principais mandamentos do político moderado é nunca gritar. Os decibéis a mais — além dos perdigotos — foram os sinais mais visíveis de tosqueira de Jair Bolsonaro. Não caia nessa armadilha. Você pode falar as maiores barbaridades em voz baixa — como, por exemplo, o “Tô nem aí” de Tarcisio de Freitas diante de 56 mortes em operações da PM. Modulando a fala, terá boa chance de ser bem tratado pela grande imprensa e por seus pares.

Ao atacar a democracia, comporte-se como quem a defende – Esse é um mandamento que Jair Bolsonaro e seus parceiros seguiram até certa altura. Na reta final, rasgaram a fantasia. Evite estridências como campanhas contra o processo eleitoral ou perseguir adversários políticos pelas ruas, de pistola em punho. Quebrar vidraças e depredar prédios públicos em Brasília definitivamente também não é algo que pegue bem para um moderado.

Mantenha parceria com Kassab – Essa sugestão serve para qualquer matiz ideológico: se o político de esquerda quer ser visto como moderado, deve colar em Gilberto Kassab. O mesmo para o bolsonarista que quer se passar por light.

Aproxime-se e afaste-se de Bolsonaro – Volta e meia elogie Jair Bolsonaro (causando apreensão na direita de bons modos) e volta e meia discorde de Jair Bolsonaro (causando apreensão nos bolsonaristas). Apesar de alguns contratempos, vai acabar sendo cortejado pelos dois grupos.

Se tiver fala mansa, pode fazer o que quiser na segurança – Use o terno de uma boa marca, mantenha os gestos contidos, a oratória tranquila e pronto: você poderá fazer de tudo na área de segurança pública. Mesmo que diga estar “satisfeito” depois de uma ação policial que resultou em várias mortes ou que solte aquele “Tô nem aí” citado no começo do texto, vai continuar a ser tratado pela imprensa como moderado. Está liberado usar broche de lapela em forma de fuzil — dizem que combina muito bem com um Armani.

Não seja contido ao usar martelos – Um dos poucos momentos em que você tem que deixar de lado a moderação é ao dar a martelada final no processo de privatização de algum bem público. Se for bastante vigoroso, será tratado como o macho alfa entre os políticos liberais. No meio dessa turma, isso pega muito bem.


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