22/02/2024 - Edição 525

Poder

Para 80%, Lula acerta em repudiar chantagem da Faria Lima com juros exorbitantes

Em três meses de governo, aprovação do presidente é de 38% da população

Publicado em 03/04/2023 11:19 - Leonardo Sakamoto (UOL), RBA, Congresso em Foco, Agência Brasil – Edição Semana On

Divulgação aa

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Durante semanas, analistas e economistas disseram que o Brasil repudia as críticas públicas que Lula vem fazendo contra os juros altos mantidos pelo Banco Central. Agora, o Datafolha reforça que as fontes dos tais analistas e economistas para falar em nome do povo eram as vozes em suas cabeças. Ou seu desejo íntimo de que o país compartilhasse de suas crenças.

De acordo com o instituto, a esmagadora maioria da população (80%) apoia a pressão de Lula sobre o Banco Central pela redução dos juros, enquanto apenas 16% torcem o nariz para isso. E 71% acreditam que os juros estão mais altos do que deveriam, 17% dizem que estão adequados e 5%, mais baixos do que o necessário.

Aliás, onde vivem, o que comem e como se reproduzem esses 5%. Tá faltando um Globo Repórter sobre a Faria Lima.

Apesar de Lula alcançar seus maiores patamares entre aqueles que nele despejaram votos em peso (pobres, negros, poucos anos de estudo), as taxas de apoio a ele e repúdio aos juros são altas mesmo entre os que têm ensino superior, empresários e brancos. Ou entre os eleitores de Jair Bolsonaro.

Teremos gente dizendo que os entrevistados “não entenderam a pergunta da pesquisa” ou “não compreenderam o impacto negativo de suas opiniões” e que “trata-se de assunto complexo, distante da população”. O DNA dessas justificativas é o mesmo de “os brasileiros não sabem votar” ou ainda “o povo não sabe o que é melhor para eles”.

Em suma, o povo é burro e precisa ser tutelado. E a democracia, que dá à população o direito de fazer suas escolhas e arcar com as consequências, é algo superestimado. Ai, que saudades do Jair e do Guedes, não é mesmo?

Não à toa, há no mercado financeiro brasileiro quem ostenta um pôster de nu frontal do general Augusto Pinochet, ex-ditador do Chile, em seu quarto. O carniceiro entregou a economia a neoliberais, garantindo que críticas fossem caladas na base da tortura, do desaparecimento e do assassinato.

Nas últimas semanas, críticas à política de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central (que vem agindo como ator político e não técnico, chantageando o governo para que ele divulgasse novas regras fiscais, e que elas fossem do seu agrado) foram tratadas como coisa de ignorante por parte de autointitulados arautos da iluminação.

Apesar de existir na economia diferentes correntes de pensamento, apresentando diferentes maneiras de enfrentar um problema, os arautos bradavam que “ciência” era a deles. O resto, truque vagabundo de mágica. Ou seja, com inflação, subam-se os juros, ignorando que respostas podem ser mais complexas que isso.

Membros da mesma elite que vocifera contra o aumento do salário mínimo acima da inflação, dizendo que a economia não aguenta, são os que defendem os juros altos do Banco Central, justificando-se que é pelo bem dos mais pobres. Aliás, seria ótimo que jornalistas e consultores que vem chamando de burro quem pede juros menores colocassem ao final de suas análises um disclaimer informando quanto têm em suas carteiras de investimento. Só por transparência.

O Datafolha ajuda a restaurar um pouco as coisas. Claro que pesquisa não é urna, caso contrário não seriam necessárias eleições. Mas a quantidade robusta das críticas aos juros e ao Banco Central em ambas respostas deveria servir, pelo menos, para baixar a arrogância dos que se veem como o caminho, a verdade e a vida, falando em nome daqueles que não lhes deram mandato para tanto.

Isso vai mudar o comportamento de Roberto Campos Neto? Não. Mas ajuda a proteger a política de ser criminalizada e relativiza o discurso do pensamento econômico único, que conta com bastante espaço e afeto na mídia.

Lula erra e exagera em vários momentos, merecendo ser criticado por conta disso. Mas é ele e não a Faria Lima quem tem mandato para falar em nome da população. E pelos números apresentados pelo Datafolha, o seu silêncio diante dos juros escorchantes seria encarado como um estelionato eleitoral.

Redes engrossam coro contra os juros do Banco Central

A decisão do Banco Central de manter alta a taxa básica de juros, em 13,75%, foi alvo de críticas em “tuitaço” no sábado (1º). A posição do presidente do BC Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro, tem sido criticada pelo presidente Lula, ministros e até empresários. Entre eles, o de Portos e Aeroportos, Márcio França, a do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet,e o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macedo.

Para França, os juros altos dificultam acertos econômicos e a geração de empregos por meio de investimentos. Assim como ele, Tebet entende que a autoridade monetária vem ignorando os esforços do governo, como as novas regras fiscais. Já Macedo afirmou que a taxa de juros nas alturas “só serve aos especuladores”. “Nenhum país do mundo sobrevive a isso. Isso é um erro, essa é uma orientação política do presidente do Banco Central, que tem raízes e ligações profundas com o projeto conservador e autoritário que estava no poder nos últimos quatro anos. E isso nós precisamos enfrentar”, afirmou.

A insistência nos juros altos, defendidos pela imprensa comercial, “chega a ser revoltante”, escreveu uma internauta em sua conta no Twitter. “Pedir serenidade e paciência c/ os juros é demais enquanto a população se endivida e empresas passam por dificuldades. Não se olha o Brasil, só pro mercado financeiro”, completou.

Em três meses de governo, aprovação de Lula é de 38%

Concluídos três meses da sua posse, o presidente Lula tem aprovação no seu terceiro governo inferior à que experimentara nas duas vezes anteriores. De acordo com pesquisa do instituto Datafolha divulgada no sábado, Lula tem aprovação de 38% dos brasileiros, contra 29% que o desaprovam.

Os resultados são semelhantes aos registrados em 2019, após os três primeiros meses do governo do então presidente Jair Bolsonaro, igualando o pior desempenho de presidentes desde a redemocratização do país em 1985. Naquela ocasião, 30% apontavam o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo.

Em 2003, ao final do primeiro trimestre do seu primeiro governo, Lula tinha 43% de aprovação e apenas 10% de reprovação. Em 2007, o percentual de ótimo ou bom era ainda maior: 47%, contra 14% de ruim ou péssimo.

Comparando com outros presidentes ao final do primeiro trimestre, Fernando Henrique Cardoso teve 39% de aprovação em 1995, e Fernando Collor teve 36% em 1990.

O Datafolha ouviu 2.028 pessoas entre os dias 29 e 30 de março em 126 municípios. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais.

Papa diz que Lula foi condenado sem prova e Dilma é mulher exemplar

O papa Francisco disse, em entrevista ao canal de TV argentino C5N e veiculada na sexta-feira (31), que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado sem provas.

“O caminho é aberto com os meios de comunicação. Deve-se impedir que este chegue a tal posto. Então o desqualificam e metem sobre ele a suspeita de um delito. E fazem todo uma denúncia criminal, uma denúncia enorme, onde não se encontram [provas]. Mas para condená-lo basta mostrar o tamanho da denúncia. Onde está o delito? Aqui? Sim, parece que sim. Assim foi condenado Lula”, disse.

A entrevista foi gravada antes da internação do pontífice. Francisco foi internado nesta semana em um hospital em Roma, com quadro de bronquiolite viral. O papa teve alta no sábado (1º) e voltou ao Vaticano.

Na mesma entrevista, o papa afirmou que a ex-presidenta Dilma Rousseff sofreu o impeachment, mesmo sendo inocente. “O que aconteceu com Dilma? Uma mulher de mãos limpas, mulher excelente”, disse o pontífice, logo após falar sobre Lula.

Segundo ele, é preciso que a sociedade levante a voz e aponte as irregularidades em situações como essas. O pontífice disse ainda que os políticos têm uma missão de desmascarar uma “justiça que não é justa”. Para o papa, juízes podem criar jurisprudências, mas isso deve ser feito sempre de forma “harmônica com o direito”.

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Paulo Pimenta, compartilhou a entrevista nas redes sociais. “Em entrevista, Papa Francisco comenta manipulação do sistema judiciário que fizeram no Brasil, diz que condenaram o presidente Lula sem provas e que a presidenta Dilma é uma mulher exemplar, de ‘mãos limpas’”.


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