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Multiplicação de fraudes: PF mostra que Edir Macedo opera milagres

Autorização para consignado amplia desgaste político de Tarcísio e Ricardo Nunes

Publicado em 23/06/2026 11:40 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A Polícia Federal cumpriu nesta terça (23) mandados judiciais no âmbito da Operação Miragem, para apurar crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. O alvo das investigações é o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

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Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. Entre as medidas estão a quebra de “sigilos bancário e fiscal dos investigados e o sequestro e bloqueio de bens e valores de até R$ 670 milhões”.

Segundo a PF, as investigações, subsidiadas por relatórios do Banco Central, indicam que os “investigados teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira da instituição, aparentar solvência perante os órgãos de controle e viabilizar operações supostamente irregulares”.

Os envolvidos poderão responder pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela Lei nº 7.492/1986.

Segundo interlocutores, o dono da Record TV e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus buscava, com a instituição, canalizar a parte financeira de suas operações, em especial da Igreja Universal. Com a aquisição, o nome mudou para Digimais, a sede foi transferida do Rio Grande do Sul para São Paulo e Macedo colocou o bispo João Luiz Urbaneja para comandar a instituição.

Até então, o foco era o financiamento de veículos no estado gaúcho, mas a nova direção começou a diversificar a receita, comprando carteiras de crédito e títulos e valores mobiliários. Segundo dados de março de 2026, divulgados pela plataforma IF Data do Banco Central, o banco tinha R$ 10 bilhões em ativos.

Mais recentemente, o banco também passou a originar crédito consignado, com contratos com a Prefeitura de São Paulo. Porém, a carteira de crédito de R$ 1,57 bilhão ainda é em sua maioria de financiamento de veículos, seguida de consignado.

No primeiro trimestre, a instituição reportou um prejuízo líquido de R$ 108,35 milhões. No ano passado, o balanço apontou lucro líquido de R$ 31 milhões.

Há anos o banco enfrenta deterioração financeira e Edir Macedo precisou injetar recursos na instituição, ao passo que começou a tentar vendê-lo.

O estresse financeiro se refletiu na alta rentabilidade dos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) oferecidos pelo Digimais, que chegou a 130% do CDI, acima da média do mercado, levantando alertas.
Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, chegou a anunciar a aquisição em janeiro de 2025, em troca de uma injeção de R$ 800 milhões no Digimais, mas o negócio foi cancelado dois meses depois, com o avanço das investigações sobre Quadrado.

Para facilitar a venda, Macedo deu a administração do banco para um executivo com mais experiência no setor. Desde o fim de 2025, a instituição é comandada por Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, que tem a missão de deixar a casa em ordem e vendê-la. Já o bispo Urbaneja ficou no comando do conselho de administração.

Em abril deste ano, o BTG Pactual anunciou acordo para adquirir a instiuição. A informação foi confirmada pelo banco de André Esteves em comunicado ao mercado. O Digimais não se pronunciou. Procurado nesta terça, o BTG disse que não iria comentar.

A Folha apurou com pessoas próximas ao assunto que a conclusão da transação dependia de uma série de tratativas, inclusive um acerto com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) para financiar a transação. Outras instituições financeiras interessadas no Digimais também poderiam entrar em uma eventual disputa pelo banco de Edir Macedo com patrocínio do fundo. Na prática, outros proponentes poderiam fazer uma oferta de compra do banco.

No comunicado, o BTG afirmou que o objetivo da disputa é estabelecer um valor de referência para a alienação da totalidade das ações do Digimais, “em um processo competitivo a ser oportunamente lançado”. Entre outros fatores, será necessária a aprovação do Banco Central e do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

Nos bastidores, a venda era vista com bons olhos por ser uma forma de evitar uma eventual liquidação do Digimais, cujos depósitos teriam que ser integralmente cobertos pelo FGC. Com a alienação para outro banco, a tendência é que as perdas do fundo sejam menores, mesmo que o FGC tenha que cobrir parte do passivo.

Muito milagre

A deflagração da Operação Miragem colocou o Banco Digimais no centro de uma investigação que vai além das suspeitas envolvendo uma única instituição financeira. O caso reacende questionamentos sobre mecanismos de supervisão do sistema bancário e sobre estratégias utilizadas por determinados grupos para sustentar, ao menos formalmente, indicadores de saúde financeira incompatíveis com a realidade de seus balanços.

As apurações conduzidas pela Polícia Federal apontam para possíveis manobras destinadas a ocultar fragilidades patrimoniais por meio de registros e operações que teriam produzido uma aparência artificial de solvência. O cenário remete inevitavelmente a práticas identificadas em outras crises recentes do setor financeiro, especialmente aquelas associadas ao colapso do Banco Master.

Embora os métodos investigados apresentem características próprias, especialistas do mercado observam semelhanças na lógica subjacente. Em ambos os casos, a sustentação de ativos e resultados financeiros teria dependido de operações capazes de ampliar a distância entre a situação econômica efetiva e a imagem transmitida a reguladores, investidores e ao público.

No caso do Digimais, as suspeitas se concentram na utilização de estruturas envolvendo fundos de investimento para absorver ativos de baixa qualidade pertencentes à própria instituição. A operação teria permitido reduzir o impacto imediato desses créditos problemáticos sobre os demonstrativos financeiros, preservando indicadores que poderiam sugerir maior robustez do que aquela efetivamente existente.

A dinâmica investigada se basearia na transferência de carteiras com elevado grau de risco, especialmente ligadas ao financiamento de veículos, para veículos de investimento vinculados ao próprio grupo econômico. Na prática, a operação manteria o risco dentro do mesmo ecossistema financeiro, mas permitiria alterar sua apresentação contábil. O resultado seria a construção de uma percepção de estabilidade sem que houvesse, necessariamente, melhora correspondente na qualidade dos ativos.

Esse tipo de expediente ganha relevância porque a confiança constitui um dos principais ativos de qualquer instituição financeira. Bancos dependem da credibilidade para captar recursos, atrair investidores e manter sua liquidez. Quando os números apresentados ao mercado não refletem adequadamente os riscos existentes, a consequência pode ser uma precificação distorcida e uma transferência involuntária desses riscos para terceiros.

Foi nesse ambiente que instituições como o Digimais passaram a oferecer produtos de captação com remunerações significativamente superiores às praticadas pelos grandes bancos. Taxas elevadas costumam funcionar como poderoso instrumento de atração de recursos, especialmente em períodos de busca por maior rentabilidade. O problema surge quando o retorno oferecido ao investidor está associado a uma deterioração financeira que não aparece de forma transparente nos demonstrativos públicos.

A preocupação dos reguladores se tornou ainda mais evidente após a tentativa de transferência do controle do Digimais para Maurício Quadrado, empresário que integrou a estrutura societária do Banco Master. O negócio acabou interrompido diante das avaliações de risco conduzidas pelas autoridades monetárias, que identificaram potencial impacto sistêmico na operação.

O precedente mais recente ajuda a compreender a cautela. A liquidação extrajudicial do Banco Master produziu uma das maiores mobilizações da história do Fundo Garantidor de Créditos. O episódio exigiu a destinação de aproximadamente R$ 49 bilhões para assegurar a cobertura dos depósitos protegidos, transformando-se em um marco para o setor financeiro nacional.

É justamente essa memória recente que torna a situação do Digimais particularmente sensível. A Justiça Federal autorizou o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores relacionados aos investigados, medida que acompanha os mandados de busca e apreensão executados pela Polícia Federal. Embora o nome de Edir Macedo apareça entre os investigados, as diligências não tiveram como alvo endereços vinculados diretamente ao líder da Igreja Universal.

A investigação também produz efeitos no campo político. Parlamentares ligados ao Republicanos passaram a sustentar que a instituição estaria sendo alvo de perseguição. A narrativa busca deslocar o debate para uma esfera de disputa política, mas enfrenta um obstáculo relevante: as suspeitas que fundamentam a operação derivam de análises técnicas realizadas por órgãos responsáveis pela supervisão do sistema financeiro.

O embate, portanto, tende a se concentrar menos em interpretações ideológicas e mais na capacidade de demonstrar a regularidade das operações questionadas. Em casos dessa natureza, a controvérsia não costuma ser resolvida por discursos públicos, mas pela consistência dos documentos, registros contábeis e evidências produzidas durante a investigação.

A Operação Miragem surge, assim, como mais um capítulo de um debate que se tornou recorrente no sistema financeiro brasileiro: até que ponto estruturas complexas de investimento podem ser utilizadas para administrar riscos legítimos e em que momento passam a servir como instrumentos para mascarar problemas patrimoniais. A resposta a essa pergunta terá impacto não apenas sobre os investigados, mas também sobre a confiança depositada por investidores e correntistas na capacidade de fiscalização das autoridades responsáveis pelo setor.

Autorização para consignado amplia desgaste político de Tarcísio e Ricardo Nunes

As consequências políticas da Operação Miragem não se limitam aos dirigentes e controladores do Banco Digimais. O avanço das investigações também projeta questionamentos sobre decisões tomadas por gestores públicos que abriram espaço para a atuação da instituição junto a servidores estaduais e municipais em um período no qual já existiam sinais de fragilidade financeira no banco.

Entre os casos que passam a despertar maior atenção está a autorização concedida pelo Governo de São Paulo para que o Digimais operasse empréstimos consignados destinados a integrantes da Polícia Militar. A medida foi formalizada em setembro do ano passado, quando a instituição já enfrentava dificuldades conhecidas por agentes do mercado financeiro e buscava alternativas para ampliar sua base de captação e geração de receitas.

Situação semelhante ocorreu na capital paulista. A administração do prefeito Ricardo Nunes permitiu que o banco oferecesse crédito consignado aos servidores municipais por meio de descontos diretamente na folha de pagamento. Embora esse tipo de convênio seja comum na administração pública, a escolha de instituições financeiras para operar tais modalidades de crédito costuma exigir avaliações sobre capacidade operacional, solidez patrimonial e segurança para os tomadores.

A questão ganha relevância adicional porque a investigação federal sugere que parte dos problemas identificados no Digimais não surgiu repentinamente. As suspeitas apontam para práticas que teriam sido desenvolvidas ao longo do tempo, justamente durante o período em que a instituição ampliava sua presença junto ao setor público e buscava fortalecer sua atuação em novas frentes de negócio.

O episódio também reabre discussões sobre a influência institucional da Igreja Universal em estruturas do poder público paulista. Nos últimos anos, diferentes iniciativas envolvendo órgãos estaduais passaram a registrar algum grau de participação da denominação religiosa ou de entidades a ela vinculadas. Eventos direcionados a policiais militares e profissionais da educação ocorreram em instalações da igreja, enquanto atividades de assistência religiosa foram incorporadas a batalhões policiais e programas desenvolvidos dentro do sistema prisional por meio de acordos de cooperação.

Nesse contexto, a presença do Digimais em programas de crédito voltados ao funcionalismo acaba sendo observada sob uma perspectiva mais ampla do que a de uma simples relação comercial entre governo e instituição financeira. Críticos enxergam um ambiente de proximidade política e institucional que teria favorecido a ampliação da influência de estruturas ligadas à Igreja Universal em áreas estratégicas da administração pública.

O debate inevitavelmente remete a episódios recentes envolvendo outros bancos que acabaram mergulhados em crises de grandes proporções. Governadores de diferentes estados foram questionados por manter relações financeiras com instituições que já apresentavam sinais de deterioração quando receberam contratos ou operações de grande porte do poder público. A controvérsia agora alcança São Paulo, onde o foco deixa de ser apenas a situação do banco e passa a incluir os critérios adotados para sua habilitação junto a servidores estaduais e municipais.

A discussão não gira em torno da legalidade dos convênios em si, mas da avaliação de risco que precedeu essas decisões. A concessão de acesso ao mercado de crédito consignado representa uma oportunidade valiosa para qualquer instituição financeira, uma vez que os pagamentos são descontados diretamente dos salários dos servidores, reduzindo significativamente os índices de inadimplência. Trata-se, portanto, de uma carteira especialmente atrativa para bancos que buscam fortalecer receitas e melhorar indicadores operacionais.

É justamente por esse motivo que a autorização concedida ao Digimais passa a ser examinada sob nova ótica. Com a instituição agora sob investigação por suspeitas de fraude contra o Sistema Financeiro Nacional, cresce a pressão para que autoridades estaduais e municipais esclareçam quais análises foram realizadas antes da formalização dos convênios e quais informações estavam disponíveis aos responsáveis pelas decisões.

No caso do governador Tarcísio de Freitas, o tema adquire contornos ainda mais delicados em razão das conexões políticas envolvidas. O Republicanos, partido ao qual o governador é filiado, possui histórico vínculo com a Igreja Universal, fundada por Edir Macedo. Embora a existência dessa relação não constitua prova de favorecimento, ela amplia o interesse público sobre os procedimentos adotados pelo governo e sobre eventuais mecanismos utilizados para prevenir conflitos de interesse.

À medida que as investigações avançam, o foco tende a se deslocar da mecânica das operações financeiras para as responsabilidades institucionais associadas ao caso. Se a Polícia Federal busca determinar como a instituição apresentou ao mercado uma imagem de solidez incompatível com as suspeitas apuradas, o debate político passa a envolver outra questão: por quais razões um banco que enfrentava dificuldades conhecidas conseguiu expandir sua presença justamente em segmentos protegidos pela estabilidade da folha de pagamento de servidores públicos.

Mais do que uma controvérsia sobre crédito consignado, o episódio se transforma em um teste de transparência para governos que agora precisarão demonstrar quais critérios nortearam suas decisões. Em um ambiente marcado por suspeitas de manipulação contábil e fragilidade financeira, a escolha de parceiros para operar recursos vinculados ao funcionalismo deixa de ser uma questão meramente administrativa e se converte em tema de evidente interesse público.

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