18/05/2024 - Edição 540

Poder

Bloqueados pelo STF voltam ao Twitter e ganham até 300 mil seguidores surfando no discurso de censura

Pelo menos 22 contas de extrema direita já voltaram à ativa com aval de Moraes – e seguem atacando a democracia. Somadas, elas têm mais de 13 milhões de seguidores

Publicado em 07/05/2024 9:41 - Paulo Motoryn – Intercept_Brasil

Divulgação

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O relatório divulgado pelo Comitê de Assuntos Judiciários da Câmara dos Estados Unidos – de maioria trumpista – foi uma das cartadas da extrema direita para comprovar a tese de que o Brasil vive um regime de “censura agressiva”, como definiu o bilionário Elon Musk, dono da rede social X, o antigo Twitter. Na prática, não é bem assim.

Um levantamento do Intercept Brasil, produzido a partir de informações extraídas dos 85 despachos sigilosos do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal Superior Eleitoral e de Tribunais Regionais Eleitorais, revelados pelo Comitê dos EUA, mostra que pelo menos 22 contas que haviam sido restringidas já voltaram ao ar.

Em ao menos 11 delas, houve não apenas o restabelecimento – mas um ganho significativo de seguidores. Ao todo, as contas de políticos e apoiadores bolsonaristas que voltaram à ativa têm mais de 13 milhões de seguidores.

O Intercept conseguiu checar a variação do número de seguidores de 13 contas que já voltaram ao X. Entre elas, 11 perfis tiveram um acréscimo somado de mais de 300 mil seguidores.

O destaque é o influenciador Ed Raposo, que quase dobrou: saiu de 155 mil e foi para 291,8 mil seguidores. Suas postagens seguem a linha de violência política da cartilha da extrema direita. No dia 20 de abril, por exemplo, publicou, logo pela manhã: “Preparado para mais um dia de guerra contra esquerdistas perturbados”.

O tom não é muito diferente do que publicava antes do bloqueio determinado pelo STF. “Se o TSE não aceitar, entra em ação o poder moderador”, publicou, por exemplo, depois do segundo turno da eleição presidencial.

Além de Raposo, outras contas surfaram no discurso da perseguição para aumentar suas bases de seguidores. O ativista Adrilles Jorge teve aumento de 89,6 mil seguidores desde que retornou ao X, consolidando-se como uma voz influente na plataforma, cada vez mais próximo da marca de 1 milhão de seguidores, com 990,6 mil seguidores.

Outro perfil que ganhou considerável destaque foi o do ativista Flávio Gordon, com um aumento de 43.700 seguidores desde sua volta, totalizando agora 231.400 seguidores.

Nos documentos, a reportagem localizou decisões que determinaram o bloqueio de 140 contas no X. A título de comparação, um ano depois do Capitólio, os Estados Unidos já tinham bloqueado 150 mil contas do Twitter. Ou seja, o levantamento mostra que as contas bloqueadas por razões políticas no Brasil são 0,1% do que foi feito nos EUA. Entre elas, 22 já voltaram à ativa na plataforma com aval da Justiça, sendo 14 delas de grande porte, com mais de 500 mil seguidores.

Entre as que seguem banidas, estão apenas duas ligadas a parlamentares, a do senador Marcos do Val, a @MarcosDoVal, e a do deputado federal Gustavo Gayer, o perfil @GugaGayer, — este último, porém, já atingiu mais de 1 milhão de seguidores em uma nova conta, a @GusGayer.

‘Estamos sob a égide do AI-6, mais moderno’

A alegação de que parlamentares com mandato estariam sendo censurados apareceu diversas vezes nas alegações de Musk. Mas a realidade mostra que o banimento das contas de congressistas foi temporário.

Entre as contas que já retornaram ao Twitter com o perfil original, sem precisar mudar de nome como Gayer, estão os deputados federais do PL, Nikolas Ferreira, Major Vitor Hugo, Otoni de Paula e Carla Zambelli, além de Marcel Van Hattem, do Partido Novo.

Van Hattem, por sinal, escreveu o seguinte no X, sobre Moraes, na semana passada: “O ditador faz o AI-5 parecer brincadeira de criança”, em referência ao ato institucional mais brutal da Ditadura Militar.

O deputado do Novo não é o único das mais de duas dezenas de contas que retornaram à plataforma e que seguem disseminando desinformação, com postagens que tentam minar a confiança nas instituições democráticas.

“Estamos sob a égide do AI-6, mais moderno, mais robusto e infinitamente mais poderoso”, escreveu, em 29 de abril, outra das contas que voltou à rede, a do deputado federal José Medeiros, do PL do Mato Grosso. “Cadelinha da ditadura”, publicou recentemente a influenciadora Paula Marisa. Os dois foram banidos da rede social, mas as decisões foram revertidas.

Na lista, há ainda influenciadores de amplo alcance, como Bárbara Destefani e Paula Marisa, e o pastor André Valadão, da Igreja Lagoinha, de Minas Gerais. Uma das principais tônicas das postagens são as acusações do suposto regime de censura. A estratégia tem dado engajamento.

O levantamento ainda revela aspectos contraditórios da cruzada de Elon Musk e da extrema direita brasileira a favor da liberdade de expressão. O Intercept localizou três perfis que estão suspensos por violação de regras da própria plataforma, e não por decisão da Justiça. Entre eles, estão duas contas de apoio ao ex-deputado federal Daniel Silveira, a @DanielFederal e a @ApoioSilveira, e a de Leandro Gustavo Fox, um bolsonarista de Goiás.

Nesses casos, em vez da mensagem de que os perfis estão retidos em função de medidas judiciais, o X informa que as contas estão suspensas e explica: “O X suspende as contas que violam as Regras do X”.

O fato é curioso porque as contas estão entre as que são apontadas por Musk como “censuradas”. Mas, na realidade, é sua própria empresa que mantém o banimento dos perfis.


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