21/02/2024 - Edição 525

Palavra do Editor

Índio autêntico, branco falso

Publicado em 13/01/2017 12:00 -

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O tema da Escola de Samba carioca Imperatriz Leopoldinense para o carnaval 2017 está enfurecendo produtores rurais Brasil afora. Sob o tema “Xingu, o Clamor que Vem da Floresta!”, o samba-enredo traz críticas à Usina de Belo Monte e ao agronegócio.

Cantam os sambistas:

“Caraíba não mede consequências. Acredita na sua ciência, buscando o que chama de progresso. Derruba floresta, espalha veneno e acha o mundo pequeno para semear tanta arrogância. Invade nossas terras, liga a motosserra e no lugar dos troncos sagrados, planta ganância.”

Produtores rurais têm todo direito de se sentirem incomodados com o enredo da Imperatriz (veja a letra aqui). Podem ressaltar a importância do setor para a economia do país e até questionar o conhecimento de causa dos autores do samba sobre o tema.

O que o setor não pode – ou não deveria – é patrocinar o jornalismo setorizado no agronegócio para propagar o racismo, a intolerância e a xenofobia.

Foi exatamente o que fez a jornalista Fabélia Oliveira em editorial do programa Sucesso no Campo, da Record Goiás, no último dia 8.

Para defender os produtores rurais Fabélia atacou os índios, não com argumentos lógicos, mas com uma visão, digamos, equivocada, da relação entre cultura e tecnologia.

Disse Fabélia (na íntegra aqui):

“Eles querem a mata para preservar a cultura deles? Eu sou a favor desta preservação se o índio for original. Agora, deixar a mata preservada para comer de geladeira, isso não é cultura indígena não. Sinto muito. Se o índio quer preservar cultura ele não pode ter aceso à tecnologia que nós temos. Ele não pode comer de geladeira, tomar banho de chuveiro e tomar remédios químicos. Porque há um controle populacional natural. Ele vai ter que morrer de malária, de tétano, do parto. É a natureza. Vai tratar da medicina do pajé, do cacique, que eles tinham. Aí justifica…”

Não entrarei no mérito das barbaridades que a jornalista goiana sustenta sobre o tema saúde. Elas falam por elas mesmas. No que diz respeito à identidade étnica, no entanto, vale dizer que as mudanças ocorridas em várias sociedades indígenas, como o fato de falarem português, vestirem roupas iguais às dos outros membros da sociedade nacional com que estão em contato, utilizarem modernas tecnologias (como aparelho de televisão, celular ou computador), não fazem com que percam sua identidade étnica e deixem de ser indígenas.

O celular, a máquina fotográfica, o computador, a televisão, a energia elétrica, toda a parafernália que faz parte do cotidiano das pessoas não tem suas raízes em solo brasileiro. No entanto, a identidade brasileira não é negada por causa disso. Assim, não se concede às culturas indígenas aquilo que se reivindica para si próprio: o direito de transitar por outras culturas e trocar com elas.

“Ninguém deixa de ser índio porque usa celular ou anda na cidade. Tradições culturais como as nossas são construídas socialmente, são dinâmicas e se modificam no processo histórico. Por isso, não vamos índios sem roupa andando pelas grandes cidades, mas o modo de se organizarem e de pensarem é diferente”, afirma o antropólogo Aloir Pacini (nosso entrevistado nesta edição).

Fabélia reproduz um discurso desigual. É como se o “homem branco” pudesse se apropriar de tecnologias sem perder a sua identidade, enquanto que quando os povos indígenas se apropriam da cultura do “branco” eles deixariam de ser índios. Com base no que pensa a jornalista da Record goiana, deixaríamos de ser brasileiros ao ouvirmos música internacional ou ao ler autores de outros países? Nos tornaríamos “índios” por comermos mandioca ou farinha?

Em pleno século XXI, há quem se depare com índios usando celular e imagine que isso seja algo inusitado, reforçando a ideia de que as culturas não podem mudar sem deixarem de ser autênticas. E é exatamente esta imagem do índio "autêntico" – nu ou de tanga, no meio da floresta, de arco e flecha – que sustenta o tipo de elaboração da jornalista goiana. Qualquer mudança nela provoca estranhamento, deslegitimação.

Quando o índio não se enquadra nesta representação, provoca reações como a de Fabélia, como a da pecuarista Kátia Abreu: "Não são mais índios". Ela, que batizou seus três filhos com os nomes de Irajá, Iratã e Iana, acha que o "índio de verdade" é o "índio de papel", da carta do Caminha, que viveu no passado, e não o "índio de carne e osso" que convive conosco, que está hoje no meio de nós, aponta José Ribamar Bessa Freire, professor-coordenador o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ).

O cotidiano de qualquer ser humano é marcado por elementos tecnológicos emprestados de outras culturas. A calça jeans ou o paletó e gravata que vestimos não foram inventados por brasileiros. A mesa e a cadeira na qual sentamos são móveis projetados na Mesopotâmia, no século VII a. C., daí passaram pelo Mediterrâneo onde sofreram modificações antes de chegarem a Portugal, que os trouxe para o Brasil.

O celular, a máquina fotográfica, a impressora, o computador, a televisão, a energia elétrica, a água encanada, a construção de prédios com cimento e tijolo, toda a parafernália que faz parte do cotidiano das pessoas não tem suas raízes em solo brasileiro. No entanto, a identidade brasileira não é negada por causa disso. Assim, não se concede às culturas indígenas aquilo que se reivindica para si próprio: o direito de transitar por outras culturas e trocar com elas.

O escritor mexicano Octávio Paz disse certa vez que "as civilizações não são fortalezas, mas encruzilhadas". Ninguém vive isolado, fechado entre muros. Historicamente, os povos em contato se influenciam mutuamente no campo da arte, da técnica, da ciência, da língua. Tudo aquilo que alguém produz de belo e de inteligente em uma cultura merece ser usufruído em qualquer parte do planeta.


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