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Mundo

Vitória de Trump é recado apavorante para todas as democracias do mundo

Ele mentiu, ofendeu, cometeu crimes e foi condenado. E, mesmo assim, foi eleito presidente da maior economia do mundo e uma potência nuclear

Publicado em 06/11/2024 9:46 - Jamil Chade e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação

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O republicano Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos. Vencedor em 2016, o magnata perdeu as eleições de 2020 para Joe Biden e volta à Casa Branca após 4 anos, consolidando-se como “dono” da direita norte-americana. O vice-presidente é JD Vance.

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O novo governo prometeu aprofundar o corte de impostos, reduzir a inflação, recuperar a indústria americana e adotar políticas duras contra produtos chineses. A campanha também foi marcada por promessas de realizar a maior deportação de estrangeiros da história americana e fechar as fronteiras contra imigrantes.

Denunciado pela vasta proliferação de desinformação e ataque xenófobos, Trump volta para a Casa Branca quatro anos depois de ser derrotado para Joe Biden usando a frágil situação econômica do país como cabo eleitoral.

O que esperar

Redução de inflação, corte de impostos e protecionismo devem virar prioridade. No primeiro mandato, o republicano prometeu tirar os EUA do Acordo de Paris. Agora quer cortar custos de energia expandindo a perfuração de petróleo e gás, estender o corte de impostos que ele assinou no primeiro mandato, e voltar ao protecionismo: defendeu taxar de 10% a 20% todas as importações e tarifar em mais de 60% produtos chineses. Em resposta, o chefe do IIF (Instituto Finanças Internacionais), Tim Adams, disse que essa imposição de tarifas pode aumentar a inflação e os juros.

“Ele deve tentar acabar com qualquer traço de política climática ‘verde’ e recolocar a produção de petróleo e gás no centro da economia. Sua agenda econômica deve seguir sendo pautada por cortes de impostos e desregulamentação”, explica João Cândido, especialista em análise de risco e comunicação política.

Comunidade internacional em alerta por política externa. “Ele já deixou claro que pretende reformular a participação dos EUA em alianças tradicionais, como a Otan, e realinhar o país em termos de comércio e geopolítica”, ressaltou Cândido. Sem detalhar, Trump disse algumas vezes que acabaria “rapidamente” com a guerra entre Ucrânia e Rússia, caso fosse eleito. Ele pode reavaliar o financiamento ao conflito.

“Os EUA rediscutindo essa tendência de apoiar a Ucrânia pode forçar Volodymyr Zelensky a abrir uma negociação mais efetiva visando encerrar o conflito”, diz Adriano Cerqueira, professor de relações internacionais do Ibmec-BH.

Menos direitos civis e pressão contra estrangeiros. Assim como no primeiro mandato, o discurso xenófobo deve ser muito explorado. Trump chegou a citar a “Lei dos Inimigos Estrangeiros”, de 1978, para defender uma deportação em massa de imigrantes. “Questões como imigração e políticas de direitos civis provavelmente serão ainda mais polarizadas, já que Trump se sente empoderado pela sua base. Podemos esperar menos compromisso com convenções democráticas, o que só aumentará o grau de tensão no país”, avaliou João Cândido. “Os EUA devem assumir uma postura mais agressiva nas fronteiras, um endurecimento na questão da imigração, principalmente a ilegal”, completa Cerqueira.

Trump vira “grande líder da direita” mundial. “Vai ser importante para o reforço da identidade de movimentos de direita e também de movimentos conservadores”, ressaltou o professor do Ibmec-BH. “Para a direita americana, é a coroação de uma transformação ideológica, onde as pautas tradicionais de livre mercado e intervenção estrangeira dão lugar a uma política de identidade e nacionalismo”, completa Cândido.

“Vitória de Trump é um sinal claro de que o movimento populista e nacionalista está longe de desaparecer. Líderes populistas em outros países – de Viktor Orbán na Hungria a Jair Bolsonaro no Brasil [caso faça um retorno] – passam a ver isso como uma legitimação de suas próprias agendas”, diz João Cândido.

Vitória de Trump é recado para todas as democracias do mundo

Ele mentiu, ofendeu, cometeu crimes e foi condenado. E, mesmo assim, foi eleito presidente da maior economia do mundo e uma potência nuclear. A vitória de Donald Trump nas eleições americanas deve ser ouvida, estudada e examinada por democracias de todo o mundo para entender como o sistema político que abandonou suas bases e uma parcela da população está sendo manipulado para permitir a chegada ao poder de movimentos com pouco compromisso com a democracia.

A ideia de que a derrota de Trump em 2020 e a de Jair Bolsonaro em 2022 tinham virado a página da história não é apenas míope como irresponsável.

Hoje, nos EUA, um país constata que sua democracia não conta com mecanismos para protegê-la. E chega ao poder, legitimado pelas urnas e pelo fracasso de outros governos em dar respostas à população, um movimento que não esconde seu viés autoritário.

Do centro do poder mundial, o recado é claro: a democracia está em crise, as instituições estão disfuncionais e a tecnologia hackeou a tomada de decisões.

Mas essa não é a única mensagem que sai da vitória de Trump. Com milhões de votos, seu movimento que abusou da xenofobia e do ódio mobilizou uma parcela significativa da população americana.

Ao longo dos últimos dois meses, percorri comícios e eventos organizados pela extrema direita apenas para constatar que aqueles que estavam ali tinham a impressão de que se sentiam ouvidos. Humilhados por um sistema econômico cruel, eleitores compraram uma mentira. Mas também sinalizaram que não suportam mais serem ignorados.

Enxergam em Trump o anti-herói que supostamente enfrentou as maiores injustiças do sistema e, ainda assim, resistiu. “Lute, lute, lute.” Sua frase ao ser baleado ecoava pelos comícios, como um grito da alma de cada um dos relegados do capitalismo.

Percorri também os bairros mais pobres da bilionária cidade de Nova York apenas para constatar a dimensão da pobreza e o colapso da ideia do “sonho americano”, uma espécie de mito fundador da atual sociedade nos EUA.

Ao vencer sua primeira eleição, Trump escolheu recuperar um termo da história política americana: “os homens e mulheres esquecidos”. Não cumpriu. Mas os democratas, com Joe Biden, tampouco deram uma resposta. Humilhados e diante do fim do “sonho americano”, os eleitores sentenciaram nas urnas sua indignação.

A referência aos “esquecidos” havia sido uma iniciativa de Franklin D. Roosevelt que, em 1932, alertou sobre essa camada da população “no fundo da pirâmide econômica”. Suas palavras chocaram seu partido, já que reconheceria a existência de um conflito de classe nos EUA. Ele bancou a aposta e insistiu que seu partido deveria se adaptar para atender aos esquecidos. E venceu.

Trump, um bilionário que usou o sistema para dar vantagens à elite americana, recorre a essa população apenas como massa de manobra para chegar ao poder. Mas sinaliza às demais forças políticas americanas e ao mundo que a democracia não sobrevive à desigualdade e à mentira.

Recrutar para defender a democracia exige dar a milhões de pessoas o direito de ter direitos, e instituições capazes de impedir o sequestro do sistema.

Trump venceu. E o mundo que escute o que isso significa.

Eleição de Trump abala cenário externo e mundo se prepara para turbulência

A vitória de Donald Trump abre uma nova etapa na política internacional e um fortalecimento do movimento de extrema direita global. Pelo mundo, e nos corredores da ONU, diplomatas, conselheiros e analistas se preparam para enfrentar meses de turbulência.

Em uma era marcada pela transformação do eixo de poder, Trump baseou sua campanha na promessa de que lutará por manter a hegemonia dos EUA. Inclusive com sanções contra aqueles que abandonarem o dólar.

De acordo com os planos construídos ao longo dos últimos anos, a Casa Branca ainda passará a ser o centro nevrálgico de uma operação globalizada da extrema direita mundial. O objetivo é ambicioso e os recursos são vastos: transformar a agenda internacional e impor um novo mundo.

A base seria um plano ultraconservador, com redefinição de direitos humanos e alimentando grupos de extrema direita em locais estratégicos para abalar os movimentos progressistas. Trump deve retomar alianças com governos reacionários, na esperança de frear qualquer ampliação de direitos para grupos LGBTQI+, mulheres e populações vulneráveis.

Essa batalha por uma nova hegemonia americana, porém, tem tudo para ser repleta de tensão.

Trump, por exemplo, promete subir tarifas de importação contra produtos estrangeiros. Se o foco é frear a ofensiva da China pela hegemonia comercial, o americano não descarta aplicar medidas protecionistas contra antigos aliados. Na Alemanha, em crise existencial com os abalos na Volkswagen, pode ser uma das vítimas.

Estudos realizados pelo German Economic Institute indicam que o maior país da Europa poderia sofrer perdas de 180 bilhões de euros nos quatro anos de Trump, caso ele aplique seu plano de governo, com uma queda de 1,5% no PIB alemão. Na UE, a contração seria de 1,3% da economia.

Os europeus ainda terão de arcar com a Otan, aceitar uma negociação com os russos por conta da Ucrânia e admitir que a aliança transatlântica – que perdurou durante todo o século 20 – está ameaçada. Por meses, a relação entre Trump e Vladimir Putin tem preocupado as principais capitais europeias.

Há poucos dias, o primeiro-ministro húngaro e aliado de Trump, Viktor Orbán, admitiu que a vitória do republicano obrigaria a Europa a se “adaptar” a uma nova realidade na Ucrânia.

Em Israel, a vitória de Trump foi amplamente comemorada por um governo formado por ministros de extrema direita. Para analistas, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não sofrerá mais qualquer questionamento por parte da Casa Branca para “terminar o trabalho” com relação ao Hamas em Gaza e ao Hezbollah no Líbano.

Em diferentes capitais sul-americanas, o temor é outro: um foco na Venezuela e uma operação para tentar desestabilizar Nicolas Maduro. Tanto na Colômbia como no Brasil, diplomatas o risco é de que um fluxo ainda maior de refugiados seja gerado, além de uma guerra civil nas fronteiras brasileiras.

Na ONU e em outras organizações internacionais, a vitória de Trump foi ainda recebida com lágrimas e o temor de que seu mandato fragilize ainda mais uma entidade que luta pela sobrevivência. Em 2016, o republicano cortou recursos e abandonou instituições.

Agora, a ofensiva pode ser ainda maior.

EUA optam pelo inferno e forçam o mundo a conviver com o diabo

O último privilégio concedido pela democracia ao cidadão é o de poder escolher seu próprio caminho para o inferno. Ao optar por Donald Trump, o eleitor americano transformou a Casa Branca numa gigantesca metáfora para a decadência da democracia dos Estados Unidos. De quebra, forçou o mundo a conviver com o diabo por pelo menos mais quatro anos.

Há cinco meses, Trump tornou-se o primeiro ex-presidente americano com o título de criminoso no currículo. O Tribunal Criminal de Manhattan condenou-o por falsificar registros contábeis para encobrir pagamentos a uma atriz pornô. Discutia-se o tipo de castigo: prisão, liberdade com tornozeleira ou apenas multa. Trump deu de ombros: “O verdadeiro veredito sairá no dia 5 de novembro, dado pelo povo”.

Trump não obteve apenas o aval do eleitor. Retorna ao poder com maioria no Congresso e uma Suprema Corte de viés conservador. Sua coleção de processos judiciais foi encostada no arquivo. É como se a insensatez recebesse salvo-conduto para radicalizar uma agenda em que a fuligem antiambiental e o isolacionismo econômico se misturam a detritos morais como a misoginia e a xenofobia.

A ironia suprema do processo eleitoral americano envolve a própria democracia e seus riscos. A maioria dos eleitores nasceu depois da Segunda Guerra Mundial. Conhece os horrores apenas como dados históricos, que são contestados pelo neofascismo. O retorno de Trump pulveriza a ilusão de que, cedo ou tarde, anticorpos herdados de gerações anteriores livrariam o império decadente de sua assombração totalitária.

O mito da extrema direita volta com força. O radicalismo muitas vezes reduz a política a uma decisão sobre até onde cada um está disposto a conversar com o Diabo. O dilema desafia o mundo. No Brasil, onde partidos liderados por entusiastas de Bolsonaro celebram a vitória de Trump aninhados em ministérios de Lula, até as diferenças entre entre os graus de direita vão perdendo o sentido.

Quem é Donald Trump

Filho de herdeiro, recebeu do paí o negócio da família no ramo imobiliário. Donald John Trump nasceu em 14 de junho de 1946, em Nova York, e foi o terceiro dos quatro filhos de Frederick Christ Trump e Mary MacLeod. O pai, conhecido como Fred Trump, já era herdeiro dos negócios da família, focados no ramo imobiliário.

Assumiu a presidência da Trump Organization aos 28 anos, e investiu em cassinos. Assim que se formou em economia pela Universidade de Pensilvânia, começou herdar o império. Sob a presidência dele, o grupo investiu no setor de cassinos de Atlantic City —em 1990, o Trump Taj Mahal chegou a ser o maior cassino do mundo, antes de falir no ano seguinte.

Sob seu comando, outros negócios faliram, deixando o grupo com dívidas bilionárias. Ao longo dos anos, a Trump Organization decretou falência de diferentes empresas do grupo pelo menos 11 vezes — o que foi usado por adversários políticos para questionar sua habilidade com os negócios e sua imagem de empresário de sucesso.

Fama de homem de negócios vinha de presença constante na mídia. Seu “American Way of Life” foi extensivamente coberto a partir de seu casamento com a modelo tcheca Ivana Winklmayr, com quem ele teve seus três filhos — Donald Jr., Ivanka e Eric. Ele teria mais dois casamentos: com Marla Maples, com quem teria Tiffany, e com Melania Knauss, mãe de Barron Trump e futura primeira-dama.

Está demitido!”. O reality show “O Aprendiz”, no qual Trump contratava e dispensava —com a famosa frase “you’re fired” (você está demitido)— empreendedores para a Trump Organization, também ajudou a torná-lo mais conhecido.

Enfrentou processo de impeachment. Trump foi considerado culpado pela Câmara por pressionar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a abrir investigações contra Biden, então futuro rival na disputa de 2020. Ele foi poupado pelo Senado, com maioria republicana.

Seguidores trumpistas invadiram o Capitólio. Milhares de apoiadores de Trump invadiram o Capitólio para “lutar” por ele em 6 de janeiro de 2021. A multidão invadiu e depredou o Congresso. Senadores, deputados e ex-vice de Trump, Mike Pence, que se recusou a questionar o resultado das urnas, tiveram que ser escoltados pelas forças de segurança. Cinco pessoas, incluindo um policial, morreram no ataque.

Trump é alvo de condenações judiciais. O presidente eleito encarou uma série de processos judiciais -e se tornou o primeiro ex-presidente americano a ser condenado criminalmente. Leia as condenações:

Compra de silêncio de Stormy Daniels: em 30 de maio de 2024, Trump foi condenado por falsificar registros comerciais relacionados ao pagamento de US$ 130 mil para silenciar a ex-atriz Stormy Daniels, evitando um escândalo sexual nas eleições de 2016.

Interferência no resultado das eleições de 2020: Trump tentou reverter a vitória de Biden em 2020, espalhando falsas alegações de fraude e pressionando oficiais para anular os resultados, culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro. Há pelo menos quatro processos ativos envolvendo o Capitólio.

Interferência de Trump nas eleições da Geórgia: Trump e aliados tentaram reverter a derrota de 2020 na Geórgia, espalhando mentiras sobre fraude eleitoral, levando a uma acusação de 98 páginas em 14 de agosto de 2023.

Documentos secretos da CIA: procuradores federais acusam Trump de esconder documentos de segurança nacional em sua mansão em Mar-A-Lago após deixar a presidência, obstruindo os esforços do governo para recuperá-los.


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