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Mundo

Uma mulher preta contra um supremacista branco, uma democrata contra um golpista

Biden finalmente larga o osso, e a eleição nos EUA pode, de fato, começar

Publicado em 22/07/2024 11:21 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Leonardo Sakamoto (UOL), UOL – Edição Semana On

Divulgação

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Sai de cena o atentado que por pouco não matou o ex-presidente Donald Trump. Entra em cena a escolha pelo Partido Democrata do candidato que substituirá Joe Biden, o presidente que abdicou, ontem, de tentar se reeleger. O candidato mais provável é Kamala Harris, a vice-presidente dos Estados Unidos.

Normal? Tudo, menos normal. A de novembro deste ano será uma eleição histórica e sem precedentes nos Estados Unidos. Alguns analistas começam a chamá-la da eleição do pode ser e do pode não ser, tamanho o risco de a essa altura cravar qualquer coisa. A começar pela escolha de Kamala para candidata.

Trump uniu o Partido Republicano em torno do seu nome. Ali, manda ele e mais ninguém. No Partido Democrata, mandam inúmeros líderes. Apesar da idade e dos lapsos de memória, eles apoiaram Biden para candidato porque um presidente no exercício do cargo detém muito poder e se impõe naturalmente. Biden apoia Kamala.

No momento, o Partido Democrata está entre aceitar desde já Kamala como candidata ou realizar em agosto o que se conhece como “convenção aberta”. Em uma convenção aberta, vários nomes podem se apresentar. Caberá aos delegados à convenção, mais de uma centena, ungir pelo voto um dos nomes para concorrer à eleição.

A última vez que isso ocorreu foi em 1968, quando o então presidente Lyndon Johnson, que sucedera a John Kennedy, assassinado a tiros no Texas três anos antes, decidiu não disputar um novo mandato. A popularidade de Johnson estava em baixa por causa da guerra do Vietnã. Os americanos queriam o fim da guerra.

Johnson foi o segundo presidente dos Estados Unidos a desistir da reeleição. O primeiro foi Harry S. Truman, que governou de 1945 a 1952. Como vice-presidente, Truman sucedera a Franklin D. Roosevelt que morreu no cargo sem completar seu quarto mandato. A guerra da Coreia acabou por corroer a popularidade de Truman.

Biden é, portanto, o terceiro presidente a renunciar à reeleição. Não por causa das guerras na Ucrânia, invadida pela Rússia, e na Faixa de Gaza, travada por Israel e o grupo Hamas. A senilidade avançada de Biden foi o motivo da renúncia. Biden era o candidato a presidente mais velho da história do seu país. O título, agora, é de Trump.

O ineditismo da eleição de novembro está em que ela poderá pôr frente a frente um ex-presidente derrotado (Trump) que concorre pela primeira vez, o primeiro ex-presidente condenado por crime; e uma mulher preta e descendente de asiáticos. Nunca os Estados Unidos foram governados por uma mulher, e ainda por cima preta.

E uma única vez os Estados Unidos foram governados por um preto, Barack Obama, que se reelegeu e que deverá apoiar Kamala, uma vice-presidente apagada. Os pretos, há quatro anos, puseram Biden na Casa Branca. Farão o mesmo com Kamala se ela for candidata? Os pretos estavam divididos entre Biden e Trump.

É um esporte de risco o de profetizar o que poderá acontecer. Quem imaginou que Trump, há quatro anos, tentaria dar um golpe de Estado para não ceder o lugar a Biden? Quem imaginou que ele seria alvo de um atentado durante a campanha? O aleatório faz das suas. Trump diz que só reconhecerá os resultados da próxima eleição se vencer.

Em 1952, Truman deu lugar a Adlai Stevenson II como candidato do Partido Democrata a presidente. O general Dwight D. Eisenhower, candidato do Partido Republicano e herói da Segunda Guerra Mundial, o derrotou por larga margem de votos. Em 1968, o republicano Richard Nixon elegeu-se presidente com folga e se reelegeu.

As pesquisas mais recentes mostram que Kamala perde para Trump, mas ela parece estar se saindo melhor do que Biden, segundo o jornal The New York Times. Kamala fica atrás de Trump em dois pontos percentuais (46% a 48%). É um desempenho pouco melhor do que o de Biden (44% a 47%). Tomara que ela se eleja presidente.

Biden finalmente larga o osso, e a eleição nos EUA pode, de fato, começar

Após ser pressionado por grandes doadores de campanha, correligionários democratas, formadores de opinião, milhões de eleitores e até pelo SARS-COV-2, o presidente dos Estados Unidos Joe Biden desistiu de tentar a reeleição. Ele anunciou a decisão em uma carta divulgada nas redes sociais no domingo (21). Com isso, a eleição pode, de fato, começar.

Todo mundo sabia que ele não tinha condições de ser candidato nem a síndico. Não apenas pela deprimente participação no debate com Donald Trump, em que se mostrou totalmente perdido, mas pelas gafes cometidas nas semanas seguintes, esquecendo o nome de funcionários, trocando Zelenski por Putin e Kamala por Trump, mostrando-se terrivelmente frágil para um processo como a eleição norte-americana, que se assemelha a um moedor de carne.

Até nomes fortes de seu partido, como ex-presidente Barack Obama e a ex-presidente da Câmara, Nancy Pelosi, vazavam recados públicos de que Joe não tinha mais condições.

O atentado sofrido por seu oponente, o ex-presidente Donald Trump, na Pensilvânia, foi a gota d’água. Se já era difícil vencer o republicano em condições normais, ficou ainda mais com o tiro que machucou sua orelha e, por pouco, não o matou. A vitimização (estratégia usada por Trump para justificar os processos contra ele, principalmente o que trata da tentativa de golpe de estado de 6 de janeiro de 2021) agora tem foto com punho erguido, sangue, uma bandeira e homens do serviço secreto.

Era improvável que Biden conseguisse resistir à pressão – principalmente do poder econômico que fechou-lhe as torneiras do financiamento de campanha. Era questão de tempo até desistir. O problema é que tempo é algo que os democratas pouco têm para construir uma alternativa. Que enfrentará questionamentos sobre a manutenção de Biden na presidência – não tem condições de concorrer, mas tem de terminar o mandato?

São menos de quatro meses daqui até as eleições, período em que eles precisam ungir um nome, demonstrar unidade em torno dele, bombá-lo como a melhor alternativa a Trump, garantir que ele desperte o sonho de uma vida melhor ou, pelo menor e seja empolgante o bastante para as pessoas sairem de casa para escolhê-lo em uma eleição não-obrigatória.

Biden agradeceu à vice-presidente Kamala Harris, cujo nome endossou para concorrer em seu lugar em uma postagem seguinte. Além dela, que não é lá muito popular e enfrenta o racismo e o machismo, pipocam apostas nos governadores de Michigan, Califórnia, Illinois e Pensilvânia. Além de unidade, o Partido Democrata vai ter que se esforçar para evitar que uma disputa pela vaga deixe rancores e para construir um nome à altura. Eles não precisam de alguém amado em todos o país, apenas nos estados-pêndulo, decisivos, que ora vão para um lado, ora para o outro.

Por sorte, a fase “paz e amor” de Donald Trump não durou muito. Em seus discursos após o atentado, ele até passou alguns minutos tentando demonstrar ser uma pessoa comedida. Mas, logo em seguida, despejou todo o chorume que alegra os supremacistas brancos e a extrema direita tresloucada – de promessas de deportação de imigrantes em massa até fake news em série sobre a economia e relações internacionais. Acabou jogando o seu chamado por “unidade” no lixo e pode ter queimando a vantagem de imagem obtida com a empatia pós-atentado, afastando o eleitorado moderado. Mostrou que teme ser vencido.

O que importa agora é que, com atraso, os democratas entram na disputa.

Após desistência de Biden, plataforma de doações recebe R$ 259 milhões

Após a desistência de Joe Biden, a plataforma de arrecadação de fundos para a campanha do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos arrecadou US$ 46,7 milhões (aproximadamente R$ 259 milhões). O valor foi alcançado até às 22h de domingo (21).

A plataforma ActBlue anunciou nas redes sociais que “este foi o maior dia de captação de recursos do ciclo de 2024”. Segundo a plataforma, os doadores estão entusiasmados com o novo momento da campanha do partido.

Valor continua crescendo. Em atualização, pouco depois das 20h no horário de Brasília, e cinco horas após o anúncio de Biden, a plataforma já havia batido a marca dos US$ 27 milhões. Duas horas após, a quantia já havia chegado aos US$ 45 milhões.

Kamala inicia ofensiva mesmo sem confirmação do partido

A democrata ainda precisa da confirmação do partido para se lançar na disputa, mas já iniciou a campanha. Após a desistência, Biden endossou Harris para substituí-lo. “Ofereço meu apoio para Kamala ser a indicada pelo nosso partido neste ano”, disse Biden. Minutos após a publicação da carta nas redes sociais, o presidente publicou uma foto sinalizando apoio à sua vice, que também tinha sido citada na carta. “É hora de nos unirmos para combater Trump”, afirmou.

A vice-presidente recebeu apoio de outros correligionários. Bill e Hillary Clinton, por exemplo, publicaram uma carta conjunta em que agradecem Biden e declaram apoio à Kamala. “Agora é a hora de apoiar Kamala Harris e lutar com tudo o que temos para elegê-la. O futuro da América depende disso”, diz o texto

No entanto, Kamala ainda não recebeu apoio declarado de Barack Obama. Após a desistência, o ex-presidente dos Estados Unidos publicou uma carta nas redes sociais para relembrar a relação com Biden, que foi seu vice. O texto, no entanto, não faz nenhuma menção a Harris ou a qualquer possível substituto na disputa pela Casa Branca.

Nancy Pelosi também não se posicionou. A ex-presidente da Câmara declarou que Biden sempre colocou o país em primeiro lugar ao falar sobre a desistência. Porém, não declarou apoio a Kamala em sua manifestação.

A vice-presidente ainda precisa ser ratificada pelo Partido Democrata. O presidente do partido disse que vai “empreender um processo transparente e ordenado para avançar para uma candidatura”. A posição foi publicada nas redes sociais de Jaime Harrison, líder do Comitê Nacional Democrata, momentos após a desistência de Joe Biden.

A indefinição dos democratas não impediu Kamala de dar a largada na campanha. A vice-presidente fez uma postagem no domingo (21) em que agradeceu o apoio de Joe Biden à sua candidatura e anunciou um site para arrecadar doações para sua campanha. “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para unir o Partido Democrata —e unir a nossa nação— para derrotar Donald Trump e a sua agenda extrema do Projeto 2025. Se você está comigo, faça uma doação agora mesmo”, escreveu no X.

A democrata diz que quer “merecer e vencer esta nomeação”. Em comunicado enviado à imprensa, a vice-presidente descreveu sua amizade com Biden e narrou planos para a disputa presidencial. “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para unir o Partido Democrata — e unir nossa nação — para derrotar Donald Trump e sua agenda extrema do Projeto 2025”, disse a vice-presidente.

Kamala precisa do apoio de 1.969 dos 3.936 delegados democratas para garantir sua indicação na convenção. Biden era o candidato presumido do partido, mas não tem poder direto sobre a escolha do candidato formal dos delegados. A convenção do partido deve acontecer entre 19 e 22 de agosto.


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