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Mundo

Um tapa com luva pelica na cara de Donald Trump

Bad Bunny transforma o Super Bowl em manifesto contra o trumpismo e o racismo estrutural

Publicado em 09/02/2026 12:58 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Na maior vitrine do entretenimento dos Estados Unidos, assistida por dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo, a mensagem não veio em inglês, não pediu licença e tampouco se ajoelhou diante do poder. No palco do Super Bowl 60, o cantor porto-riquenho Bad Bunny expôs, com afeto, memória e cultura, aquilo que o trumpismo tenta negar: a presença latina é constitutiva da sociedade norte-americana — e não será apagada por ódio, deportações ou repressão institucional.

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Ao listar países da América Latina e afirmar, de forma direta, “seguimos aqui”, Bad Bunny falou menos como celebridade e mais como testemunha histórica de um tempo marcado pela radicalização da extrema direita nos Estados Unidos. Em poucos minutos, escreveu uma carta de amor à América Latina, afirmando que a diversidade não é uma concessão liberal, mas uma realidade irreversível.

A escolha do idioma foi política. Em espanhol, ele se apresentou ao público global:

“Meu nome é Benito Antonio Martínez Ocasio. E se estou aqui hoje no Super Bowl 60, é porque nunca, jamais deixei de acreditar em mim mesmo, e vocês também deveriam acreditar em si mesmos; vocês valem mais do que pensam.”

Num país onde o espanhol é frequentemente tratado como ameaça cultural, a frase ecoou como um gesto de desobediência simbólica — e como um lembrete de dignidade coletiva.

Cultura pop como arena política

O Super Bowl não é apenas a final da principal liga de futebol americano. É um ritual cívico não oficial dos Estados Unidos, uma celebração da identidade nacional transmitida para o planeta. Ao ocupar esse espaço, Bad Bunny deslocou o eixo simbólico do espetáculo: Porto Rico, América Latina, trabalhadores de canaviais, famílias migrantes e crianças passaram a ocupar o centro da narrativa.

A homenagem aos trabalhadores rurais, a crítica explícita aos apagões recorrentes e ao abandono governamental em Porto Rico dialogam com uma história colonial ainda em curso. Porto Rico, vale lembrar, é um território sob domínio dos Estados Unidos desde 1898, sem soberania plena e com direitos políticos limitados para sua população — uma contradição histórica no coração da autoproclamada maior democracia do mundo.

A família, frequentemente instrumentalizada por discursos ultraconservadores como símbolo de moral seletiva, apareceu ali como experiência concreta: uma criança dormindo em cadeiras de um casamento, referência direta à vivência latina de “crescer junto”, em comunidade. O número 64 na camisa do artista, alusivo ao ano de nascimento de sua mãe, reforçou a dimensão íntima e política da memória.

O gesto de entregar seu Grammy a um menino foi ainda mais contundente. Simbolizou tanto os sonhos das futuras gerações quanto uma denúncia silenciosa: a lembrança da criança de cinco anos presa pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), em meio à política sistemática de criminalização da migração. Fora do estádio, milhares erguiam simbolicamente um muro — não para excluir, mas para resistir à milícia política que orbita o trumpismo.

Trump reage — e confirma o alvo

A resposta não tardou. O então presidente Donald Trump foi às redes sociais atacar o espetáculo. Classificou-o como “bagunça”, “absolutamente terrível” e “uma afronta à grandeza da América”, afirmando ainda que “ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo”.

A reação é reveladora. Trump compreendeu perfeitamente a mensagem — e por isso se sentiu atingido. Como ocorre historicamente com movimentos autoritários, a diversidade cultural é percebida como ameaça existencial. Não por acaso, ideólogos ligados à extrema direita, herdeiros políticos de figuras como Charlie Kirk, organizaram eventos paralelos “exclusivos para americanos”, numa tentativa patética de reafirmar uma identidade nacional excludente e etnicamente hierarquizada.

A explosão do presidente foi a carapuça final para um movimento que flerta abertamente com ideias eugenistas. Para o racismo, a pluralidade assusta porque expõe o óbvio: sua própria mediocridade intelectual e moral.

Arte, democracia e responsabilidade histórica

A democracia norte-americana vive um período de fragilidade evidente, marcado por ataques às instituições, supressão de direitos e normalização da violência simbólica contra minorias. Em contextos assim, a história mostra que artistas costumam ser empurrados para o centro do debate público — não por vaidade, mas por necessidade.

Bad Bunny fez exatamente isso. Sem citar Trump, sem mencionar o ICE, sem recorrer ao panfleto, transformou sua obra em testemunho contra o autoritarismo. Como lembrava a filósofa Hannah Arendt, regimes totalitários temem a cultura porque ela preserva a pluralidade humana — aquilo que impede a homogeneização forçada do pensamento.

Ao transformar Porto Rico no epicentro do espetáculo, ao cantar em espanhol e ao acenar para países como Brasil, Chile e Argentina — cujos imigrantes hoje enfrentam hostilidade institucional nos EUA —, o artista reafirmou uma verdade sociológica básica: a América sempre foi mestiça, migrante e plural.

Sua postura também escancara a omissão de muitos artistas e instituições estadunidenses diante das arbitrariedades do trumpismo. No auge da carreira, Bad Bunny optou por usar seu capital simbólico não para o silêncio confortável, mas para o confronto ético. É, afinal, parte da atribuição histórica da arte: transformar sucesso em responsabilidade, e visibilidade em denúncia.

Quem venceu o Super Bowl?

O placar do jogo é irrelevante. Venceu a constatação de que o poder não reside apenas no controle militar, no medo, na supressão de direitos ou no saque de recursos naturais. Existe uma força que regimes autoritários não conseguem dominar: o afeto coletivo, a cultura compartilhada e a imaginação política.

O trumpismo sabe disso — e por isso reage com repressão aos sonhos. Bad Bunny respondeu com música, memória e humanidade. Sem mencionar o nome de Trump, deu-lhe o mais contundente dos recados. E mostrou que, contra o totalitarismo, a diversidade não é só resistência: é vitória.

 


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