Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

Trump suaviza discurso e admite possível diálogo com o Irã

Pressão sobre o petróleo começa a ser sentida em todo o mundo

Publicado em 10/03/2026 12:53 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (10) que não descarta abrir negociações com o Irã para encerrar o conflito em curso no Oriente Médio. A declaração, feita durante entrevista à emissora conservadora Fox News, marca uma inflexão retórica após semanas de declarações mais duras por parte do líder republicano.

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK E WHATSAPP

Segundo Trump, a possibilidade de diálogo depende das condições que venham a ser apresentadas, embora ele não tenha detalhado quais seriam esses termos. “É possível, dependendo dos termos”, afirmou. Em seguida, relativizou a própria proposta: “Você sabe, nós meio que não precisamos conversar mais, se você pensar bem, mas é possível”.

A sinalização ocorre após a ofensiva militar lançada por Washington e Tel Aviv em 28 de fevereiro contra o Irã — operação que resultou, entre outras consequências, na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei. Desde então, o governo de Teerã tem reiterado publicamente que não pretende retomar negociações com os Estados Unidos.

Durante a entrevista, Trump também criticou a escolha de Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá morto, como novo líder supremo do país. “Não estou feliz. Não acho que ele possa viver em paz”, disse o presidente norte-americano. A declaração ecoa comentários feitos no dia anterior, quando ele avaliou que as operações militares conduzidas por Estados Unidos e Israel tiveram resultados “muito além das expectativas”.

Apesar do tom de triunfo, Trump reconheceu surpresa com a capacidade de resposta militar iraniana. Nos últimos dias, Teerã lançou mísseis e drones contra países da região do Golfo, ampliando o alcance do conflito. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) anunciou nesta semana a 33ª fase da chamada Operação Verdadeira Promessa 4, direcionada a bases e instalações estratégicas dos Estados Unidos e de Israel.

Segundo o comunicado da força iraniana, a nova etapa inclui o emprego de mísseis de combustível sólido Khyber Shikan, armamentos de alta tecnologia equipados com ogivas de aproximadamente uma tonelada.

A entrevista também abordou o bombardeio ocorrido em 28 de fevereiro contra uma escola primária feminina na cidade de Minab, no sul do Irã, que deixou ao menos 175 mortos. Questionado sobre o episódio, Trump repetiu a posição apresentada no fim de semana pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmando que o caso permanece “sob investigação”.

O presidente acrescentou que “não somos os únicos que usam aquele foguete”. A afirmação contrasta com relatos divulgados por veículos de imprensa, incluindo o jornal New York Times, que apontam que a escola foi atingida por um míssil de cruzeiro Tomahawk — armamento de fabricação norte-americana — durante um ataque direcionado a uma base da Guarda Revolucionária localizada nas proximidades.

De acordo com o jornal, as forças armadas dos Estados Unidos seriam as únicas entre os envolvidos no conflito a utilizar esse tipo de míssil.

Irã ameaça bloquear exportações de petróleo a aliados dos EUA

As Forças Armadas do Irã advertiram que poderão impedir a exportação de petróleo da região para os Estados Unidos e para países aliados, em resposta à ofensiva conduzida por Washington e por Israel contra o território iraniano.

A declaração foi feita por Sardar Naeini, porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica, que afirmou que Teerã adotará medidas para interromper o fluxo energético destinado às potências consideradas hostis. “Diante da contínua agressão dos militares dos EUA e do regime sionista contra o povo iraniano e sua infraestrutura, não permitiremos a exportação de um único litro de petróleo da região para a parte hostil e seus parceiros até segunda ordem”, declarou.

Segundo o porta-voz, qualquer tentativa de Washington e Tel Aviv de estabilizar ou reduzir os preços internacionais do petróleo e do gás tenderá a fracassar enquanto o conflito permanecer ativo. “O comércio em tempos de guerra depende das condições de segurança”, afirmou.

A ameaça ocorre em meio à manutenção do bloqueio do Estreito de Ormuz, um dos pontos mais estratégicos do comércio global de energia. Aproximadamente 20% de todo o petróleo negociado no mundo passa por essa rota marítima, que conecta o Golfo Pérsico aos mercados internacionais.

O prolongamento das restrições ao tráfego de navios na região contribuiu para uma forte volatilidade nos preços do petróleo. Na segunda-feira, o barril chegou a ultrapassar a marca de US$ 100, refletindo temores de interrupção prolongada no fornecimento global.

Os preços recuaram parcialmente após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou que seu governo estaria disposto a suspender “certas sanções relacionadas ao petróleo” para tentar conter a alta. O mandatário, no entanto, não especificou quais medidas poderiam ser flexibilizadas nem por quanto tempo.

Trump também afirmou que a elevação das cotações teria sido “artificialmente inflacionada” após o início do conflito contra o Irã, classificando a ofensiva militar como “uma experiência muito positiva”. Ao comentar os efeitos da guerra sobre o mercado, reconheceu que as decisões tomadas por Washington inevitavelmente influenciam o comportamento dos preços.

“Provavelmente subiram menos do que eu pensava. Mas acho que ninguém esperava que tivéssemos sucesso tão rapidamente. Foi um sucesso militar”, disse.

Riscos para o mercado energético

Especialistas avaliam que a disputa no Golfo tende a manter o mercado internacional de energia sob forte instabilidade. O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Igor Fuser, afirma que o impacto atual decorre tanto de ataques contra navios-tanque no Estreito de Ormuz quanto de ofensivas contra instalações petrolíferas em países vizinhos.

Segundo ele, nações do Golfo que inicialmente buscavam manter neutralidade acabaram envolvidas na crise devido à presença de bases militares norte-americanas em seus territórios.

A dimensão logística da crise também preocupa analistas. O bloqueio da principal rota de escoamento do petróleo regional já teria interrompido o fornecimento de cerca de 15 milhões de barris por dia, volume equivalente a aproximadamente 30% do petróleo exportado por via marítima no mundo.

Além do petróleo, o mercado de gás natural liquefeito também sofreu impactos relevantes. O Catar, responsável por cerca de 20% das exportações globais de GNL, suspendeu temporariamente o envio do combustível.

Fuser explica que parte da interrupção ocorre por limitações de armazenamento nos países produtores. “Os tanques disponíveis já estão praticamente cheios”, observa. No caso do gás liquefeito, a retomada da produção plena pode levar semanas ou até meses devido à complexidade técnica do processo industrial.

Conflito prolongado

Diante desse cenário, a expectativa de analistas é de que os preços da energia permaneçam elevados no curto prazo — com potencial de novas altas caso as hostilidades persistam.

Para Fuser, a duração da guerra será decisiva. O impacto dependerá, segundo ele, da capacidade iraniana de continuar afetando rotas de transporte e infraestrutura energética, ampliando os custos econômicos do conflito para seus adversários e para o mercado global.

Ao mesmo tempo, a estratégia de Teerã pode ampliar seu isolamento regional. Ao atingir alvos em países do Golfo que abrigam bases militares norte-americanas, o Irã tende a empurrar esses governos para um envolvimento mais direto ao lado de Washington e de Tel Aviv.

Esse movimento, avalia o especialista, reduz a possibilidade de que essas mesmas nações atuem como mediadoras em eventuais negociações de cessar-fogo ou em futuras tentativas de acordo de paz.

Alta do petróleo divide impactos no Brasil

Os efeitos econômicos do conflito no Golfo também começam a repercutir no Brasil, ainda que de forma ambivalente. Segundo analistas, a valorização internacional do petróleo tende a beneficiar setores ligados à exportação de energia, mas também pode pressionar a inflação doméstica e afetar diretamente o custo de vida.

De acordo com o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Igor Fuser, os impactos globais mais severos recaem principalmente sobre economias fortemente dependentes de importações energéticas. Entre os mais afetados estariam países asiáticos — como China, Japão, Índia e Coreia do Sul — além da Europa, onde o preço do gás natural liquefeito (GNL) já registra aumentos expressivos em relação ao período anterior ao conflito.

No caso brasileiro, o cenário é mais complexo. Fuser destaca que a elevação das cotações internacionais pode ampliar receitas em determinados segmentos da economia. “A Petrobras e seus acionistas tendem a se beneficiar, já que uma parcela significativa da produção nacional é destinada ao mercado externo”, afirma.

Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 44,6 bilhões em petróleo bruto, consolidando o produto como o item de maior valor na balança comercial do país. Com os preços internacionais mais elevados, a tendência é de aumento tanto no saldo comercial quanto na arrecadação pública associada ao setor.

Além dos dividendos pagos aos acionistas da Petrobras — entre eles a própria União —, o aumento das cotações pode ampliar receitas governamentais provenientes de royalties e tributos ligados à cadeia petrolífera.

Pressão inflacionária

O outro lado dessa equação aparece no mercado interno. Embora, até o momento, o governo tenha evitado repassar integralmente a alta internacional aos preços domésticos de combustíveis, Fuser avalia que essa contenção tende a ser temporária.

“Com a elevação das cotações no mercado internacional, o repasse acaba acontecendo em algum momento”, afirma. Caso isso ocorra, o impacto mais imediato será sobre a inflação — fator que pode ganhar peso no debate político à medida que o país se aproxima do próximo ciclo eleitoral.

Efeito cascata nos preços

O economista Pedro Faria ressalta que a pressão inflacionária não se limita ao combustível utilizado diretamente pelos consumidores. Segundo ele, a estrutura do mercado energético brasileiro cria diversos canais indiretos de transmissão de preços.

Apesar de ser um grande produtor de petróleo, o Brasil ainda depende de importações de alguns insumos estratégicos, como parte do diesel consumido no país, uma parcela da gasolina e fertilizantes produzidos a partir do gás natural.

“Regiões que dependem mais do combustível importado, especialmente no Norte, tendem a sentir primeiro esse aumento”, explica Faria.

Ele destaca ainda um mecanismo típico do setor de distribuição: quando o preço do combustível importado sobe, distribuidores domésticos encontram espaço para elevar seus próprios preços, mesmo quando compram produto nacional.

“O distribuidor observa a alta do concorrente importado e percebe uma oportunidade de reajustar também. Isso gera um impacto generalizado”, afirma.

Esse movimento acaba se refletindo no índice de inflação por duas vias. A primeira é direta, no preço pago pelos motoristas. A segunda ocorre por meio de cadeias produtivas que dependem intensamente de transporte ou de insumos derivados do petróleo.

Entre os exemplos mais sensíveis estão o transporte de cargas e a produção de alimentos, altamente dependentes do diesel e de fertilizantes.

Limites de atuação da Petrobras

Diante desse cenário, cresce o debate sobre a capacidade da Petrobras de atuar como instrumento de estabilização de preços no mercado interno. Para Faria, essa margem de manobra hoje é significativamente menor do que no passado.

Um dos fatores apontados por ele é a privatização da BR Distribuidora, concluída em 2022 durante o governo de Jair Bolsonaro. Antes da operação, a rede de distribuição permitia à Petrobras exercer maior influência sobre os preços finais ao consumidor.

“A BR dava à Petrobras poder de atuar na ponta da cadeia. Como grande parte do combustível saía das refinarias da estatal e era distribuída por sua própria rede, a empresa conseguia pressionar concorrentes a manter preços alinhados”, explica.

Com a venda da distribuidora, a estatal passou a atuar basicamente na etapa de refino, vendendo combustíveis às distribuidoras privadas, que então definem os valores nas bombas com base no mercado — frequentemente acompanhando o preço do combustível importado.

Além disso, Faria aponta restrições institucionais introduzidas pela Lei das Estatais, de 2016, que estabelece regras mais rígidas para a atuação de empresas públicas de economia mista.

Segundo ele, a legislação limita a possibilidade de utilização dessas companhias como instrumentos diretos de política pública. Caso o governo decida, por exemplo, subsidiar combustíveis por meio da Petrobras, a União teria de compensar financeiramente eventuais perdas da empresa.

“Na prática, isso reduz muito a capacidade da Petrobras de segurar preços por conta própria”, afirma.

Outro fator limitante é operacional. De acordo com o economista, as refinarias da empresa já operam próximas do limite, com cerca de 98% de utilização da capacidade instalada.

“Isso significa que há pouco espaço para ampliar rapidamente a oferta de derivados e compensar oscilações do mercado externo”, conclui.

Europa flerta com expansão nuclear diante de tensões com a Rússia


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *