Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

Trump reúne nações submissas, puxa-sacos e extremistas em seu “Conselho da Paz”

Sem Brasil e potências europeias, entidade pretende dar ao presidente dos EUA palavra final sobre tudo

Publicado em 22/01/2026 12:39 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Sob o pretexto de pacificar conflitos globais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quinta-feira (22), em Davos, a criação do chamado Conselho da Paz — uma estrutura internacional paralela que nasce sem mandato claro, regras transparentes ou legitimidade multilateral. A iniciativa, apresentada como alternativa à Organização das Nações Unidas (ONU), sinaliza menos um esforço diplomático e mais um projeto de concentração de poder nas mãos do presidente americano.

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK E WHATSAPP

A encenação não deixou dúvidas quanto à hierarquia pretendida. Em um palco decorado com um símbolo que remete deliberadamente ao emblema da ONU — ramos cruzados incluídos —, o brasão dos Estados Unidos ocupava lugar de destaque ao lado da denominação “Conselho da Paz”. Trump foi apresentado como líder máximo da iniciativa, afirmando ter sido “convidado” a comandá-la, embora não tenha esclarecido por quem. Ao seu redor, chefes de Estado e representantes estrangeiros limitaram-se a assistir, em silêncio, a um discurso longo e autocentrado.

O ritual de fundação expôs a fragilidade institucional do novo organismo. Pelo texto do acordo, bastariam três assinaturas para que o conselho passasse a existir. Trump chamou Bahrein e Marrocos à mesa, assinou o documento e declarou o órgão oficialmente criado. Na sequência, outros líderes foram convocados individualmente a ratificar o tratado, sem intervenções públicas ou debates.

A palavra permaneceu restrita a figuras do círculo íntimo do presidente: a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt; o enviado para o Oriente Médio, Steve Witkoff; o genro Jared Kushner; e o secretário de Estado, Marco Rubio, que resumiu o espírito do encontro ao afirmar que o conselho seria fruto do “sonho do presidente Trump”. Rubio também atacou organismos multilaterais onde, segundo ele, “nada acontece”, e sugeriu que o destino imposto à Faixa de Gaza poderia ser replicado em outras regiões do planeta.

Embora Trump tenha prometido “trabalhar com todos, inclusive com a ONU”, o acordo estabelece apenas a obrigação de informar as Nações Unidas, a cada seis meses, sobre as ações do conselho — um gesto protocolar que reforça o caráter concorrente, não complementar, da iniciativa. O discurso, longe de enfatizar mediação ou diplomacia, exaltou repetidamente o poderio militar dos Estados Unidos. “Somos o maior poder militar do mundo”, afirmou, antes de defender a desmilitarização de Gaza, sua “reconstrução bela” e um programa vago de “desradicalização” e liberalização econômica.

Trump voltou a sustentar que teria encerrado oito guerras desde que reassumiu a Presidência, em janeiro de 2025, citando conflitos que envolvem, entre outros, Israel e Hamas, Índia e Paquistão, Armênia e Azerbaijão e Sérvia e Kosovo. A realidade em campo, porém, contradiz a narrativa. Na República Democrática do Congo, confrontos persistem entre o Exército e o grupo M23; na fronteira entre Tailândia e Camboja, uma nova escalada teve início no fim de 2025; e, nos territórios palestinos ocupados, a violência e a desumanização da população civil seguem como política de Estado por parte de Israel.

O anúncio do conselho também serviu de plataforma para ameaças veladas à América Latina. Trump indicou que prepara uma nova ofensiva terrestre contra o narcotráfico, após considerar “superada” a fase marítima, e voltou a mencionar a Venezuela, sugerindo que aguardava uma solução política — incluindo o sequestro de Nicolás Maduro — para ampliar a atuação militar na região.

Apesar da retórica grandiosa, o evento revelou isolamento. Dos 59 líderes convidados, apenas aliados dóceis ou governos alinhados à direita radical compareceram. Entre eles, Argentina, Paraguai, Hungria, Israel e Marrocos. Países como Reino Unido, França, Irlanda, Holanda e Noruega rejeitaram a proposta, enquanto Alemanha e Itália adotaram postura cautelosa. O Brasil não enviou representantes e avalia o convite sob forte resistência interna. China, Canadá e outras potências simplesmente ignoraram o gesto.

As regras do Conselho da Paz reforçam seu caráter personalista: Trump é a autoridade máxima, detém poder exclusivo de veto e controla convites para membros permanentes, que ainda precisam aportar US$ 1 bilhão para ingressar. Trata-se, na prática, de uma organização moldada sob medida para a vontade do presidente americano, sustentada por governos submissos e lideranças extremistas dispostas a legitimar sua ambição.

Ao reunir aliados obedientes e atacar o multilateralismo, Trump não propôs uma reforma da ordem internacional — declarou guerra política à ONU. Se o mundo conceder credibilidade a essa estrutura paralela, as Nações Unidas enfrentarão não apenas mais um desafio à sua relevância, mas uma tentativa explícita de substituição por um clube restrito, hierárquico e comandado por um único homem. A promessa de “paz no mundo”, repetida ao final do evento, soa menos como objetivo diplomático e mais como slogan de um projeto de poder global sem freios.

Europa entra em modo de contenção

A União Europeia reúne-se nesta quinta-feira (22) em cúpula extraordinária para recalibrar sua relação com os Estados Unidos, num momento em que a previsibilidade do vínculo transatlântico deixou de ser pressuposto e passou a ser exceção. A decisão reflete o impacto acumulado das ameaças recentes de Trump, que incluíram sanções tarifárias em larga escala contra países europeus e a possibilidade, depois relativizada, de uso da força para incorporar a Groenlândia.

O recuo de Trump, anunciado na véspera — tanto no front comercial quanto no discurso sobre o território autônomo ligado à Dinamarca —, foi recebido com alívio cauteloso. Para diplomatas europeus, a mudança de tom não recompõe a confiança corroída, mas apenas adia um confronto considerado provável. A avaliação dominante em Bruxelas é que o problema deixou de ser uma medida específica e passou a ser o método: pressão, imprevisibilidade e instrumentalização do poder econômico e militar como linguagem diplomática.

Nesse contexto, o chanceler alemão Friedrich Merz defendeu, em discurso no Fórum Econômico Mundial, uma postura de realismo estratégico. Sem negar a gravidade do momento, Merz advertiu contra soluções precipitadas que levem ao rompimento automático com Washington. Ao evocar a experiência histórica da Alemanha no século 20, alertou para os riscos de uma ordem internacional guiada exclusivamente pela força, especialmente para Estados médios e pequenos.

A fala, feita em Davos, sintetizou o dilema europeu: reconhecer que os Estados Unidos estão reformulando sua política externa e de segurança, reagindo à ascensão da China, à guerra da Rússia contra a Ucrânia e à erosão de sua liderança global, sem aceitar passivamente os custos dessa reconfiguração. Para Merz, trata-se de uma era de “política de grandes potências”, marcada por coerção e assimetria — um ambiente que exige escolhas estratégicas, não inércia.

Nos bastidores da cúpula, o tom é menos conciliador. Diplomatas da UE descrevem Trump como um ator que “cruzou o Rubicão” ao normalizar a intimidação como ferramenta de negociação. A conclusão compartilhada é que não há retorno ao status quo anterior e que a União precisa estruturar uma resposta de longo prazo, capaz de atravessar este governo e eventuais sucessores em Washington. O objetivo imediato é duplo: manter canais abertos com os EUA enquanto se reduz a dependência europeia em áreas sensíveis.

A vulnerabilidade é conhecida. Após décadas ancorada na proteção americana no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Europa carece de capacidades críticas — de inteligência e transporte estratégico a defesa antimísseis e escala industrial de produção militar. Essa lacuna confere aos Estados Unidos uma vantagem estrutural, que Trump tem explorado como alavanca política.

No campo econômico, a exposição é igualmente significativa. Os EUA permanecem como principal parceiro comercial da UE, o que amplia o impacto potencial de tarifas unilaterais usadas não apenas para fins comerciais, mas como instrumento de pressão geopolítica. Autoridades europeias discutem, de forma preventiva, linhas vermelhas e contramedidas, conscientes de que qualquer escalada tarifária traria custos bilaterais relevantes.

Antes do recuo americano, o bloco avaliava um pacote de retaliações que poderia atingir cerca de € 93 bilhões em importações dos Estados Unidos, além da ativação de mecanismos anti-coerção. A suspensão momentânea da ameaça não encerrou o debate: a pergunta central, repetida em reuniões fechadas, é se a palavra de hoje garante a política de amanhã — ou se uma nova guinada pode ocorrer a qualquer momento.

A questão da Groenlândia permanece como símbolo desse estado de incerteza. Apesar do anúncio de um entendimento preliminar entre Trump e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, os contornos do acordo seguem pouco claros. O que se sabe, segundo Rutte, é que aliados ocidentais deverão ampliar sua presença no Ártico e que as conversas entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia continuarão em bases técnicas.

Para diplomatas europeus, o episódio reforça uma fadiga política crescente diante de sucessivas demonstrações de força vindas de Washington. O diagnóstico que emerge da cúpula é pragmático: mais resiliência interna, maior coesão política, fortalecimento do mercado comum e ganho real de competitividade. E, sobretudo, a disposição de não normalizar a intimidação — seja tarifária, seja estratégica — como preço inevitável da aliança.

A reunião de hoje não deve produzir rupturas imediatas, mas marca um ponto de inflexão. A Europa começa a tratar os Estados Unidos não apenas como parceiro indispensável, mas como variável de risco em sua própria equação de segurança e prosperidade. O debate já não é se a relação mudou, e sim como o bloco pretende sobreviver — e se afirmar — em um cenário no qual a imprevisibilidade americana passou a ser um dado estrutural da política internacional.

Projeto prevê controle dos EUA sobre áreas da Groenlândia

Os contornos do acordo desenhado pelos Estados Unidos para conter a crise diplomática envolvendo a Groenlândia revelam uma ambição que vai além da cooperação em segurança. Segundo termos em negociação, o governo de Donald Trump busca consolidar controle direto sobre áreas onde já mantém bases militares no território, além de assegurar direitos ampliados para a exploração de terras raras — recursos estratégicos no tabuleiro geopolítico global.

As tratativas estão sendo conduzidas com a Dinamarca e tomam como referência uma revisão do acordo bilateral firmado em 1951, que regula a presença militar americana na ilha. A proposta atual, porém, representa um salto qualitativo: em vez de simples autorização operacional, os EUA passariam a exercer prerrogativas típicas de soberania em zonas específicas da Groenlândia.

O avanço das negociações veio à tona após Trump anunciar a retirada das ameaças tarifárias contra países europeus, decisão atribuída à construção de um “acordo-quadro” com a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Embora o presidente americano não tenha detalhado o conteúdo do entendimento, diplomatas confirmaram que o eixo central do pacto é a ampliação do acesso estratégico dos EUA à Groenlândia, peça-chave na disputa pelo Ártico.

Entre os pontos discutidos está a atualização do acordo que permitiu a instalação de bases militares americanas na ilha. O novo arranjo abriria espaço para a criação de “áreas de defesa” sob administração dos EUA, sempre que a Otan considerasse necessário, além de prever o reforço da presença militar ocidental na região e a intensificação das operações da aliança no Ártico.

Outro elemento sensível é a inclusão da Groenlândia nos planos do sistema antimísseis conhecido como “Cúpula Dourada”, voltado à contenção de ameaças vindas da Rússia e da China. A eventual instalação desse aparato ampliaria ainda mais o peso estratégico da ilha, ao mesmo tempo em que aprofundaria sua incorporação à arquitetura de defesa americana.

Copenhague reagiu com cautela e firmeza. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, a primeira-ministra Mette Frederiksen afirmou ser “natural” que a segurança do Ártico tenha sido discutida entre Trump e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Mas tratou de estabelecer limites claros: a Otan não possui mandato para negociar soberania em nome da Dinamarca, e nenhuma conversa desse tipo ocorreu, segundo ela, nos encontros recentes.

Frederiksen foi ainda mais explícita ao descartar concessões territoriais. “Não podemos negociar nossa soberania”, declarou, numa resposta direta à interpretação de que o projeto americano configuraria um “compromisso” aceitável para todas as partes. Na prática, a leitura do governo dinamarquês é de que a proposta redesenha fronteiras jurídicas sem o devido respaldo político.

O ponto mais controverso do plano está justamente na redefinição do status das áreas ocupadas por bases americanas, que passariam a ser tratadas como zonas de soberania dos Estados Unidos. Soma-se a isso a autorização para exploração de terras raras sem necessidade de aval dinamarquês — uma cláusula que toca no núcleo do controle econômico e ambiental do território.

O episódio reforça a percepção, já presente em capitais europeias, de que a política externa de Trump opera pela lógica do fato consumado: pressiona, recua parcialmente e, no intervalo, redefine parâmetros que antes eram considerados inegociáveis. No caso da Groenlândia, o debate deixou de ser apenas sobre defesa coletiva e passou a envolver soberania, recursos estratégicos e os limites da influência americana sobre aliados formais.

Mesmo sem desfecho imediato, a proposta expõe uma fratura duradoura na relação transatlântica. Para a Europa, o desafio não é apenas responder a um acordo específico, mas estabelecer até onde está disposta a ir — e a ceder — diante de uma estratégia que trata alianças como instrumentos flexíveis de poder, e não como compromissos estáveis entre Estados soberanos.

BEM-VINDO À PAPUDA


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *